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15/05/2006 00:00

Mauricio Pommella

Há dois anos fora do Brasil, Mauricio Pommella é, desde o ano passado, diretor de arte do escritório da Blast Radius (www.blastradius.com) em Vancouver, no Canadá. Seu portfolio está exposto no www.thesoulsurfer.net.

ABOUT– Como foi sua adaptação ao mercado externo?
MAURICIO POMMELLA – Foi uma adaptação progressiva, não cheguei metendo o pé na porta e fazendo barulho, fui chegando aos poucos, sempre me esforçando para fazer um bom trabalho e ir progressivamente conquistando meu espaço e respeito. A adaptação não ocorre somente dentro da empresa, mas também em um contexto mais amplo, em um outro país, outra cultura, outro clima...
São novos desafios e novas necessidades... Para mim, choque cultural é querer comer pastel de feira e tomar um guaraná e saber que essas pequenas coisas não são mais possíveis. Não parece, mas essas coisas afetam a cabeça da gente de uma tal maneira que pode impactar negativamente no trabalho.

ABOUT – E a reação dos seus colegas de empresa à chegada de um profissional brasileiro?
POMMELLA – Nunca tive problemas, sempre fui muito bem-vindo, tanto na Electronic Arts quanto na Blast Radius. Eles sabem que brasileiro é geralmente amigável, simpático, boa companhia e, acima de tudo, criativo. Sempre foram tolerantes com o meu inglês, sabendo que minha primeira língua é o português.
É muito impressionante a educação e respeito que as pessoas têm aqui um pelo outro, toda a população é composta por pessoas de diferentes povos, asiáticos, latinos, europeus, norte-americanos. A tolerância é fortemente pregada nas empresas e escolas, afinal, o Canadá é um país essencialmente formado por imigrantes, é um grande mosaico, onde cada cultura é respeitada – coisa que não necessariamente ocorre nos Estados Unidos.
Profissionalmente falando, também sempre fui muito cobrado, sempre esperam o melhor, e não importa se você é um brasileiro ou um suíço formado pela Bauhaus. É fundamental exceder nas expectativas para mostrar que você tem valor, talento e adquirir respeito.

ABOUT – Quais as principais diferenças entre a atuação numa agência brasileira e numa estrangeira?
POMMELLA – Quando cheguei aqui, um de meus colegas de trabalho me disse: “hum, brasileiro... deixa me ver, muito criativo... porém não detém muito bem processos de trabalho...”. E realmente é isso. No Brasil, estamos muito mais preocupados em fazer a idéia genial, o “trocadalho do carilho”, a sacadinha que vai ganhar o prêmio e não importa como isso será feito, se está embasado em um planejamento, se as datas e prazos são suficientes, se vamos ter de varar madrugadas para entregar o material.
Aqui, tudo é extremamente planejado e calculado de modo a não haver surpresas no meio do caminho. Para algumas pessoas, é inconcebível ter de ficar trabalhando até mais tarde ou ter de executar idéias mirabolantes de última hora. Aqui, planejamento, pré-produção e produção têm cada etapa muito bem respeitada, para se evitar sustos. E muito bem cobrada, diga-se de passagem.
Por exemplo, um bom trabalho elaborado na fase de pré-produção irá minimizar refações que eventualmente venham a ocorrer durante a etapa de produção. Quanto mais refações, mais caro vai ficando o projeto, e tanto cliente quanto agência sabem disso.
No Brasil, a gente pega e vai fazendo tudo na raça, sem muita disciplina. Aqui, cada etapa do projeto está debulhada nos mínimos detalhes, e todos sabem qual o próximo passo a ser dado.
Entretanto, vejo que isso não está limitado ao âmbito da empresa, é cultural essa organização, o respeito à pontualidade, ao trabalho que cabe a cada um.
Por outro lado, todo esse processo também facilmente pode matar a espontaneidade e a criatividade, e é por isso que não vemos muitas idéias geniais por aqui.
O Brasil tem uma cultura mais quente, as pessoas são mais espontâneas, sorriem mais, e isso se reflete nas criações – o que é ótimo. Então, vejo que o caminho ideal é um meio-termo, tentar buscar um equilíbrio entre a criatividade e o processo de trabalho sem que um mate o outro.

ABOUT – Como é vista no exterior a comunicação dirigida à mídia interativa feita no Brasil atualmente?
POMMELLA – Eu e você navegamos em sites de língua inglesa...
Mas aqui no Canadá, eles não navegam em sites brasileiros, não sabem falar português, não demonstram muito interesse em saber mais da nossa cultura. Assim, ficam limitados a ver o que acontece nos grandes festivais, onde o site brasileiro foi traduzido para o inglês. Entretanto, nesses festivais, provavelmente, eles verão apenas banners com sacadinhas, talvez um micro site, dificilmente um site grande, completo, com ferramentas e conteúdo primoroso. Mesmo assim, no geral vêem o Brasil como um país bem criativo, e é por isso que profissionais brasileiros aqui são vistos com bons olhos.

ABOUT – Na sua opinião, o que a experiência brasileira levada por você acrescentou ao trabalho da sua empresa atual?
POMMELLA – A bagagem criativa tem sido a diferença. Ter a capacidade de entrar em uma reunião e começar a propor novas idéias com facilidade e espontaneidade tem sido um aliado poderoso para que eu possa crescer aqui e ser um profissional indispensável. Chega a ser engraçado, já estive em reuniões e sessões de brainstorm com todos calados, sem idéias, designers suando frio... Foi aí que pensei: Ótimo! Hora de entrar em ação.
Outra coisa que não tinha reparado é que aqui, apesar de deterem tecnologia, computadores de última geração, terem instrução de sobra, poucos sabem expressar suas idéias no papel. Outro dia, para ganhar tempo e apresentar um cenário específico sobre um consumidor/usuário na web, elaborei um storyboard ao velho estilo que fazia em agência de propaganda no Brasil. Foi o maior sucesso, a idéia foi apresentada de maneira simples e clara, conseguimos vendê-la e ganhamos a conta.

ABOUT – A presença de profissionais estrangeiros nas empresas de mídia interativa daí é natural?
POMMELLA – Sim, só para se ter uma idéia, trabalho com gente de todas as partes do mundo, só no meu time de User Experience tem japonês, coreano, sueco, suíço, inglês, indiano, neozelandês, alemão, chinês, israelense e eu, o brazuca. A empresa valoriza um ambiente multicultural.

ABOUT – Como você avalia o bom desempenho de vários profissionais interativos brasileiros no exterior?
POMMELLA – O brasileiro é esforçado, dedicado, e sempre dá um jeito de fazer as coisas acontecerem. Essa capacidade de encarar o desafio e fazer acontecer é muito bem-vista e contribui para a construção de uma boa imagem no exterior. Vejo que aqui na América do Norte estão sempre em busca de gente com cabeça boa que contribua com novas idéias.

ABOUT – Dos trabalhos nos quais esteve envolvido recentemente, comente os que você julga mais interessantes na afirmação de tendências de uso da mídia interativa.
POMMELLA – Gostei de trabalhar na Electronic Arts por um tempo como interface designer. Lá, pude trabalhar na divisão chamada Fusion, que cuida da produção de jogos para o PSP. Trabalhei na elaboração de interfaces para jogos como MVP Baseball e Tiger Woods 06, e também criei alguns protótipos para Fifa Street e SSX Snowboard, mas não chegaram a ser finalizados. Gostaria muito de poder colocar este material disponível no meu portfolio, mas infelizmente a EA detém os direitos autorais de uso de todo o material elaborado lá e não me é permitido colocar no portfolio. Uma pena.
Já na Blast Radius, as posições se inverteram e a Electronic Arts passou a ser meu cliente. Eles encaram a web como a ferramenta de maior apoio aos seus produtos criando uma extensão ao universo dos games. Através dos websites pode-se acessar estatísticas, profiles, criar estratégias de jogo e compartilhar com seus amigos, criar clans e desafiar seus amigos para jogos on-line, seja no seu PC ou Xbox, e por aí vai... É um belo mix entre conteúdo, customização, comunidade e ferramentas on-line para cativar o consumidor e fazer um trabalho de sustentação da marca e dos produtos.
Seguem alguns endereços de dentro do meu portfolio mostrando alguns layouts:

Need for Speed Most Wanted Nation

Battle Field 2 Modern Combat Nation 1

Battle Field 2 Modern Combat Nation 2

ABOUT – Onde e quando você começou sua carreira na mídia interativa brasileira? Por quais empresas passou depois desta primeira?
POMMELLA – Comecei em 1996 trabalhando no StudioWeb, que era uma divisão da Nutec Informática. Hoje, o StudioWeb não existe mais e a Nutec virou Terra Networks. Depois, em 1999, fui trabalhar na Thunder House. Em 2002, fui para a JWT Digital, onde fiquei até 2004, quando parti para o Canadá. Aqui, trabalhei para Electronic Arts e agora estou na Blast Radius.
Trabalho com o time de User Experience, atuando próximo aos diretores de criação. Sou responsável pelo look and feel de diversos projetos on-line. Minha função principal é a de comunicar high level concepts para o time de design, garantindo aderência a estes conceitos através de design process. Devo garantir que as soluções estejam alinhadas com o prazo e orçamento do projeto e também preservar a unidade gráfica por toda a comunicação a ser desenvolvida.

ABOUT – Quais são seus planos para o futuro próximo? Você pretende voltar a atuar na mídia interativa brasileira?
POMMELLA – No futuro próximo, os planos são de continuar por aqui e progredir com o meu trabalho, quem sabe ir para alguma agência nos Estados Unidos... Tem sido uma boa experiência para mim estar aqui em Vancouver, no Canadá. Nada mal trabalhar a 15 minutos de uma estação de ski, ir para o escritório de skate ouvindo meu iPod. Nesses dois anos de Canadá, nasceu aqui minha filha e, sem perceber, acabamos nos envolvendo mais e mais por aqui. Voltar para São Paulo? Só se for uma proposta muito boa que compense a loucura do trânsito, congestionamentos na marginal, medo de assalto etc. Não nos anima muito, não! Mas nunca diga nunca! O Brasil é minha pátria e a saudade da família sempre aperta, cada dia mais. Ahhh, e como a comidinha do Brasil era boa e barata... que saudades!

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“No Brasil, estamos muito mais preocupados em fazer a idéia genial, o “trocadalho do carilho”, a sacadinha que vai ganhar o prêmio e não importa como isso será feito, se está embasado em um planejamento, se as datas e prazos são suficientes, se vamos ter de varar madrugadas para entregar o material” – Mauricio Pommella, diretor de arte da Blast Radius, em Vancouver.

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