Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comApesar do nome, não foi estrelando bangue-bangues que a Cia. Pessoal do Faroeste construiu seu portfolio desde que foi fundada, nove anos atrás. Eles são bons mesmos é de tablado, ou melhor, de teatro, com ou sem palco, pois, sob a direção de Paulo Faria, fundador da companhia, a trupe tem talento para interpretações nos estilos clássicos, em formatos tradicionais, bem como para montagens experimentais, como é o caso da peça em cartaz Os crimes do preto Amaral.
Este é o sétimo trabalho para o teatro da Cia. Pessoal do Faroeste, que em junho deste ano conseguiu alugar e personalizar uma sede, no bairro de Campos Elíseos, na capital paulista. No local, totalmente reformado para abrigar os ensaios, as oficinas durante o dia e as apresentações da peça de sexta a sábado, uma platéia privilegiada, composta por apenas 40 espectadores, praticamente se mescla ao cenário, pois a atuação acontece no nível das cadeiras que acomodam os visitantes, provocando a sensação de que os mesmos também estão integrados ao tempo e ao espaço do teatro, imergindo na ficção que se baseia num caso real, ocorrido nos anos 20 e registrado pela imprensa no Brasil – posteriormente tema central de uma tese de doutorado pela UNESP –, embora também figure, em seu pano de fundo, o mito de Orfeu.
Denominada Sede Luz do Faroeste (Rua Cleveland, número 677), a casa teatral teve sua montagem possível graças ao apoio recebido como projeto selecionado pelo edital de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo 2006, da Secretaria Municipal de Cultura da Cidade de São Paulo, com apoio do Museu de Energia, da Fundação da Energia e Saneamento, da Fundação de Amparo ao Preso e do Instituto de Defesa ao Direito à Defesa.
Durante a fase de produção da montagem, o grupo repetiu, na sede, projetos de caráter social que já vinha realizando em outras ocasiões, a partir do desenvolvimento e da aplicação de oficinas artísticas, com a participação de ex-presidiários e de cidadãos da população carente. Numa dessas oficinas, por exemplo, foi possível selecionar, como estagiário para atuar na produção do espetáculo, na função de eletricista e segurança, um ex-presidiário, cujas habilidades profissionais foram potencializadas ao longo do curso para que ele pudesse cumprir sua missão, como o vem fazendo.
A tese de doutorado que embasa Os crimes do preto Amaral é de Paulo Fernando de Souza Campos, na qual ele analisa os crimes acontecidos de 1926 a 1927 na capital paulista e atribuídos a José Augusto do Amaral, que faleceu sem ser julgado, sendo este, entre muitos outros argumentos, o fato principal que faz com que o autor conclua que o acusado era inocento, tendo sido condenado por ser negro. O roteiro e os diálogos da peça, porém, foram escritos pelo seu diretor Paulo Faria, eterno crítico social em suas obras. “A intenção é transmitir ao público a sensação de estar dentro da peça. Os crimes relatados na história aconteceram naquela região, próxima a Campo de Marte. Além disso, podemos contribuir para a revitalização do bairro no qual estamos instalando”, salienta.
Sobre a mensagem contida na peça, Paulo Faria acrescenta: “Na realidade, a história de Pedro Amaral serve de pano de fundo para a construção da dramaturgia. Pode-se dizer que ele é a serpente que pica Eurídice e a tira de Orfeu. A relação do casal, o conflito entre suas opiniões e ideais acabam se transformando no foco da trama”.
A Cia. Pessoal do Faroeste tem como principal fonte de pesquisa a vida social e política do povo brasileiro, por meio do seu imaginário popular e de sua cultura. Sua primeira montagem foi Um certo faroeste caboclo, inspirada na história da música homônima do Legião Urbana, que recebeu o prêmio Teatro Jovem Coca-Cola (Panamco) para melhor direção (Paulo Faria) e melhor coreografia (Luís Mirando), além de indicações para melhor música (Eliseo Paranhos), espetáculo e texto (Paulo Faria). Outras peças montadas pelo grupo foram: Rei dos ventos, Sabiá, A mulher macaco (Prêmio Nacional Plínio Marcos de Dramaturgia 2000) e Re-bentos. A companhia também tem em seu currículo uma peça infantil: O índio, inspirada em composição de Caetano Veloso e apresentando como trilha músicas de Tom Zé.
Esta primeira temporada de Os crime do preto Amaral segue até 25 de fevereiro. O objetivo do grupo é prosseguir com as apresentações, inclusive levando a peça para outras cidades brasileiras, além de transformar em itinerantes os projetos das oficinas artísticas. Entretanto, para que o ideal se transforme em realidade, a Cia. Pessoal do Faroeste precisa de patrocinadores. Sem o apoio da iniciativa privada, dificilmente eles vão conseguir manter a Sede Luz do Faroeste nos Campos Elíseos, o que seria lamentável, pois quem for até lá verá que o entorno está, de fato, mais iluminado não apenas pelo talento do diretor e de seus atores, mas, também, pela consciência e prática de atividades de responsabilidade social desta carinhosa turminha do barulho.
Assista, também na TV Portal, à entrevista realizada com o diretor Paulo Faria e ao vídeo com cenas da peça Os crime do preto Amaral.
Ficha técnica
Direção geral e dramaturgia: Paulo Faria
Elenco: Adão Filho, Álvaro Franco, Bri Fiocca, Charles Braun, Ênio Gonçalves, Erika Altimeyer, Isadora Ferrite e Sílvia Borges
Músico: Pedro Birenbaum
Co-diretor: Iarlei Sena
Direção musical e preparação vocal: Carlos Bauzys e Denise Venturini
Sonoplastia: Jorge Pena
Supervisão histórica: Dr Paulo Campos
Realização: Cia Pessoal do Faroeste e Cooperativa Paulista de Teatro
Duração: 90 minutos
Local: Sede Luz do Faroete – Rua Cleveland, 677, Campos Elíseos, São Paulo, SP
Fone: (11) 3362-8883
Ingressos: R$ 30, R$ 20, R$ 15 e R$ 10
Horários: sexta-feira (20:30), sábado (20:30) e domingo (18:00)
