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GRUPO DE MÍDIA DE SÃO PAULO

31/10/2003 14:45

Internete: uai note?

Ângelo Franzão Neto

Amissão, embora prazerosa, era bastante complexa. O pouco tempo disponível, como sempre, comprometia a perfeição do nosso trabalho, mas eu tinha em mãos um bom plano de mídia. Não como gostaria de ter realizado, com todas as simulações e garantia plena dos resultados, controle sobre as ações da concorrência etc. Mas, sem dúvida, um ótimo plano de mídia.

Nossa apresentação parecia impecável. E sentia um enorme orgulho da equipe, de todas as áreas, enfim, do resultado final do trabalho da agência. Planejamento estratégico perfeito, como apenas ela sabe fazer. Criação intrigante reafirmando toda a capacidade profissional do grupo. Ações cobrindo praticamente todas as disciplinas do marketing. Tudo habilmente arquitetado, competente, eficientemente administrado, no melhor estilo do atendimento, com sotaque italiano, temperado por muito profissionalismo. Ah, a mídia! completa, pertinente, ousada, criativa. Criativa, porém não muito. E era isso que muito me incomodava. Todos os meios foram devidamente contemplados no planejamento. Cada meio alimentava uma função específica, cada um tinha a sua exclusiva missão. A grande cobertura era a missão maior da TV. A informação técnica viria da revista. A imaginação, do rádio. O preço, as ofertas viriam do jornal, e muitas outras surpresas, da mídia alternativa. A interatividade, o canal direto com o consumidor, era a grande responsabilidade da internet. Tudo estrategicamente integrado, certinho. Certinho demais, e isso também me incomodava demais.

Aí, imaginei: sul do País, nacionalismo invejavelmente aflorado. Necessidade de ambientação da marca ao nosso jeito de ser. Por que então não iniciar já, ali, o processo de ambientação da marca internacional ao nosso som, às nossas cores, à nossa realidade?

Ao apresentar o plano, enfatizava nossas peculiaridades, nossos valores, nossas tradições, e a cada recomendação de mídia, além de salientar a missão específica atribuída a cada meio de comunicação, destacava a sua integração com nossa brasilidade.

Foi assim com a TV e com os nossos típicos programas brasileiros. Foi assim com as revistas e, a cada título, uma história, uma fase do nosso belo parque gráfico. Foi assim com os jornais e a lembrança dos movimentos consolidando circulação e assinaturas. Foi assim com o nosso rádio, querido, romântico e apaixonado rádio, mas que nem sempre desfruta da atenção devida, notadamente no dia-a-dia profissional publicitário. Enfim, em cada meio de comunicação, uma recomendação de mídia. E, em cada recomendação, uma história, uma lembrança, uma função, uma missão. Tudo em benefício da marca e de seus ousados objetivos mercadológicos e de comunicação.

Por fim, chegou a vez da "nossa" internet. E aí me flagro falando inglês, no pior sotaque paulistano, tentando definir e pronunciar modalidades comerciais que em nada se conectavam à nossa realidade. E, pior, tudo sem história, até porque poucos sabem da origem da sua formatação, de seus conceitos e suas modalidades comerciais. A cada palavra, uma arranhada verbal, o falso ar de pleno entendimento, tanto da minha parte como de todos os participantes da reunião. Inclusive do cliente.

Banner, full banner, super banner, skyscraper, pop up, pop under, superstitial, interstitial, and so one…

Por que não Internete? Por que não bandeira, selo ou pendão? Por que não bandeira cheia, selo cheio ou pendão cheio? Por que não arranha-céu? Por que não explosão ou estalo anterior? Por que não explosão ou estalo posterior? Por que não vinheta entre páginas? Por que não vinheta após páginas?

A tradução das diversas modalidades comerciais da internet para o nosso português certamente facilitaria toda a apresentação. Reconheço que alguns conceitos e definições sugeridos aqui tornaram ridículas as modalidades, mas reconheço também que nem sempre ridicularizariam a performance da apresentação de profissionais, tanto de mídia como de comunicação. Concordam?

Isso tudo pode parecer uma ficção, mas tenho certeza de que, desde que ajustado o padrão comercial do meio à nossa linguagem, aos nossos padrões, à nossa cultura e fundamentalmente ao nosso idioma, muitos não só ousarão programar ainda mais a internet como a defenderão com muito mais propriedade.

E para começar, por que não internete?

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