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GRUPO DE MÍDIA DO RIO

24/02/2005 17:00

Homenagem ao não

AdrianoTorres

Neste momento eu peço gentilmente a você, que lê este texto, que se una a mim em uma salva de palmas em homenagem a todas as pessoas que jogam no time "do contra". Sim, aquelas pessoas que estão sempre por perto, com uma palavra negativa para lhe causar desconforto, uma história pronta para te deixar por baixo ou uma cara amarrada de preocupação. Aquelas que insistem em vetar as mais brilhantes idéias porque o futuro, para elas, é povoado de incertezas, recheado de dúvidas e pintado pela tinta da tragédia. E nesses casos tenebrosos é melhor rever as expectativas e trabalhar com perspectivas mais sombrias, projeções mais conservadoras e recomendações que considerem o mal, o pior e tudo o mais que possa piorar.

Peço a você que teça a mais bela loa àqueles que no final das contas só abrem a boca para dizer "cuidado" e apontar os perigos a que estamos expostos. É preciso uma união de elogios para aqueles que não perdem uma oportunidade de dizer que algo vai mal, muito mal, ou que o futuro é incerto, que as chances são mínimas, que tudo isso de bom que dizem que vai acontecer é um sonho que se transformará em pesadelo.

Solicito a sua colaboração para angariar fundos para fins de construção de uma escultura a ser exposta em praça pública, que se constituirá de uma face de semblante carregado e que irá transmitir aos transeuntes que a olharem uma sensação de que tudo que ia bem pode ir para mal em um instante.

Junte-se a mim, caro leitor, em saudações efusivas àqueles que não hesitam em prever o fracasso onde todos já contam com as glórias. Em beijos aos que apontam nuvens no céu azul e que, na falta de nuvens, enxergam sombras, tons mais escuros ou mesmo ventos suspeitos. Um brinde com o champanhe mais caro aos insatisfeitos, quando a alegria domina um projeto; aos de cara preocupada, quando o sim é a tônica; ou aos de coração acelerado de medo e angústia, quando "não tem como dar errado" é proferido por mais de uma voz no mesmo recinto.

Deveríamos carregar nos ombros os que denominamos "arautos da desgraça", ou aqueles que cravam "derrota", quando todo mundo espera pela vitória.

Destinemos, e rápido, as mais belas flores para os que caminham pesarosos na multidão de otimistas, com as mãos nas cabeças, preocupados e alertas, em constantes negativas: "isto não vai dar certo, isto não vai dar certo, isto...".

Anote na sua agenda, sorridente leitor, para que não te esqueça de dar parabéns àquele colega conhecido pelos constantes palpites de tragédia, expressões de medo e angústia ante o futuro por certo tempestuoso.

Faça isso — e eles, os "do contra", provavelmente dirão: "sei não, este negócio de ficar me elogiando é um mau sinal". Mas faça de coração aberto, sem ironias, com sincera gratidão nas palavras que irás dirigir aos rotulados como "profetas da catástrofe", "visionários da hecatombe", ou, simplesmente, "os pessimistas".
Tudo isso porque se não fossem eles, os pessimistas, o que seria de nós?

Nós, que levantamos da cama pensando em dias melhores. Nós, que trabalhamos convictos por melhores resultados. Nós, que quando temos uma idéia e nos apaixonamos, tentamos motivar o mundo atrás do nosso projeto. Nós, que esquecemos que duzentas mil pessoas amam o que criamos, quando uma pessoa, apenas uma pessoa, só uma, assim mesmo no singular, nos diz: "isto vai dar errado".

Ante o pessimismo nosso mundo desmorona. Afinal, fomos criados para ser aprovados, não somente pelos pais, professores, amigos, parentes ou filhos, mas por todos, aí incluídos os que jogam contra. Nós provavelmente iremos tentar convencê-los do contrário, pois uma plantação de crédito e otimismo não pode ficar manchada por uma semente de dúvida. Decerto precisaremos de energia extra, explicações adicionais, mais números conclusivos e charme infinito para demovermos o pessimista do seu amado: "é claro que não".

E depois do "não", do "sei não", e do "pode até ser que sim... Mas sei não".

Mas atente: vai ser neste processo de convencimento a nossa última chance de parar tudo e nos arrependermos. Muitas vezes somos iludidos pela nossa própria capacidade de argumentar, escondemos falhas de nós mesmos ou temos a sorte de conseguir aprovações porque a música melosa emocionou ou porque o dia radiante encheu o coração do chefe de alegria. "Por que ninguém nos parou, disse não ou teve medo?", nos perguntamos quando a bomba atômica cai sobre nossas cabeças. Se isso acontecesse poderíamos estar preparados...

É duro admitir, mas o pessimista é necessário. Sem ele o risco de sermos pegos desprevenidos é muito grande. Imagine que herói nós não teríamos caso houvesse um desses entre os engenheiros do Titanic? "Olha lá, esse negócio de navio que não afunda, sei não...:".

Por isso, quando você tiver uma idéia e precisar de conselhos ou projetar cenários e resultados, passe direto e reto por aquele colega sorridente, que ri diante do espelho e que não vê motivos para a vida não dar certo. Passe reto por todos os que sempre "te dão uma força" e "estão prontos para somar e multiplicar.

Vá direto à mesa do pessimista de plantão. Peça a ele que compartilhe contigo toda a desgraça que só ele está vendo dobrar a esquina e, com isso, falir sua idéia genial.

Ah, e não se esqueça de agradecer depois.

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