Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comCrescimento com inflação é ruim. Estabilidade sem crescimento, também. Dólar muito alto é ruim. Dólar muito baixo, também. Sem as reformas o País não anda. Com as reformas, há um montão de gente querendo parar o País.
O presidente de esquerda passou oito anos criticando o presidente um pouco menos à esquerda. Ganhou, só para fazer tudo igualzinho. E, agora, está sendo criticado por quem está ainda mais à esquerda, ou mais à direita, em cima, embaixo, de tudo quanto é lado.
Quando eu era garoto, lá pelos idos de 1974, o Brasil tinha dois campeonatos importantes: o Estadual e o Brasileirão. Classificar-se para a Libertadores era um acontecimento. Hoje, tem Estadual, Brasileirão, Copa do Brasil, Copa Sul-Americana, de vez em quando ainda emendam um Rio–São Paulo, um supercampeonato disso ou daquilo e uma tal de Copa dos Campeões. E até o Paysandu já se classificou para a Libertadores.
Quando eu era garoto, a gente torcia pelo Fantomas contra o Dr. Zero, pelo Speed Racer contra todo mundo (menos contra o Corredor X, que todo mundo sabia que era irmão dele), pelo Ultraman contra aqueles monstros com zíperes nas costas. Hoje, a molecada assiste a desenhos que surgiram de games (?!) com mais personagens que uma lista telefônica.
Naquela época, o Silvio Brito já cantava: "Pára o mundo que eu quero descer...". E eu acho que 30 anos depois esse mundo ficou complicado demais para uma mente simples como a minha.
Isso tudo não é um exercício precoce de nostalgia. Eu realmente acho que, de uns anos pra cá, o mundo ficou complicado demais, o que é um eufemismo, pra não dizer chato. E isso tem seus desdobramentos, é claro, no nosso dia-a-dia de publicitários do século 21.
Senão, vejamos: antigamente, cliente brifava, aprovava ou reprovava e pagava. Hoje, está bem mais complicado: o cliente quer criar também. Antigamente, o atendimento atendia. Hoje, ficou um pouco mais complexo: o atendimento quer criar também. Antigamente, o planejamento planejava. Hoje... adivinhe. E pra completar o furdunço, a criação continua querendo criar. Em nome de um suposto envolvimento, todo mundo decidiu que tem de ser criativo.
Outro reflexo dessa complicação toda no nosso mercado é a questão das concorrências. Em priscas eras, o cliente chamava três ou quatro agências, passava um briefing, assistia às apresentações e optava por uma delas. Depois, é claro, rebrifava a vencedora, que criava, recriava, trecriava e, muitos meses depois, colocava alguma coisa na rua — mas, pelo menos, era remunerada durante todo esse processo. Hoje, a coisa ficou bem mais complexa. O cliente chama sete ou oito agências, brifa, assiste às apresentações e… conclui que nenhuma delas acertou, portanto, a concorrência tem de acontecer inteira de novo (de graça, claro). E de novo. E de novo. E de novo… se a moda pega, já me vejo assistindo a um campeonato brasileiro em que ninguém é campeão porque ninguém apresentou um futebol-espetáculo. Ou uma eleição que é realizada várias vezes com os mesmos candidatos até que alguém obtenha maioria absoluta.
Descomplica, pelo amor de Deus. Estou com saudades do tempo em que mocinho era mocinho, bandido era bandido, time grande era time grande, time pequeno era time pequeno, profissional bom era profissional bom, profissional ruim era profissional ruim, agência boa era agência boa, agência ruim era agência ruim. Do tempo em que a gente votava em candidatos bem diferentes, que inflação era ruim e queda de inflação era bom, que dólar alto era ruim e dólar baixo era bom. Do tempo em que o cliente brifava, o atendimento atendia, o planejamento planejava, a criação criava e a produção produzia. Do tempo em que aquele que havia apresentado o melhor trabalho ganhava, mesmo que tivesse de refazer o trabalho inteiro depois.
Eu não sei vocês, mas eu era bem mais feliz quando o Ultraman apanhava, apanhava, apanhava, mas no fim usava seu raio e matava o monstro de zíper nas costas que estava destruindo uma Tóquio de papelão. Do jeito que a coisa vai, não está longe o dia em que vamos assistir a uma final do Mundial Interclubes entre o Paysandu e o campeão da Islândia.
Alguém aí tem um vinil do Silvio Brito?
tulio@bullet.com.brTulio Paiva (tulio@bullet.com.br) é diretor de criação da Bullet. E acha que se complicasse resolvesse alguma coisa, refrões como "She loves you yeah-yeah-yeah" não seriam clássicos.