Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comDeveria ter começado às 19:00, porém, em razão dos atrasos dos trabalhos em andamento das comissões reunidas na tarde de ontem, 15 de julho, durante o IV Congresso Brasileiro de Publicidade, a jornalista e escritora Judith Miller, ex-repórter do The New York Times e ganhadora dos prêmios Pulitzes e Emmy, somente subiu ao palco perto das 20:00, introduzida pelo jornalista João Dória Jr. (Show Business TV), que também recebeu para compor a mesa de dabates Carlos Eduardo Lins e Silva, ombudsman da Folha de S.Paulo; Ricardo Gandour, diretor de conteúdo de O Estado de S.Paulo; e Rodolfo Fernandes, diretor de redação de O Globo.
A essência do tema da apresentação de Miller – “a liberdade de imprensa” – a fez recontar o triste episódio em sua vida que, há três anos, a levou por 85 dias à prisão. Motivo: a jornalista se recusou a revelar às autoridades norte-americanas a identidade de uma fonte. Ainda na prisão, ela foi liberada pela própria fonte da Casa Branca (chefe de gabinete do vice-presidente) do compromisso de sigilo assumido. Nos Estados Unidos, diferentemente do Brasil, não há ainda uma lei que permita aos jornalistas, no exercício de suas funções, proteger as suas fontes tanto publicamente como judicialmente. Esta, porém, já era uma história conhecida, com fatos exaustivamente debatidos no mundo ocidental, portanto, a atração dos profissionais da platéia recaiu sobre a avaliação que a escritora faz das tendências em curso no comportamento de sociedades, Governos, autoridades, líderes empresariais e políticos que podem levar à ampliação ou à restrição da liberdade de imprensa no presente e no futuro,em todo mundo.
Sobre o Brasil, Miller demonstrou estar muito bem informada, celebrando a rapidez com que saímos de uma ditadura militar, há 23 anos, para um estado democrático pleno, embora o trabalho da imprensa seja considerado aqui “parcialmente livre”, de acordo com uma pesquisa realizada pela Freedom House em 2007, na qual os Estados Unidos surgem como 24º. colocado no ranking das nações onde há mais liberdade para os jornalistas e os veículos de comunicação atuarem. Segundo o mesmo instituto norte-americano, as condições de liberdade “concedidas” à imprensa vêm sofrendo cada vez mais condicionantes no mundo todo, isto é, houve declínio da liberdade, seja em países de regimes autoritários, considerados ambientes hostis para os jornalistas, seja em regimes democráticos – dado extremamente preocupante e, provavelmente, a informação mais importante que Miller legou à platéia do congresso.
“No meu país, os jornalistas estão sendo intimidados, já que, de repente, podemos ser chamados para revelar nomes de fontes. Essa postura do Governo George Bush é decorrente das preocupações em nível máximo com a seguridade da nação que surgiram após os ataques terroristas demarcados pela implosão das Torres Gêmeas. No caso da imprensa, nós somos afetados em razão do monitoramento impingido à lida com documentos e informações oficiais, cada vez em maior quantidade considerados sigilosos. É claro que os próprios Governos, republicanos ou democráticos, sempre se valeram da estratégia de vazar documentos para a imprensa cujo conteúdo lhes interessava que fosse divulgado. E também sabemos que faz parte do “jogo” as reclamações mais gritantes virem, após a divulgação, dos próprios governantes, autoridades ou políticos que as liberaram. Não fosse assim, não teríamos sido informados, por reportagens, que milhões de caixas de email estavam sendo monitoradas ou até mesmo apenas bisbilhotadas. Entretanto, na iminência de novos ataques terroristas, os investimentos e esforços dirigidos à segurança nacional, nos EUA, acabam indo além do aceitável no respeito às liberdades civis e essenciais, como a da imprensa. Eu diria que, no meu país, a liberdade de imprensa está sendo sacrificada no altar na segurança nacional”, relatou Miller.
Milhões de documentos, dados e informações antes disponíveis para acesso dos cidadãos norte-americanos hoje estão sendo classificados como sigilosos ou confidenciais. E para realizar essa classificação, o Governo dos EUA gastou 7,2 bilhões de dólares em 2005, por exemplo, ato que, obviamente, empobrece a imagem da inteligência americana, pois, é fácil concluir que se trata de um trabalho insano em sua parecença com o mito de Sísifo, além de expor, como uma ferida, os desafios que as sociedades enfrentam no mundo contemporâneo para fazer valer, de fato, os princípios da democracia.
Tudo tem explicação, assim como a paranóia, a partir de certo nível, do Governo e do povo americano com a segurança nacional, mas, como pontuou Miller, os profissionais da imprensa e os beneficiários dos serviços por ela prestados (empresários do ramo, publicitários e os próprios cidadãos) precisam se unir para defender as liberdades civis e essenciais conquistadas ao longo da história da humanidade, em meio ao processo de adaptação às transformações que vêm modificando relações entre pessoas e ferramental de trabalho. “Nosso setor também sofre pressões econômicas, além de passar por mudanças de padrões e paradigmas. Vemos, hoje, uma explosão de blogs acontecer. Já são 100 milhões de blogs no ar pelo mundo. É positivo o fato de as novas mídias, como a internet, abrirem novos campos de trabalho para os jornalistas. Por outro lado, a verba de propaganda que até hoje sustentou a independência dos veículos de comunicação vai aumentar ou será suficiente para manter tantos novos meios em operação? Como vamos lidar, daqui para frente, com a falta de clareza que a internet gerou no trabalho jornalístico, visto que há uma boa confusão no ar entre fofoca e fato, entretenimento e notícia?”, questionou Miller.
Finalizando, a convidada voltou a enfatizar que não existe democracia plena sem imprensa livre e independente, portanto, os EUA, bem como os demais países que enfrentam os mesmos tipos de problemas causadores do aumento da restrição do trabalho dos jornalistas, precisa, urgentemente, buscar o verdadeiro equilíbrio entre direitos coletivos e individuais, em face do dilema provocado pelas questões em defesa dos padrões de segurança, da necessidade de sigilo governamental e da liberdade (dos cidadãos e da imprensa). Mas esse equilíbrio não será atingido, segundo Miller, sem debates em torno de questões fundamentais e sem a participação de toda a sociedade na resolução dos conflitos desta nova era.
Nos vídeos que acompanham esta matéria, você assiste, na íntegra, os comentários feitos pelos debatedores (Carlos Eduardo Lins e Silva, ombudsman da Folha de S.Paulo; Ricardo Gandour, diretor de conteúdo de O Estado de S.Paulo; e Rodolfo Fernandes, diretor de redação de O Globo), além da resposta de Miller a uma pergunta dirigida a ela por Fernandes.
