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AMI

02/03/2005 12:50

O lado B da publicidade

Suzana Apelbaum

Acordei de mau humor e senti que era um bom momento pra começar a escrever este artigo. É o seguinte. Sempre me irritei com aqueles profissionais que tratam a internet como uma mídia marginal: fazem o plano todo considerando os potenciais dos meios tradicionais, e só depois, quando sobra uma rebarba da grana, "Ah, joga lá na internet".  Como diria Caetano, vocês não estão entendendo nada. Não vou ficar aqui falando de números, não. Em muitos casos, eles até provam mesmo o poder de penetração desse meio. Mas o fato é que o maior valor da internet como mídia vai além dos números: tem a ver com gerar uma mudança substancial de comportamento no consumidor. Você não sabe do que eu estou falando? É só dar uma olhada em alguns cases de marketing on-line pra entender.

Mas pensando bem, agora que já tomei meu café, consigo ver a coisa por outro lado. Sim: a internet é uma mídia marginal. Eles têm razão. Mas de novo não sabem por quê. A internet é marginal porque não é feita só pelo que interessa aos grandes empresários e anunciantes. Ela é feita, muito mais, pelo que o público quer ver. É como o lado B dos vinis nos anos 70, lembra? Ficavam lá, marginais, as faixas que os autores e compositores queriam realmente mostrar. Eram as mais legais. Enquanto isso, no lado A, ficavam as músicas impostas pela gravadora, que poderiam vender mais; as que iam tocar no rádio.

Só que hoje, 2005, com o consumidor do jeito que está, muito mais consciente e seletivo, o lado B pode vender muito mais do que o lado A. O público hoje compra mais e melhor na medida em que ele pode escolher, opinar, interferir. E na internet ele pode. Muito. Pode inclusive criar uma rádio própria e ouvir só o que ele quer. Na hora em que ele preferir. Taí um exemplo rápido do poder dessa mídia alternativa, que foge dos padrões já consagrados da propaganda.

Mas o que faz a internet ser o lado B da publicidade não é somente a interferência do público. É a sua essência como veículo; é ser uma rede mundial, aberta, democrática, em constante movimento. Isso confere a ela características únicas.

Quer ver uma coisa? Vamos pensar nos assuntos que mais mobilizam a sociedade hoje. Sexo, drogas, música, tragédias, a vida dos outros, o próprio umbigo — só para citar alguns. Todos esses assuntos são vividos de uma forma exacerbada na internet. Repare.

Sexo: nunca se transou tanto, com tantos parceiros, nem de formas tão esdrúxulas.

Drogas: nunca foi tão fácil comprar e descobrir como plantar.

Música: nunca se teve acesso a tantas músicas com tão pouco dinheiro.

Tragédias: nunca se leu tanto sobre as tragédias do mundo, assim como nunca foi tão fácil ser solidário.

A vida dos outros: Orkut. (Precisa dizer mais?)

O próprio umbigo: com os blogs, nunca foi tão fácil se sentir e se tornar um autor respeitado. Fora o Orkut (de novo), onde nunca os egos foram tão massageados.

Tá vendo só? A internet é ou não é uma mídia diferenciada? Num espaço como esse, não há como a publicidade se comportar de uma forma tradicional. Na sociedade virtual, o consumidor é mais aberto. E ao mesmo tempo, bem mais seletivo. Isso é ótimo. Só traz reflexos positivos para a publicidade. Criatividade, experimentações, mais erros, muito mais acertos, novos resultados. Ótimo inclusive para os profissionais de criação e para o público em geral, que andava cansado da publicidade bunda-cachorrinho-bebezinho-peitão-tradicional. Lado Argh.

Desculpe o mau humor. Mas na boa: quem não vira o disco, não sabe o que tá perdendo.

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Suzana ApelbaumSuzana Apelbaum é diretora de criação da Thompson Digital, agência filiada à AMI - Associaçãod e Mídia Interativa.

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