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09/12/2008 05:59

De coração (Entrevista com Eduardo Noronha, da Sadia)

Gisele Centenaro
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Empresas brasileiras estão mais perspicazes ao enfrentar situações de crise, principalmente quando a crise provoca ondas de turbulência de fora para dentro, muitas delas visando a instauração de dificuldades circunstancias que paralisam ou diminuem ritmos de crescimento, o que, obviamente, gera terreno fértil para a concorrência do setor, em contextos nacionais e internacionais, colher “dividendos” nas disputas por mercados e investimentos. Um exemplo surpreendente dessa desenvoltura recém-adquirida e inimaginável no País no milênio passado vem da Sadia, uma das maiores gigantes do ramo alimentício que a nossa nação já viu nascer, cuja fundação se deu em 7 de junho de 1944, justamente pela aquisição de um frigorífico em dificuldades na pequena Concórdia, cidade localizada no oeste do estado de Santa Catarina, onde até hoje está instalada uma de suas unidades fabris, próxima dos irmãos-trabalhadores da mesma empresa em Chapecó.

Contam os mais velhos que o SA tem origem nas primeiras letras da expressão Sociedade Anônima e as três últimas compõem o “dia” que finaliza a harmonia das vontades concentrada em Concórdia. O mais óbvio, porém, é o consumidor traduzir a representação em português do vocábulo Sadia para “quem tem saúde para dar e vender”, o que se espera seja verdade, tanto na qualidade dos alimentados vendidos, como nos balanços financeiros da empresa, hoje empregadora de um número de funcionários que chega a assustar quando somadas todas as suas operações: 60 mil pessoas.

O clima está seco em Chapecó e Concórdia, muito mais que o esperado para a época do ano, em compensação, o tom severo dos principais executivos da Sadia não só está mais aprazível, como também mais desinibido e informal, como puderam constatar os jornalistas que participaram do tradicional almoço de final de ano na sede da empresa na Vila Anastácio, na capital paulista, realizado nesta segunda-feira, 8 de dezembro. Motivos não faltam, todos muito bem explicados pelo ex-ministro Luiz Fernando Furlan, presidente do Conselho Administrativo da companhia, o qual teve a grata satisfação de informar que a exposição líquida vendida em contratos cambiais da Sadia, saída do crítico patamar de U$ 2,36 bilhões em setembro passado, já baixou para US$ 678 milhões – preço alto a se pagar por atitudes ousadas em campos de risco, mas compensado pelo faturamento de R$ 3,2 bilhões alcançado no fim do terceiro trimestre deste exercício, contribuindo para que 2008 seja encerrado com cifra que pode ultrapassar a casa dos R$ 12 bilhões de reais, mesmo que a receita líquida não acompanhe o mesmo índice de evolução até 31 de dezembro (de janeiro a fim de setembro, essa soma chegou a R$ 7,7 bilhões). Muito provavelmente, o desfecho desse capítulo da história da Sadia nesta primeira década do século XXI deve se dar, com final feliz, no máximo em 10 meses.

O ritmo de produção segue intenso – com Furlan comemorando a concretização das relações da empresa com a China na área de exportação de frangos, intenção que havia sido colocada em contrato há quatro anos, mas, até então, aguardando por decisões práticas –, pois corresponde ao investimento recorde de R$ 1,6 bilhão feito nestes 12 meses em novas unidades e na ampliação da capacidade (que se soma ao aporte de R$ 1,1 bilhão que teve o mesmo destino em 2007) para atender à demanda interna e externa (o total das exportações já passa de US 3 bilhões ao ano, posicionando a Sadia entre as 10 maiores exportadoras do Brasil), contudo, montantes da mesma grandeza não se repetirão em 2009, quando os investimentos não devem ir além de R$ 500 mil reais, notícia que não alegra os mafrenses, visto que, embora tenha sido assinado em junho último o protocolo de intenções para instalação de uma unidade da empresa em Mafra, no Planalto Norte de Santa Catarina, o presidente do Conselho Administrativo não quer falar no assunto agora, alegando que, de acordo com o planejamento refeito em razão das ameaças de recessão no mundo todo, alguns projetos de expansão terão de ser adiados, ou, no mínimo, executados com mais morosidade.

Morosidade também é a tônica das discussões do Conselho Administrativo da companhia no tocante ao volume de produção ideal para o momento, em razão do clima de incertezas em mercados externos, sendo que a tendência do alto-comando é reduzir horas de trabalho em algumas fábricas (sem extinção de plantões, pois, de acordo com a logística, é impossível eliminar os turnos de trabalho noturno, por exemplo, sem gerar prejuízos causados por maquinários parados). Como se sabe, no caso das empresas do setor alimentício, um dos maiores complicadores que devem ser equacionados entre produção, atendimento de demanda, potencial e perspectivas de vendas é a capacidade física para estocagem, sendo que erros de planejamento, nesse item do processo, leva à perda de mercadorias e, conseqüentemente, a prejuízos, quadro que se agrava em situações nas quais se torna muito custoso o capital de giro, ou seja, quando os recursos necessários para financiar os gastos durante ciclos produtivos minguam.   

Por outro lado, ao falar em prejuízo, a questão da exposição líquida vendida aos contratos cambiais que desaguaram em perdas financeiras nem mesmo arranhou a imagem positiva da marca Sadia, que nas mídias tradicionais conta com estratégias de comunicação delineadas por DPZ (que gere o grosso da verba de propaganda), a DM9DDB e a Publicis Brasil, além da W/Brasil que no momento não atende nenhuma conta de produto da empresa – na web, a AgênciaClick é a parceira oficial. Segundo o diretor de marketing Eduardo Bernstein, a compra de mídia é centralizada pela companhia, sob orientação e análises das agências de propaganda, sendo que não houve qualquer redução de verba em 2008 nesse campo, como demonstra a campanha abrangente veiculada a partir de 1º. de dezembro para as linhas festivas, sob criação da DPZ. Também se mantêm os altos investimentos da marca em pontos-de-venda, sempre muito valorizados nas ações de comunicação tanto conceituais como de oportunidades, entre elas as de caráter sazonal.

Marca estrangeira do segmento de processados mais conhecida atualmente na Rússia, onde a Sadia tem fábrica inaugurada no final de 2007, e líder em industrializados de carne, frango inteiro e frango em partes nos mercados da Arábia Saudita, a Sadia detém, de acordo com Bernstein, 45% de market share no segmento de margarinas brasileira, no qual Qualy é a mais vendida e mais lembrada pelos consumidores, e alta performance de vendas nos demais nichos de atuação, como frios e congelados. Não há sinal de modificação dessa confortável posição da marca no mercado nacional, no cenário atual, exceto para crescer ainda mais, mesmo assim o executivo prefere não declarar se as verbas de comunicação publicitária e para ações promocionais sofrerão reduções em 2009, apenas salientando que já foram contabilizados 1 milhão de kits de Natal vendidos neste fim de ano, com previsão de 10% de aumento no total das vendas dos produtos da linha comemorativa em 2008.

Luz antes, no meio e no fim do túnel

Em seu setor, a Sadia é hoje a maior empresa de Santa Catarina, onde emprega 15 mil funcionários do total de 60 mil pessoas que compõem o efetivo no Brasil. Se não chove em Chapecó e Concórdia, correm lágrimas dos olhos dos times que atuam na companhia que deixou de embarcar, em Itajaí, cerca de 700 mil toneladas de produtos destinados à exportação devido à tragédia das águas no local. Containeres que não se mantiveram com temperatura abaixo de 18 graus negativos tiveram os produtos neles contidos considerados impróprios para consumo, mas uma boa parte desses abrigos refrigerados ainda passa por inspeção do Ministério da Agricultura para que sejam ou não liberadas as mercadorias que permaneceram em solo.

Itajaí foi um acidente que não comprometeu as metas de exportação da empresa, segundo Felipe Luz, diretor institucional, porque o desvio para o porto de Paranaguá é fácil e rápido, entretanto, a Sadia se engajou para valer na campanha de ajuda às vítimas das enchentes de todo o Estado, tanto através do envio de carretas lotadas de alimentos (lingüiça defumada, por exemplo), ajudando nesta fase de emergência, como por meio do acompanhamento do trabalho que vem sendo feito pela Defesa Civil, sob direção do major Márcio Luiz Alves, com o propósito de levantar verbas e estruturar a reconstrução das casas das famílias de desabrigados (cerca de 20 mil imóveis) e de cidades inteiras como Blumenaus.

“A Sadia é uma das empresas responsável pelas maiores doações às vítimas, através da Defesa Civil do Estado de Santa Catarina, onde é elogiável o trabalho realizado pelo major Márcio. Também tem sido fundamental a participação em todas as fases da campanha do ex-senador Geraldo Althoff, secretário de Articulação Nacional (antes denominada Representação do Estado de Santa Catarina em Brasília), bem como do governador Luiz Henrique da Silveira”, afirma Luz.

Ao lado de Althoff, que é médico por formação com especialidade em pediatria e ainda atua como professor na Universidade do Sul de Santa Catarina, em Tubarão, a companhia estuda a viabilização da reconstrução dos imóveis, auxiliando na obtenção de recursos e, inclusive, colaborando como grande doadora.

Simultaneamente, os próprios funcionários da Sadia participam como voluntários em todos os gêneros de atividades. Segundo Eduardo Noronha, diretor de RH da empresa, foi feita uma campanha para recolher donativos entre os 60 mil funcionários que resultaram em carretas com roupas, alimentos, utensílios domésticos e, ainda, R$ 70 mil reais encaminhados à Defesa Civil do Estado. No vídeo que complementa esta reportagem, Noronha dá detalhes sobre a campanha e também fala sobre os projetos de sustentabilidade da companhia.

Na seção Top Fotos, imagens clicadas por Wagner Sousa durante o almoço da diretoria da Sadia com a imprensa, na capital paulista.

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Ficha Técnica

Todos juntos
Segundo Eduardo Noronha, diretor de RH da Sadia, foi feita uma campanha para recolher donativos entre os 60 mil funcionários que resultaram em carretas com roupas, alimentos, utensílios domésticos e, ainda, R$ 70 mil reais encaminhados à Defesa Civil do Estado de Santa Catarina para ajudar as vítimas das enchentes e desmoronamentos na região. Neste vídeo, o executivo dá detalhes sobre a campanha e também fala sobre os projetos de sustentabilidade da companhia.

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