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MÍDIA MIX

04/10/2002 18:36

Quem tem baixo nível: a TV ou o público?

José Carlos Veronezzi

Os programas de televisão de baixo nível conseguem altas audiências porque são apelativos ou o público é que é de baixo nível e, por isso, é atraído para programas apelativos? As emissoras deveriam se preocupar primeiro com a qualidade cultural dos programas ou ter como prioridade conseguir audiência?
Essas questões são discutidas desde quando a televisão brasileira passou a ser um meio de comunicação importante, ou seja, fins da década de 60. Época em que começou a abocanhar grande parte das verbas de mídia e, evidentemente, a dar retorno, porque senão as empresas não continuariam a anunciar em TV. Época ainda em que os países europeus capitalistas decidiram que tinham de aplicar o capitalismo também às emissoras estatais, de tão ruim que elas eram. Como para tudo há uma exceção, esta era a BBC, que continua a ter excelente qualidade.
O modelo em que os europeus se espelharam, como nós, foi o mercado norte-americano de TV e de publicidade — um está simbioticamente ligado ao outro —, que tinha um esquema igualzinho ao que se faz hoje, aqui e na Europa, pois a tentativa italiana de conciliar uma TV estatal e, ao mesmo tempo, aberta, com os comerciais exibidos em horários predeterminados durante cerca de 30 minutos, o famoso carosello, nunca funcionou. E nos demais países, o modelo de TVs sem publicidade, bancadas compulsoriamente por taxas mensais pagas pelos domicílios com televisores, nunca tirou as emissoras da mediocridade.
Não se precisa de teses e mestrados para ver que o que fez as emissoras de TV na Europa, México e Brasil crescerem, terem jornalismo ágil e onipresente e produções locais no horário nobre — sejam novelas ou programas de auditório —, em detrimento dos enlatados norte-americanos, foi o mesmo fato social que construiu, manteve e mantém Hollywood como a maior indústria de comunicações do mundo: a procura por entretenimento.
Ou seja, as produções de US$ 100 milhões fazem sucesso, e dão lucro, porque mostram idéias, imagens, estórias, personagens, enredos que as pessoas não tinham imaginado e não sabiam que queriam ver, mas ao verem, gostam e se sentem satisfeitas, se emocionam, refletem, se divertem, enfim, se entretêm. Assim também é com as músicas, os livros de ficção, as novelas, jogos de futebol e outras atrações que a TV inventa.
Por mais que sociólogos, articulistas e críticos em geral teçam teses sobre a importância de a TV ter programas educativos e culturais, a maioria das pessoas, de todos os níveis e classes, vai continuar a ligar os seus televisores em busca de... entretenimento.
Educativo pressupõe conteúdos sobre os quais as pessoas já sabem do que se trata e querem apreender mais a respeito. A TV é um ótimo meio para isso, mas não meio de comunicação, e sim, instrumento, isto é, o aparelho de TV se presta muito bem a exibir aulas mais complexas, seja recebendo as imagens via satélite, cabo ou por meio de uma fita de vídeo. Por isso, em todo o mundo, as TVs educativas recebem verbas dos governos. Aqui, se as verbas das TV Câmara, TV Senado e da futura TV Judiciário fossem destinadas às TVs educativas, além de mais bem empregadas, o público seria poupado de muitas coisas.
Por seu turno, cultura é algo mais relativo que opinião de bêbado, já que tudo pode ser cultura, dependendo da cultura de cada um. Programas de música clássica ou ópera são cultura na Itália, Áustria, Alemanha. No Morro do Alemão, no Rio, cultura é pagode e escola de samba. E há gente que acha que as emissoras comerciais deveriam ser todas a imagem e semelhança da TV Cultura de São Paulo e da Educativa do Rio.
No capitalismo, emissoras de TV particulares precisam pagar suas contas com o dinheiro que conseguem dos anunciantes, e estes anunciam e pagam pelo espaço em função da quantidade de público que seus comerciais vão atingir — que é a audiência. Quanto maior a audiência, mais as emissoras podem cobrar pelo espaço e mais dinheiro podem investir para melhorar suas produções (como faz Hollywood); e assim terem mais chances de atrair mais público (como os grandes filmes), que, por sua vez, dá mais lucro, e o ciclo se reinicia. Mas isso é melhoria de produção, nada a ver com nível, cujo julgamento também é muito relativo.
Se programas do tipo do Ratinho obtêm audiência é porque as classes CDE vêem neles situações interessantes e divertidas; e as classes AB se entretêm com o pitoresco do espetáculo felliniano. O grotesco, o baixo nível, o trash fica por conta de críticos cujas críticas refletem o que seus gostos excessivamente refinados gostariam de ver.
O que se deve criticar é a falta de respeito, exploração e demagogia que certos apresentadores/as e programas fazem com situações, ou com pessoas de baixa instrução, a fim de obter audiência. O resto é desejo de censura, que, como todo mundo sabe, faz parte do ideário fascista.

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