Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comNo exterior desde 2004, primeiro no Canadá, depois nos Estados Unidos, Pablo Marques é diretor de arte da Big Spaceship (www.bigspaceship.com), em Nova Iorque.
ABOUT – Como foi sua adaptação ao mercado externo? E a reação dos seus colegas de empresa à chegada de um profissional brasileiro?
PABLO MARQUES – Você acaba enfrentando os mesmos desafios que enfrentaria em um novo time no Brasil. Claro, existem expectativas em relação ao seu trabalho, geralmente mais altas, pois a empresa resolveu passar pelo longo e trabalhoso processo de conseguir o seu visto e esperar por você alguns meses. Você é um investimento, e eles esperam que dê retorno.
Por outro lado, todo mundo tem um grau de tolerância muito maior com você em qualquer outro aspecto, principalmente nos lugares como a Blast Radius, onde existem profissionais de todos os cantos do mundo com hábitos culturais muito diferentes uns dos outros. É normal acontecer de você ser apresentado a alguém, querer dar um abraço e a pessoa dar um pulinho para trás assustada (risos). Mas, com o tempo, você, como bom brasileiro, acaba sempre ficando amigo de todo mundo, e a coisa flui muito bem.
ABOUT – Quais as principais diferenças entre a atuação numa agência brasileira e numa estrangeira?
MARQUES – Não quero, de forma alguma, depreciar o mercado brasileiro, que é bastante criativo e abarrotado de profissionais altamente talentosos. Mas a situação é um pouco diferente.
O grau de seriedade é um pouco maior, os riscos são mais calculados. Tudo tem um planejamento muito claro para o retorno do dinheiro investido no projeto. Os objetivos são sempre bem claros e os clientes geralmente, mas não sempre, sabem melhor o que querem e o que esperar de você. Por outro lado, o clima arriscado do mercado brasileiro, onde a gente acaba sempre sendo mais ousado, faz muita falta por aqui no momento da criação. É aí que acho que o profissional brasileiro se destaca.
ABOUT – Como é vista no exterior a comunicação dirigida à mídia interativa feita no Brasil atualmente?
MARQUES – Para ser sincero, as pessoas admiram alguns profissionais brasileiros que estão sempre sendo citados em revistas, livros, sites, mas acho que o mercado interativo no Brasil ainda não criou uma imagem muito concisa a ponto de causar uma impressão como uma instituição, como acontece com a propaganda brasileira, que é muito bem-vista por sua criatividade e bom humor.
E, claro, tem sempre aquela conversa de bastidores sobre as peças fantasmas nos festivais, mas acho que isso tem diminuído drasticamente com o amadurecimento que o mercado vem tendo no Brasil.
ABOUT – Na sua opinião, o que a experiência brasileira levada por você acrescentou ao trabalho da sua empresa atual?
MARQUES – O jogo de cintura, a flexibilidade, um ponto de vista geralmente bem diferente sobre os desafios que enfrentamos no estúdio e, muitas vezes, uma musiquinha brasileira na sexta à tarde, antes de sairmos para tomar uma cervejinha.
ABOUT – A presença de profissionais estrangeiros nas empresas de mídia interativa daí é natural?
MARQUES – Na Blast Radius, no Canadá, a presença de estrangeiros era muito maior. Aqui na Big Spaceship, em Nova Iorque, é bem menor. Apesar de sermos uma pequena creative boutique, com pouco mais de 30 pessoas na empresa inteira, a proporção de estrangeiros é menor. Possivelmente porque o visto de trabalho para os EUA é um pouco mais difícil e porque o mercado de Nova Iorque é excessivamente competitivo.
ABOUT – Dos trabalhos nos quais esteve envolvido recentemente, comente os que você julga mais interessantes na afirmação de tendências de uso da mídia interativa.
MARQUES – Na Blast Radius, pouco antes de eu me desligar do time, estávamos fazendo um gigantesco projeto (que infelizmente depois foi fechado pelo cliente) de criação de uma loja piloto que integrasse a experiência virtual e a física de uma das maiores lojas de departamento dos EUA.
Para citar um exemplo, umas das possibilidades era o uso de espelhos interativos nos trocadores. Para encontrar sugestões, o cliente teria acesso às peças compradas por outros clientes que experimentaram a mesma roupa que ele. Outra possibilidade era o cliente tirar fotos com a roupa e mandar por e-mail para o celular dos amigos para pedir a opinião deles. Tudo isso acontecendo em tempo real dentro do vestiário da loja e sendo controlado pelo espelho interativo (uma mistura de espelho, LCD screen e câmera digital), tudo integrado com o site.
São essas idéias que acredito serem o futuro da comunicação integrada e interativa. Ações que saem do espaço confinado do seu computador, em casa ou no trabalho, e que começam a fluir melhor como uma experiência contínua com a marca, desde o momento em que você tem o primeiro contato com ela, na rua ou na internet, até o momento em que você está literalmente emergido no universo da marca dentro da loja.
Outro projeto em que estive envolvido que explora um lado mais “técnico” da direção de arte foi a co-direção de arte do motion reel da Big Spaceship. Aqui no estúdio, a gente acredita que o futuro do design para interactive media cruza em diversos momentos com o motion design e, por isso, estamos desprendendo um esforço enorme para implantar aqui a cultura de pensar sempre os projetos com movimento e profundidade. Não adianta ter uma idéia genial e não conseguir fazer uma produção à altura. Para o reel, que foi fruto de um mês de trabalho, incluindo tudo que aparece no vídeo (sim, diversas noites em claro), eu acabei fazendo direção de fotografia para live action e muita animação. Foi doloroso, mas foi divertido. O vídeo pode ser conferido em
http://www.newstoday.com/cinema/cinema.php?id=47
Outro trabalho em que fui co-diretor de arte foi o site do Jordan Summer Hoops para a Nike, quando tive a oportunidade de trabalhar com um grande amigo, o talentoso diretor de criação brasileiro, ex-AlmapBBDO e hoje Ogilvy Interactive de São Francisco, Fábio Costa. Pode ser conferido em:
http://www.nike.com/jumpman23/features/summer/index.jsp
ABOUT – Onde e quando você começou sua carreira na mídia interativa brasileira?
MARQUES – Comecei como estagiário na extinta MediaLab, do Grupo Mantel, em 1997/1998. Depois, minhas experiências mais relevantes foram como diretor de arte na ThunderHouse, diretor de arte senior na AgênciaClick e diretor de arte senior e diretor de criação na One Digital. Em julho de 2004, eu publiquei meu portfolio, depois de muito tempo sem um. No mês seguinte, em agosto, depois de conversar com algumas empresas, como AKQA e Organic de São Francisco e The Barbarian Group em Boston, acabei fechando com a Blast Radius de Toronto. Eu fui contratado no mesmo mês, mas acabei, por complicações de visto de trabalho (que é a parte mais chata de todo o processo), me mudando para Toronto e começando a exercer efetivamente minha posição de diretor de arte somente em janeiro de 2005.
Em fevereiro deste ano, me mudei para Nova Iorque para fazer parte do talentoso e seleto time da Big Spaceship, onde também ocupo a posição de diretor de arte.
O art director aqui é um pouco diferente do diretor de arte no Brasil, que, na maioria das agências e estúdios, é usado só como uma nomenclatura diferente para o cargo de designer. Vou citar um exemplo: no projeto em que estou trabalhando agora existem sete pessoas do departamento criativo envolvidas: um art director, dois senior interactive designers, dois designers/animators e dois 3D designers/3D animators. Nesse tipo de projeto, o art director geralmente trabalha mais como um maestro/compositor (se me permite a analogia). Ele cria algum material inicial que julgar necessário para determinar a idéia visual do projeto. Esse material pode ser desde um Mood board/concept board até layouts altamente detalhados, o que depende muito do grau de integração do art director com o resto do time, do tipo de projetos e de outras muitas, porém menores, variáveis.
Vale ressaltar que aqui na BigSpaceship, por exemplo, os art directors em muitos casos assumem uma posição muito parecida com a de senior producers em algum estágio do projeto, e passam muito mais tempo trazendo e traduzindo as expectativas do cliente para o resto do time, e assegurando que o projeto atenda às expectativas do cliente e, ao mesmo tempo, mantenha a visão criativa que você transmitiu inicialmente para o time.
Também, nos casos onde isso se aplica, os art directors selecionam, contratam e dirigem recursos externos como fotógrafos, ilustradores, produtoras de vídeo e qualquer outro tipo de recurso profissional que se faça necessário para a realização da idéia. É também função dos art directors, na Big Spaceship, estar sempre de olho no mercado à procura de talentos emergentes para vagas que possam estar em aberto no estúdio.
ABOUT – Quais são seus planos para o futuro próximo? Você pretende voltar a atuar na mídia interativa brasileira?
MARQUES – Eu tenho estado muito envolvido com fotografia e vídeo. Principalmente fotografia, que aos poucos se tornou minha segunda profissão. É um meio que me seduz muito por me deixar mais à vontade para realizar minhas visões.
Quero continuar trabalhando com direção de arte, mas quero cada vez mais me libertar da tela do computador. Quero dar espaço para meu trabalho e minhas idéias fluírem por outras mídias, como venho fazendo com a fotografia. Sendo mais concreto, talvez tentar trabalhar cada vez mais com print, mercado off-line e ações integradas ou até mesmo continuar no interactive, desde que com possibilidades de explorar outras mídias. Não me sinto muito confortável com o confinamento das idéias. Acho que nosso trabalho é provocar reações e emoções nas pessoas, e quero poder explorar todas as ferramentas que estiverem ao alcance para poder criar experiências mais completas.
Quanto ao Brasil, apesar de sentir saudades dos amigos e da família, a gente vai levando. Eu tive, recentemente, algumas propostas financeiramente muito interessantes (risos), para assumir o cargo de diretor de criação no braço de interactive de uma agência, que chegaram a me balançar. Mas não fui. Sempre tem um assediozinho para voltar, mas Nova Iorque é atualmente minha casa, sou apaixonado pela cidade e, em pouco tempo, já consegui espaço para o meu nome no mercado daqui. Sempre quis morar nessa cidade, desde moleque. Estou realizando meus sonhos em todos os detalhes, então não sei se é a hora de pensar em voltar ainda, mas nunca se sabe. Eu acho que talvez voltasse para o Brasil para trabalhar com off-line.