Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comApesar de toda seriedade exigida no desenvolvimento de um trabalho estratégico que culmina na criação ou reformulação de uma linha ou de uma única peça de embalagem – seriedade atestada sob todas as provas quando nos referimos aos profissionais brasileiros que atuam nesse setor –, há, nos bastidores desse segmento da atividade de design, uma informalidade contagiante que, além somar júbilo aos projetos na fusão com outras fontes de inspiração, dentre elas as científicas e técnicas, faz com que muitos jovens se sintam extremamente atraídos por esse universo, no qual sonham construir carreiras ao lado de ídolos que hoje têm a grande responsabilidade de responder como líderes corporativos e empresariais desse quinhão do mercado nacional focado em comunicação de marketing. Por isso, ao nos referirmos a eles como a “turma da embalagem”, a compreensão é rápida e sob conotação carinhosa entre todos aqueles que militam na área de design, cujo caráter multidisciplinar leva a muitos caminhos e diferentes soluções mercadológicas num processo (ou projeto) de branding. A Brazil Design Week está contribuindo para que esses “caras bacanas e talentosos” deixem de ser vistos somente de longe, numa espécie de vitrine iluminada, como testemunhado por quem lotou o auditório da Cinemateca no MAM, nesta quarta-feira à noite, no Rio de Janeiro, enquanto a “turma da embalagem” dava o seu recado à Nação do século XXI.
A primeira fera ao microfone, Fred Gelli, da Tátil Design, contou sua história pessoal porque ela se mescla com a luta em defesa da proteção ambiental sob a ótica do design de embalagem sustentável, mais uma vez enfatizando que é hora de “trabalhar muito para atingir o mais simples”, pois, basta que giremos nosso olhar rapidamente sobre a realidade à nossa volta para constatarmos o mal que estamos fazendo a nós mesmos, à natureza e aos animais irracionais em decorrência da irresponsabilidade com a qual agimos para viver com segurança e conforto nas sociedades modernas. Um paradoxo, aliás, visto que, quanto mais buscamos a segurança e o conforto, mais nos vemos inseguros e desconfortáveis por não atentarmos para detalhes que fazem toda a diferença na preservação do meio ambiente.
“Uma máquina de furar paredes ou objetos tem sete anos de vida útil sob carga total. Vocês sabem qual é a média de uso de uma máquina de furar numa família? Cerca de 30 minutos por ano. Por que, então, todo mundo quer ter uma máquina de furar guardada em casa? Vocês sabiam que a quantidade de alumínio virgem consumida pelos norte-americanos anualmente dá pra refazer toda a frota de aviões comerciais daquele país de três em três meses? Isso é coisa de cupim, não de consumidor. Eu não quero ser chamado de consumidor, porque não sou um cupim predador. Como ser humano, cidadão consciente e responsável pelos meus atos, aceito ser chamado de desfrutador. Quero possuir coisas, usufruir dos benefícios dos produtos, em suma, quero ser um desfrutador das vantagens que podem ser oferecidas pelas marcas de produtos e serviços, não um predador. Esta é a visão com a qual os designers de embalagem devem trabalhar atualmente. Não é fácil conscientizar nossos clientes sobre questões ambientalistas, entretanto, não é impossível”, ensinou Fred Gelli, que, além de comandar sua empresa ao lado dos sócios, também é professor.
Nem Gelli, nem Lays Carvalho, da Pande Design, a segunda palestrante da noite, podem ser considerados eco-chatos em razão dos alertas feitos ao mercado. Muito pelo contrário. Ambos têm absoluta certeza de que estão agindo não apenas segundo sua própria consciência, mas também sob demanda do público. “O consumidor não separa o conteúdo da embalagem”, ressaltou Carvalho, ao explicar que, diante do produto numa gôndola de supermercado, por exemplo, o comprador olha para a embalagem e a avalia como se estivesse olhando e avaliando o produto em si.
“81% das decisões de compra se dão no PDV; as embalagens atingem 100% de cobertura dos consumidores; elas estão presentes num número infinito de momentos da vida das pessoas; requerem baixos investimentos; apresentam baixo custo por mil; podem – e devem – ser utilizadas como mídia estratégica; têm o poder de estimular a compra por impulso”, sintetizou a profissional, apresentando à platéia diversos exemplos de elevação impressionante das vendas graças a mudanças no design das embalagens. O leite em pó Ninho, por exemplo, atingiu, com a inserção de uma embalagem promocional nos PDVs brasileiros, um aumento de 700% em sua média de vendas.
“Transparência é fundamental...”, exemplificou, em seguida, Christian Klein, da Projeto Integrado, em jogo de palavras que, além de evidenciar algumas das belas e inteligentes tendências em voga no setor de embalagens mundialmente, chamava atenção para a importância do bom relacionamento entre os designers, os publicitários e as áreas de marketing das empresas no contexto atual. Em seu dia-a-dia e da equipe que dirige, Klein defende premissas que norteiam um trabalho eficaz sob todas as formas, contemplando não apenas as necessidades dos clientes, mas, fundamentalmente, do público objetivado. Entre elas:
1 – Buscar o desenvolvimento integrado nos projetos de embalagens que podem embutir muito mais funções que somente a proteção do conteúdo e transmissão de informações básicas por escrito. A integração também deve ser almejada nos materiais de confecção da embalagem e nas disciplinas de comunicação de marketing.
2 – Buscar estéticas não apenas sob o ângulo da beleza formal, mas também da praticidade e da relevância.
3 – Buscar técnicas e materiais que respeitem o meio ambiente, sinalizando essa preocupação no resultado dos projetos.
4 – Buscar a longevidade em cada projeto desenvolvido, pois, no universo da embalagem, raros são os trabalhos planejados para curto prazo.
5 – Buscar consonância e adequação dos projetos aos fatores implícitos, latentes e manifestos da economia globalizada, sem deixar de atender às necessidades locais (ou passar por cima delas).
6 – Buscar salientar todos os fatores que geram influência no momento da decisão de compra, pois, design de embalagem é, em essência, “a verdade de um produto ou serviço”, mas design de embalagem é também vendas.
Mário Narita, da Nartia & Associados Design, foi o último palestrante da noite e, mesmo apresentando exemplos em nível de excelência do que se pode ver de mais moderno, bonito, prático e eficaz nos mercados da América Latina, deixou na lembrança da platéia imagens muito tristes, feias, infelizmente reais, não virtuais; imagens que comprovam o estado de pobreza ao qual estão submetidas certas nações nesta região do planeta Terra, estabelecendo um confronto que vai muito além da estética com as nações ricas; imagens que confirmam as discrepâncias na divisão dos recursos ambientais que vêm propiciando tanta riqueza para poucos, enquanto muitos somente têm acesso a determinados produtos – comida, entre eles – ao se sujeitarem à humilhação de os adquirirem, pagando, através de grades (ou jaulas, como preferirem): o povo do lado de cá, "solto" nas ruas da desolação; os produtos do lado de lá, enjaulados, para passarem das mãos de um vendedor para as de um comprador sem perigo de furto.
Você, que sonha em ser designer de embalagem, já idealizou, em seus estudos e pesquisas, lindos e atraentes potes, caixas, invólucros para abrigar saborosas balas sortidas? Pois, não pense mais tão pequeno. Pense grande se quiser atender às necessidades deste nosso quinhão na partilha do Planeta e, ao pensar grande, pense no pequeno que só pode comprar uma única bala. Solitária, esta bala tem de se destacar em pontos-de-venda da América Latina, ao lado de concorrentes, muitas vezes apenas pelo emprego de cores, já que a textura do material da embalagem dela somente será experimentado depois da balinha já ter sido devidamente paga.
Sim, trata-se de um exemplo extremo. É bom lembrar, porém, que graças a políticas econômicas bem-sucedidas nos tempos atuais em muitos países da América Latina, estão ingressando no mercado de consumo milhões de pessoas de baixa renda – antes sem qualquer renda –, fato que já vem sendo observado até mesmo no Brasil, como bem demonstrado pelas pirâmides estatísticas exibidas por Narita durante sua palestra.
Há a urgente exigência de atender ao consumidor dessas classes sociais (C, D e E) tanto no mercado interno como através das exportações, tarefa que só poderá ser cumprida se, segundo Narita, alguns princípios forem observados por profissionais das áreas de marketing, comunicação e design.
1 – Pense como ele pensa.
2 – Respeite a cultura local.
3 – Visite os pontos-de-venda; observe a distribuição.
4 – Use as cores (na Índia, especificamente em Mumbai, a cada 10 milhões de entregas de marmitas, apenas um erro é cometido graças a um sistema de códigos que engloba cores e o uso de somente uma letra, pois os trabalhadores são praticamente analfabetos).
5 – Seja didático.
6 – Atente para o fato de que os jovens são globais.
7 – Não esqueça: as formas falam.
