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15/05/2006 00:00

Mauro Cavalletti

Mauro Cavalletti diz que está atuando na mídia interativa fora do Brasil “desde o século passado”. No fim de 1998, “antes do estouro da bolha, numa época em que havia uma festa de IPO por noite”, Cavalletti já estava nos Estados Unidos. Atualmente, é diretor de criação da Organic em São Francisco (www.organic.com).

ABOUT – Como foi sua adaptação ao mercado externo?
MAURO CAVALLETTI – Foi lenta e gradual. Minha primeira experiência foi numa startup que estava prestes a se lançar no mercado de ações. O mínimo que posso dizer sobre essa experiência é que ela foi “caótica”.
Prefiro comentar sobre meu segundo emprego aqui, já numa agência, a R/GA. Fui o primeiro brasileiro na empresa, e, apesar das muitas diferenças, o time era muito especial. Me integrei mostrando trabalho.
Naquela época, ainda não existia esta fama enorme dos criativos brasileiros na mídia interativa, tive que conquistar meu espaço tela-a-tela, projeto por projeto. Depois de um tempo, já estava dando aulas nos cursos de pós-graduação em design na Parsons – foi quando me dei conta de que já estava integrado.
Estou nos Estados Unidos há sete anos e meio. Estive na R/GA em Nova Iorque por seis anos, como diretor de interaction design e diretor de criação. Trabalho na Organic há pouco menos de um ano, primeiro no escritório de Nova Iorque, e agora em São Francisco. Sou diretor de criação, coordenando trabalhos para Universal, Mitsubishi Motors, eBay, entre outros clientes. Também dirijo o grupo de User Experience e Arquitetura de Informação.

ABOUT – Quais as principais diferenças entre a atuação numa agência brasileira e numa estrangeira?
CAVALLETTI – Num primeiro momento, para mim, a grande diferença era a escala dos projetos. De repente, eu estava projetando o site global da IBM, uma coisa gigantesca, numa época em que ainda não existiam standards. Nós estávamos criando os standards pela primeira vez. No Brasil, a escala e o tempo de desenvolvimento eram menores, o que exigia muito menos detalhamento, mas também abria espaço para muita integração da criação com a tecnologia.
Saí do Brasil em um momento maravilhoso, em que tínhamos que inventar uma roda por dia. Rolou muita criação interessante naquela época, e os brasileiros nunca deixaram esta linha – muito arrojo, muito risco, muita idéia nova.
O trabalho aqui nos EUA é muito cuidadoso, muito medido. Os riscos são calculados, o que muda a criação totalmente. Tive que aprender um jeito novo, já que ninguém arriscava muito, principalmente nos primeiros anos pós-2000. Mas também aprendemos a contornar esta cultura nesses anos todos, principalmente pela mistura dos criativos locais com os profissionais vindos de todo lado. Depois que alguém prova que acerta, todos os caminhos se abrem. Agora estamos novamente em um momento muito criativo.

ABOUT – Como é vista no exterior a comunicação dirigida à mídia interativa feita no Brasil atualmente?
CAVALLETTI – Muitíssimo bem. O Brasil malhou bastante nos portais e na propaganda interativa, e os criativos brasileiros, como sempre aconteceu em outras áreas, usaram brilhantemente as limitações do negócio para criar excelência. Demorou algum tempo até que o mercado norte-americano entendesse a proposta criativa dos brasileiros. Depois que os festivais internacionais descobriram a genialidade de alguns dos criativos que estavam desmontando e recriando toda a propaganda interativa no Brasil, a fama se espalhou bastante. Principalmente no que diz respeito à propaganda interativa, se alguém deixar de olhar com cuidado o trabalho do Brasil, só pode ser caolho.

ABOUT – Na sua opinião, o que a experiência brasileira levada por você acrescentou ao trabalho da sua empresa atual?
CAVALLETTI – Esta vontade de fazer um trabalho cada vez melhor que o outro. No Brasil, isto é quase uma doença, uma impossibilidade de se sentir satisfeito com um trabalho bom – o próximo tem de ser sempre melhor. Cada vez que alguém fazia um trabalho genial, todo mundo queria fazer melhor no dia seguinte. Também é genial no Brasil a capacidade de fazer coisas interessantes a partir de quase nada, e quase sempre com bom gosto e humor.
Minha última experiência no Brasil, como diretor de criação na Midialog (hoje AgênciaClick), me deu a chance de experimentar com processos novos, com linguagens novas, e com design de colaboração tanto dentro da equipe de criação quanto com o pessoal da tecnologia. Eu acabei viciado em inovação, que era a onda deles. Trouxe tudo isso na minha bagagem e uso todos os dias.

ABOUT – Como você avalia o bom desempenho de vários profissionais interativos brasileiros no exterior?
CAVALLETTI – Vi muita gente boa chegar nesses anos e não se adaptar à cultura criativa daqui. Muita gente se assusta ou não se empolga mesmo. E aposto que muita gente acha mais divertido trabalhar no Brasil. No entanto, é maravilhoso o crescimento dos brasileiros no comando criativo das agências aqui e no Canadá. Nos últimos anos, tivemos a sorte de atrair alguns dos melhores criativos brasileiros, um time fantástico que está virando o jogo. Aqui em São Francisco, então, é quase um fenômeno.

ABOUT – Dos trabalhos nos quais esteve envolvido recentemente, comente os que você julga mais interessantes na afirmação de tendências de uso da mídia interativa.
CAVALLETTI – Meus trabalhos na Organic ainda estão na cozinha, mas posso dizer que vários deles estão se estendendo na fronteira do multicanal e da web participativa, esta coisa da Web 2.0. Muita coisa legal está acontecendo agora.
Dos meus trabalhos mais recentes, gosto do que fizemos para a Subaru, na R/GA, onde tudo estava integrado – website, propaganda on-line, míni sites, jogos interativos, estações interativas em feiras, e até blogs. Esta tendência da integração multicanal é muito interessante.
Também gosto muito dos trabalhos que fiz com meus alunos na pós-graduação da Parsons, no meu curso de interação em espaços físicos, onde misturamos mídias interativas na arquitetura. Fizemos, por exemplo, uma instalação interativa acionada por telefones celulares no telão gigante de LED na fachada da Reuters em Times Square. E até um videogame interativo, cuja interface com o telão era acionada por pula-pulas no meio da rua – foi uma farra. Devagar, essas idéias novas vão entrando no circuito comercial.

ABOUT – Onde e quando você começou sua carreira na mídia interativa brasileira? Por quais empresas passou depois desta primeira?
CAVALLETTI – Comecei na USP em 91 ou 92, fazendo pesquisas em um laboratório chamado Escola do Futuro, onde conheci muitos talentos, muitos deles atualmente trabalhando em agências. Fiz muita pesquisa sobre processos criativos para novas mídias, e ainda hoje aplico muita coisa dessa época. Ainda na USP, tive algumas colaborações com o pessoal do LSI, onde fiz meu primeiro website em 95, com o Rodrigo Siqueira, da Insite. Dessa experiência, aprendi que os caras da tecnologia são os grandes criativos. Depois, trabalhei com um grupo de amigos, que funcionava como um pequeno estúdio, tipo “boutique agency” (sei lá se este termo existe no Brasil), e que hoje continua atuando na área, a Matemart.
Fui para a Midialog em 97, trabalhar com a equipe do Abel Reis e do Pedro Cabral, através de alguns colegas de pesquisa da USP que já estavam com eles. Esta foi uma das maiores mudanças da minha vida profissional, e tenho muito respeito por eles.

ABOUT – Quais são seus planos para o futuro próximo? Você pretende voltar a atuar na mídia interativa brasileira?
CAVALLETTI – Nesses anos todos, a idéia de voltar ao Brasil sempre acende aqui e ali, mas ainda não apareceu uma oportunidade que me deixasse realmente ligado. O Brasil tem esta capacidade de se reinventar a toda hora, o que é muito legal. Quem sabe uma hora dessas aparece alguma idéia transformadora que me leve com ela de volta para casa.
Acabei de me mudar para São Francisco, e quero ver de perto esta nova fase da mídia interativa. É um jeito de fazer as coisas meio diferentes de Nova Iorque, e eu quero dar meus palpites. A Organic tem como posicionamento desenvolver experiências excepcionais, centradas em inovação, estratégia e criação. Quero tomar muito deste mix nos próximos meses.
Agora, minha maior curiosidade mesmo é ver se a presença de tantos criativos brasileiros fantásticos na cidade vai ter algum impacto. Depois de tantos anos, estou curtindo muito a energia dos meus amigos em volta. Estes caras são geniais e vieram com sede na fonte. Minha expectativa é muito alta.

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“No Brasil, isto é quase uma doença, uma impossibilidade de se sentir satisfeito com um trabalho bom – o próximo tem de ser sempre melhor. Cada vez que alguém fazia um trabalho genial, todo mundo queria fazer melhor no dia seguinte. Também é genial no Brasil a capacidade de fazer coisas interessantes a partir de quase nada, e quase sempre com bom gosto e humor” – Mauro Cavalletti, diretor de criação da Organic em São Francisco.

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