Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comFernanda Romano está na Lowe (www.loweworldwide.com) de Nova Iorque desde dezembro do ano passado, atuando como diretora-executiva de criação.
ABOUT – Como foi sua adaptação ao mercado externo? E a reação dos seus colegas de empresa à chegada de uma profissional brasileira?
FERNANDA ROMANO – Me sinto em casa. A agência me recebeu superbem, o time (são 50 profissionais) foi muito receptivo, ainda que tenha gente na equipe mais velha do que eu, com mais experiência no mercado.
A Lowe está passando por uma fase muito séria de mudanças e rearranjos no mundo todo, e em Nova Iorque foi a primeira agência da rede a adotar um modelo realmente inovador.
Como diretora-executiva de criação, atuo juntamente com mais dois profissionais com o mesmo cargo que eu – brinco que eles são meus “triplas”. Somos responsáveis pela área de criação da agência para praticamente todos os clientes. Nossa estrutura aqui é um pouco diferente daquela com que eu trabalhava antes, na DM9DDB, em São Paulo. Eu, o Peter Rosch e o John Hobbs, meus partners, temos trabalhado com alguns diretores de criação de marcas e, abaixo deles, estão as duplas. Portanto, nosso trabalho é muito mais criar e conservar a qualidade criativa do trabalho do que manter o dia-a-dia com os clientes, o que delegamos aos diretores de criação.
Somos uma trinca de criação de verdade, não existe grupo interativo, todo mundo cria para todas as mídias e, aqui, quem não traz inovação se sente sem graça na reunião. O que diferencia, o que faz de você um profissional interessante tanto para o grupo quanto para o mercado, é a ousadia em tentar coisas novas e ignorar os formatos. Nesse cenário, eu me dei muito bem, sou uma peça importante para a equipe, e a gente trabalha muito bem juntos. Quanto a ser brasileira, não senti nenhum problema. Eu falo inglês fluentemente, só uso a desculpa de ser brasileira quando cometo algum erro daqueles terríveis de falta de atenção, quando quero fazer graça ou falar bobagem. Aí eu digo: “pô, sou brasileira, me dá uma folga”.
ABOUT – Quais as principais diferenças entre a atuação numa agência brasileira e numa estrangeira?
ROMANO – Honestamente, não vejo muita diferença. Talvez as verbas. Mas o prazo, ou a falta dele, é a mesma coisa. Uma diferença é a não necessidade de explicar a necessidade de inovação no pensamento e no produto criativo. Isso ainda é preciso no Brasil. Já aqui, se você não entendeu isso, você é looser. E ninguém quer ser looser.
ABOUT – Na sua opinião, o que a experiência brasileira levada por você acrescentou ao trabalho da sua empresa atual?
ROMANO – Eu sou o protótipo do novo criativo que as agências desejam. Eu posso trabalhar em uma concorrência por uma conta de mídia, posso fazer uma palestra, posso trabalhar no projeto de relançamento de uma marca, sentar com o planejamento e ajudar a dirigir um comercial. E é isso que as agências entenderam que elas precisam. Não basta ser redator ou diretor de arte. Tem de ser criativo. Escrever é uma técnica, desenhar é uma técnica, fotografar é uma técnica. Mas ter uma idéia e saber explicá-la, convencer as pessoas em volta de que é possível, acreditar de verdade que você pode mudar um hábito, esse tipo de coisa, ou você sabe ou não – e aprender é meio difícil.
Eu não sou boa de título. Eu não sei nem combinar a minha roupa, quanto mais enxergar coisas onde ninguém mais está vendo. Por isso, eu sento com o Peter e o John, e a gente troca idéias. A minha idéia não é uma frase ou uma imagem, é uma ação que precisa da frase, da imagem. Por isso, a trinca. Essas pessoas com talentos diferentes, hoje, passaram a ser importantes para a propaganda.
ABOUT – Como você avalia o bom desempenho de vários profissionais interativos brasileiros no exterior?
ROMANO – O brasileiro é genial porque ele não tem medo de ser feliz. A gente não tem grana, dá um jeito de fazer acontecer. A gente não tem a página da revista, veicula em pôster. A gente não tem vergonha e frescura em usar a marca e o produto dos clientes. E, na mídia interativa, o que faz a diferença é ser emocional, envolver o consumidor e ser criativo na hora de chamar a atenção dele e executar a idéia. A presença dos brasileiros aqui é natural e, se dependesse de mim, ia ser maior ainda.
ABOUT – Dos trabalhos nos quais esteve envolvida recentemente, comente os que você julga mais interessantes na afirmação de tendências de uso da mídia interativa.
ROMANO – Eu não trabalho exclusivamente com mídia interativa aqui e, desde que cheguei, minha maior campanha, para Nokia, foi exclusivamente mídia impressa e exterior. Estou muito contente com ela, porque acho que ficou muito bacana.
Além disso, para Nokia fiz um projeto de patrocínio do Tribeca Film Festival que contou com a produção de cinco documentários filmados totalmente com o novo N93 (filma com 30 frames por segundo) e dirigido por um diretor de documentários. Eu escrevi o conceito dos documentários e o guia de perguntas, além das cenas em que o produto apareceria sem ficar forçação de barra, porque era um projeto de conteúdo. [ acesse por aqui ]
Outro projeto bacana que usou a internet foi o lançamento do prêmio Good, Bad and Ugly da associação das mulheres em propaganda de Nova Iorque, que pode ser visto em www.pigsanonymous.com. O projeto foi criar uma associação para machistas anônimos revisitarem seu comportamento e repensarem suas atitudes em relação às mulheres tanto na propaganda quanto no ambiente de trabalho. Além de ter sido hilário fazer o projeto, eu fui mestre-de-cerimônias do evento de premiação e conheci o cara que escreveu “Homens são de Marte e mulheres são de Vênus”.
ABOUT – Quais são seus planos para o futuro próximo? Você pretende voltar a atuar na mídia interativa brasileira?
ROMANO – Eu quero fazer alguma coisa que entre para a história. E propaganda, talvez pela primeira vez agora, que está de verdade virando conteúdo, pode ser o meu jeito.
Vim para a Lowe com uma missão: reinventar, com o cara que me trouxe, o Mark Wnek e meus triplas, o Peter e o John, o modelo de criação. Se isso der certo, a gente vai ganhar contas, fazer coisas inesquecíveis e dar muita risada. Aí, eu volto.
Mas esquece isso de mídia interativa brasileira. Eu não acredito em mídia não interativa. Eu volto pra trabalhar no Brasil qualquer hora, desde que caia a ficha do povo aí que chega de fronteira e de babaquice. A galerinha da internet não existe mais. Se não, eu vou chamar todo mundo que não é da internet de a galerinha do off-line. O que seria, no mínimo, démodé.
“O brasileiro é genial porque ele não tem medo de ser feliz. A gente não tem grana, dá um jeito de fazer acontecer. A gente não tem a página da revista, veicula em pôster. A gente não tem vergonha e frescura em usar a marca e o produto dos clientes” – Fernanda Romano, diretora-executiva de criação da Lowe, em Nova Iorque.