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AMI

09/05/2005 12:43

Profetas do acontecido

Fábio Flandoli

Folheando um livro outro dia, deparei-me com aquela frase genial do rei Pelé: "Eu corro para onde a bola vai estar". Não existe definição mais simples para uma coisa tão complexa: saber qual deve ser o próximo movimento. Vejam que ele não fala nada de esquemas táticos, posicionamento em campo, princípios da física, intuição. A estratégia dele era a mais simples e eficaz possível: aumentar ao máximo a probabilidade de ter uma bola nos pés. O resto ele já sabia de cor ou inventava na hora.
 
Por que tocar nesse assunto? Porque essa objetividade é tudo o que não encontramos no dia-a-dia dos nossos negócios. Todo mundo tem sempre uma explicação extraída de algum MBA ou de livros dos gurus para demonstrar por que as coisas deram errado. Todos somos profetas do acontecido: sabemos tudo sobre o passado, mas nada do futuro.
 
Estou entediado até a medula de ver gente aparecendo por conta de uma única grande jogada e ficar meses explicando como teve aquele lampejo de genialidade. Se isso é chato na mídia especializada nas inúteis celebridades, é mais chato ainda no mundo dos negócios. Porque negócios não são entretenimento e nem vivem de cachê.
 
É fácil explicar por que as coisas acontecem. Difícil é saber o que fazer, sempre. As pessoas (e as empresas) dificilmente vão para onde a bola vai estar; quando vão, é absolutamente por acaso. Em vez de correr para ter a bola nos pés, todo mundo está cada vez mais preocupado em explicar por que o gol não aconteceu.
 
Parece que, no final das contas, tudo no Brasil funciona meio como no futebol: todo mundo reclama, mas, no final, tanto faz o resultado, o que interessa é o espetáculo.
 
Pelé não teria sido o maior jogador de todos os tempos se não adotasse uma estratégia tão simples e eficaz. Aliás, é isso que o diferencia entre todos os grandes jogadores: talvez outros pudessem ter feito mais do que ele com a bola nos pés, mas só Pelé esteve tantas vezes onde ela estava.
 
Não tem esquema tático, marketing pessoal, jogada de efeito que substitua o resultado. Se ainda tiver espetáculo, tanto melhor. Num mundo cada vez mais suportado pela tecnologia, não dá mais para inventar que não dá para mensurar. Resultado, hoje, é on-line, real time. As coisas funcionam ou não, o resultado é positivo ou negativo.
 
É preciso mudar a mentalidade. É muito bom ver espetáculo, afinal, ninguém agüenta chatice. Mas o que conta mesmo é vencer, ganhar campeonato. Num mundo cada vez mais de verdades relativas, nada é tão absoluto quanto o trabalho bem-feito ou o resultado alcançado.
 
Está na hora de aprendermos a correr para onde a bola vai estar e não pegar o melhor lugar para explicar aos repórteres por que não ganhamos. Afinal, quem é muito bom em desculpas, geralmente, não é bom em mais nada, como já dizia Benjamin Franklin.

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