Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comEu olho a Wacker Driver através do vidro bisotê do Hotel Monaco, onde me hospedei na minha primeira noite em Chicago, e vejo as árvores e as pessoas inclinadas para a frente, numa estranha coreografia. Saio do hotel, e a primeira lufada de vento quase me derruba. Foi como um violento tapa na orelha, que mandou para longe a vergonha que eu tinha de enfiar na cabeça o gorro que minha mulher tinha colocado às pressas na minha bagagem, as luvas que meu filho mais velho me emprestou e o cachecol do filho menor.
Era meu primeiro dia na Windy City, onde fui para a reunião do Seven Plus, um encontro de 15 criativos internacionais da Leo Burnett, sob a direção de Miguel Angel Furones. Aqueles dias foram ótimos para ver de perto a criatividade de vários escritórios do mundo, esta mesma criatividade que, apesar de ser a essência do nosso negócio, às vezes me parece meio esquecida por empresas de comunicação que se preocupam mais com o mercado financeiro do que com o mercado de consumo. Foi bom ver trabalhos inovadores de Oslo, Varsóvia e Praga, além do que é feito em Londres e Chicago. E mais, de sentir o respeito que se credita à publicidade brasileira e a responsabilidade que se debita a ela numa rede internacional.
Agora, tão importante quanto a reunião do Seven Plus foi o calendário extra-oficial do evento, que só foi conseguido graças a um providencial fim de semana no meio da programação.
Um dos melhores passeios que eu fiz foi a visita ao Planetário de Chicago, de onde se vê um dos skylines mais belos e harmoniosos da América. As águas do Lago Michigan formavam grossos blocos irregulares de gelo nas margens, como imensos paralelepípedos brancos, calçando sua superfície. Dentro do Planetário, assisti a um show surpreendente, que parece uma nova forma de arte, unindo imagem, música, sons, num espetáculo que não é cinema, teatro, orquestra nem balé, mas tem um pouco disso tudo. Um show que traz cultura com emoção, no qual o nascimento de estrelas, a queda de meteoros, os anéis de Saturno nos protegendo contra objetos interplanetários indesejáveis contam histórias tão emocionantes como um bom livro, um ótimo filme ou uma excelente peça musical. E talvez, mais que tudo, um lugar interessante para refletirmos sobre a dimensão humana num universo tão vasto, que só a nossa ignorância ainda não descobriu se é finito ou não, que existe há 14 bilhões de anos, mas onde há apenas 10 mil anos aprendemos a plantar e a colher, seres ditos inteligentes que não conseguem se manter longe das guerras, num planeta no qual os vermes e as baratas estão mais preparados do que nós para sobreviverem à futura extinção pelo Sol ou a uma possível tragédia nuclear.
A parada seguinte foi no Mexican Fine Arts Craft Museum, onde se vê uma das mais interessantes coleções de arte mexicana do século passado. Ali, temos algumas das obras mais conhecidas de Frida Kahlo, Diego Rivera, José Clemente Orozco e David Siqueiro. Fugindo do frio das ruas, nos encontramos com telas que mostram cactos, camponeses revolucionários, flores, milho e principalmente os esqueletos humanos, tão presentes na arte e no artesanato daquele país que se confundem com a própria vida. Parece uma arte no exílio, exótica, diferente, distante de onde foi gerada, provavelmente se sentindo tão deslocada do seu ambiente natural como a famosa coleção de múmias egípcias do British Museum. Na saída, a lojinha do museu oferece o cardápio completo de agendas, discos, postais, livros e outros suvenires de Frida Kahlo, uma edição atualizada de Evita com sabor de tabasco.
ruy.lindenberg@leoburnett.com.brRuy Lindenberg é diretor de criação da Leo Burnett