Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comRodrigo Sobral trabalha com projetos internacionais desde o começo de 2004, quando passou a contribuir com empresas de telecomunicações, como a Vodafone no mercado asiático e em países do oriente médio, por meio de parcerias com o estúdio Elementˆn (http://www.elementn.com/). Em maio do mesmo ano, foi para Londres, onde atualmente exerce a função de senior interactive creative na Unit9.
ABOUT – Como foi sua adaptação ao mercado externo? E a reação dos seus colegas de empresa à chegada de um profissional brasileiro?
RODRIGO SOBRAL – A adaptação foi tranqüila, pois os europeus, em geral, admiram bastante o diferencial da criatividade brasileira, o que me deu credibilidade para conduzir projetos e estar em contato com os clientes desde minha primeira semana na agência. O que me ajudou bastante foi ter uma boa base teórica e prática de design. Isso facilita muito na comunicação com o time e te dá poder de fogo na hora de vender o projeto ao cliente.
Minha recepção foi cercada de curiosidade, pois, por incrível que pareça, até então ninguém tinha conhecido um brasileiro pessoalmente. Foi divertido responder às inúmeras perguntas clássicas sobre cultura e futebol e, também, explicar que Buenos Aires não fica no Brasil.
ABOUT – Quais as principais diferenças entre a atuação numa agência brasileira e numa estrangeira?
SOBRAL – Além das diferenças culturais entre as várias nacionalidades, eu diria que o mercado é mais maduro. Agência e cliente trabalham de uma forma mais eficiente, o cliente é muito bem preparado, o que desafia a agência a ter um alto grau de especialização e responder rapidamente às demandas. A comunicação é mais fácil e simples, fazendo com que as coisas andem mais rapidamente e com menos stress.
Quando diz respeito à estética, as diferenças culturais são um pouco maiores. O mercado europeu tem um repertório mais consistente sobre o design e a comunicação visual. Isto implica uma maior exigência teórica e prática do designer.
O Brasil é um país muito jovem e, conseqüentemente, não tem muita história e tradições para ancorar seu design; porém, para nós, é mais fácil quebrar as regras e inovar, umas das razões que têm feito muitas agências na Europa e nos EUA importarem talentos brasileiros.
ABOUT – Como é vista no exterior a comunicação dirigida à mídia interativa feita no Brasil atualmente?
SOBRAL – A reputação brasileira é boa na criação de campanhas on-line. Isto se deve, principalmente, pela flexibilidade criativa que o País tem mostrado em seu desempenho nos principais festivais de propaganda. A capacidade de traduzir conceitos através de uma comunicação simples, criativa e sensual parece ser a marca registrada e agrada bastante aos gringos.
Porém, quando se trata da criação de websites, o Brasil ainda tem que evoluir para ganhar relevância no mercado internacional.
ABOUT – Na sua opinião, o que a experiência brasileira levada por você acrescentou ao trabalho da sua empresa atual?
SOBRAL – Hummm... difícil responder sem parecer pretensioso. Acho que o design ganhou o “tempero brasileiro”. Além disso, fui um facilitador para a estratégia da empresa em focar a criação e o desenvolvimento de campanhas. A Unit9 é conhecida, tradicionalmente, pela criação de websites e animações. Porém, nos últimos dois anos, temos desenvolvido todo tipo de campanhas interativas para clientes como Discover, Nestlé, MasterCard, American Airlines, HP, e, conseqüentemente, estreitamos parcerias com agências como McCann-Erickson London e Goodby Silverstein & Partners de San Francisco.
ABOUT – Como você avalia o bom desempenho de vários profissionais interativos brasileiros no exterior?
SOBRAL – Londres é uma das cidades mais cosmopolitas do mundo, sendo supernormal encontrar estrangeiros tanto nas agências quanto nos clientes. No fim das contas, a diversidade cultural cria um ambiente agradável e empolgante para se trabalhar.
O desempenho dos profissionais interativos brasileiros que trabalham no exterior é muito bom, a maior prova disso é o grande número de profissionais que está saindo do País para trabalhar em importantes agências ao redor do mundo.
ABOUT – Dos trabalhos nos quais esteve envolvido recentemente, comente os que você julga mais interessantes na afirmação de tendências de uso da mídia interativa.
SOBRAL – Em primeiro lugar, eu destacaria a campanha interativa que desenvolvemos em dezembro de 2005 para Discover Card por intermédio de nossa parceria com a Goodby Silverstein & Partners. A campanha consiste em uma série de banners interativos com o objetivo de comunicar as vantagens do cartão discover para as compras de fim de ano. Para isso, criamos um personagem em 3D que pudesse simbolizar o período natalino e, principalmente, o comprometimento da marca em ser útil para seus associados.
Cada banner usava o personagem Elf para comunicar uma das vantagens do cartão através de divertidas interações. Para dar suporte e mais ressonância à campanha, criamos um microste para abrigar o Elf e suas inúmeras brincadeiras. Vale a pena conferir:
http://www.unit9.com/gsp/discovercard/1105/
Outro projeto muito interessante de fazer foi o VAIOgraphy. Uma brand experience, criada para a linha de computadores Sony VAIO do Japão, que consumiu uma enorme quantidade de vídeo interativo e animações. Em conjunto com a agência TYO-ID, no Japão, e a Loo, no Brasil, criamos uma série de dez episódios interativos para fortalecer e comunicar o conceito da marca VAIO. Um projeto enorme e muito desafiador, pois foi realizado ao longo de nove meses de trabalho, três fusos horários, idiomas e culturas completamente diferentes. Foi um grande aprendizado trabalhar com três continentes num projeto tão complexo, técnico e, ao mesmo tempo, criativo:
http://www.vaio.sony.co.jp/Products/Concept/VAIOgraphy/
ABOUT – Onde e quando você começou sua carreira na mídia interativa brasileira?
SOBRAL – Essa é uma história engraçada. Comecei a trabalhar com mídia interativa em abril de 2000, em São Paulo. Na época, foi uma decisão fácil de se tomar para um pós-adolescente idealista, cheio de idéias na cabeça e achando que podia mudar o mundo. Porém, eu precisaria largar uma carreira em ascensão, como diretor de arte de propaganda, para trabalhar num mercado completamente novo, inexplorado e sem garantias, que era a internet. Não tive dúvidas, larguei tudo e fui trabalhar como diretor de arte júnior na extinta McLuhanMedia, que foi uma das pioneiras em comunicação interativa no Brasil. Só esqueci de considerar que era o salário de propaganda que pagava a faculdade de publicidade. Conclusão: tive de trancar o curso e, por isso, minha mãe não me deixou mais usar o carro dela até que eu voltasse. Após seis meses, com muitas noites viradas no trabalho e com a ajuda da família, voltei para a faculdade.
Depois da McLuhanMedia, passei por Fuzzy, Young & Rubicam (YR 2.1) e JWT, onde fui freelancer até começar a trabalhar na Loo, em 2003. Um ano depois, vim para a Unit9, em Londres.
ABOUT – Quais são seus planos para o futuro próximo? Você pretende voltar a atuar na mídia interativa brasileira?
SOBRAL – Meus planos por enquanto são: trabalhar e aprender ainda mais sobre o mercado interativo. Aqui em Londres, na Unit9, temos acesso a tudo e a todos, o que agrega bastante à experiência profissional. Acho que a vontade de voltar ao país de origem é uma coisa que todo profissional empregado em um país estrangeiro pensa, e eu não sou diferente. Mas, por enquanto, ainda não tenho planos de voltar. Amanhã? Quem sabe…
“Quando diz respeito à estética, as diferenças culturais são um pouco maiores. O mercado europeu tem um repertório mais consistente sobre o design e a comunicação visual. Isto implica uma maior exigência teórica e prática do designer” – Rodrigo Sobral, senior interactive creative na Unit9, em Londres.