Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comComo pode ser conferido nesta entrevista exclusiva concedida por Ricardo Noblat ao Portal da Propaganda, apesar da rotina estafante, ele está feliz com o acordo acertado entre o www.blogdonoblat.com.br e o Grupo Estado, que lhe dá liberdade e autonomia total sobre o conteúdo do blog, bem como uma justa remuneração pelo trabalho, motivos pelos quais não pretende retornar, tão cedo, à mídia impressa.
“Todo jornalista deveria ter um blog. Uma das lições aprendidas com essa experiência é levar mais em conta a opinião do receptor da informação, aceitando o ônus de seus próprios erros e habituando-se a pedir desculpas, ou seja, um blog pode contribuir para que um jornalista se torne menos arrogante, afinal, os médicos pensam que são Deus, mas, como sabemos, os jornalistas têm certeza que o são”, dispara Noblat.
Segue a matéria sobre a conferência de Ricardo Noblat durante o Aba Mídia:
O gerente de mídia da Claro, Horácio Olandim Neto, também membro do Comitê de Mídia da Aba, fez as devidas apresentações, ao chamar Ricardo Noblat ao palco, enfatizando que os anunciantes estão extremamente interessados em receber mais informações sobre um dos maiores fenômenos da internet, o blog, visto que surge um novo a cada meio segundo, já não bastassem tantas outras possibilidades de formas de comunicação oferecidas pela web, enquanto o consumidor, por sua vez, vai se transformando num produtor de conteúdo. Rapidamente, Noblat entrou em campo para cumprir sua missão na manhã desta sexta-feira, 20 de outubro, durante a realização do Aba Mídia, atendendo aos desejos da platéia, manifestados por Olandim.
Na primeira parte de sua apresentação, Noblat forneceu índices de pesquisas que comprovam a acelerada e contínua evolução da internet como meio de informação, atingindo diferentes perfis de públicos. Na seqüência, o jornalista caminhou para os dados sobre as performances dos blogs, com base em levantamentos do site norte-americano Thechnorati, alguns deles relativos a abril de 2006, outros mais recentes, pois a constatação de que surge um novo blog a cada meio segundo começou a ser divulgada no nosso País nesta quinta-feira, pela área de jornalismo da Rede Globo.
Apesar da velocidade com que se alteram tais números e índices de audiência, Noblat cita a existência de aproximadamente 55 milhões de blogs em todo o mundo, calculando-se o aparecimento diário de cerca de 1,2 milhão de novos endereços pessoais abertos ao público em geral, com conteúdo produzido pelo seu “fundador”, muitas vezes com a participação de colaboradores virtuais. Faz-se necessário pontuar que, como enfatizado pelo jornalista, 55% desses blogs continuam ativos três meses após a criação dos mesmos.
Noblat usou os estudos investigativos para iniciar, com a platéia, um diálogo sobre “equívocos”, parte deles cometidos, atualmente, pelos jornais impressos, que, assim como os próprios jornalistas, relutam em aceitar o avanço dos espaços conquistados pelos blogs e por outros meios de transmissão de informação e opinião via internet, atitude que os faz adiar, voluntariamente, as estratégias de revisão de seus papéis e manutenção de importância no relacionamento com seus públicos, as quais culminariam em projetos de renovação cuja implantação já deveria estar em andamento, beneficiando a todos.
A carreira de Noblat, como é notório, foi construída como uma das mais profícuas na atividade brasileira de jornalismo – ele completa, em 2007, 40 de anos na ativa, sempre “vivendo intensamente” as práticas, as agruras e os reconhecimentos atingidos na profissão que escolheu por toda uma existência. O que ele não imaginava era que, em 2004, ao se ver desempregado, acabaria migrando da mídia impressa para o universo dos blogueiros, muito menos que iria se destacar como um pioneiro pelo sucesso retumbante alcançado nesse meio, ao sair de um patamar de 150 mil para 1,9 milhão visitantes únicos por mês.
“Fui obrigado a aprender que IP é uma espécie de impressão digital do computador. Ou melhor: a porta de entrada para a internet de um usuário ou de um grupo de usuários. É por isso que os números registrados pelo medidor de audiência do blog estão muito abaixo dos verdadeiros. Por exemplo: a Câmara dos Deputados dispõe de 4,5 mil terminais. Mas eles operam em rede. Entram na internet via quatro ou cinco IPs. Quer dizer: no máximo, o medidor de audiência do blog contabilizará por dia quatro ou cinco visitantes únicos oriundos da Câmara. Ora, é razoável imaginar que um blog dedicado a contar os bastidores do poder em Brasília seja acessado diariamente por mais do que quatro ou cinco funcionários da Câmara.”
E revelando também os bastidores deste maravilhoso e assustador mundo virtual que tem conseguido exercer tanta influência sobre o mundo real, Noblat prosseguiu sua conferência condenando o “atraso da vanguarda”, expressão com a qual cunha a força opressora advinda da classe jornalística brasileira em face das transformações impostas pelas novas tecnologias, o que afeta até mesmo a dignidade do bom senso. Uma resistência acompanhada, em paralelo, pelo setor anunciante, ainda arredio diante dos bons êxitos de audiências dos blogs e de outras oportunidades de mídia na internet.
Antes de encerrar, Noblat listou as principais virtudes dos blogs como meio de disseminação de informação e opiniões, como, por exemplo: simplicidade, velocidade, simultaneidade de conteúdos com características distintas (fatos, análises, opinião, humor etc.), trabalho solidário, interatividade, proximidade do cidadão, estilos livres e variados, participação dos leitores como agentes ativos em maior ou menor grau, incentivo ao espírito e à prática da democracia, prestação de serviços de todos os gêneros etc.
“Trabalho mais horas diárias no blog do que jamais trabalhei em jornais ou revistas. Começo por volta das 10:00. Navego pelos sites de jornais e de agências para ver se algo de importante ocorreu ao amanhecer. Depois me penduro no telefone à caça de notícias frescas. As fontes tradicionais de notícias não sabiam direito o que era um blog até mais ou menos o início de 2005. Costumava confundir blog com site. A crise política do mensalão e do caixa 2 do PT popularizou os blogs no Brasil. Mantenho um aparelho de rádio sintonizado na CBN. E um aparelho de TV na GloboNews ou nas TVs Senado e Câmara, a depender do dia e da hora. Sinto falta de ir à rua com mais freqüências atrás de notícias – mas de se for, a relação custo-benefício não valerá a pena. Gastarei mais tempo. E apurarei menos notícias. Sinto falta de trabalhar com gente, de preferência muita gente como sempre trabalhei. De novembro último para cá, passei a contar com a ajuda de dois repórteres. Reservo algumas noites por semana para jantar com políticos e funcionários do Governo. Permaneço defronte do computador até a hora do Jornal Nacional. Depois dou um tempo. Volto a passear pelos sites de notícias por volta das 23:00. E sigo até às 4:00, 4:30, lendo as edições dos jornais do dia seguinte e postando notícias ou comentários.”
Naturalmente, ele complementou suas reflexões com sábios conselhos sobre os resguardos relativos à credibilidade e à qualidade dos conteúdos, sem deixar de citar, brincando, que boa parte de seu sucesso se deve a um homem chamado Roberto Jefferson.
