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GRUPO DE MÍDIA DE SÃO PAULO

21/05/2003 16:08

Amigo ou inimigo? O culto ao cometa Tivo

Maria Lúcia Cucci

O título que dá origem a este artigo me chamou a atenção em recente matéria publicada no caderno Sunday Styles, do New York Times. Comparado aos mais revolucionários produtos lançados nos últimos anos, apregoado pelos gurus de plantão como sendo o aparelho eletroeletrônico que seria recorde de vendas no mercado americano, o Tivo – Personal Video Recorder ainda não se firmou nos Estados Unidos e vem causando polêmicas. A primeira, como não poderia deixar de ser, foi junto ao mercado publicitário, já que uma das funções mágicas do produto é eliminar os comerciais. Mas a controvérsia atual se dá em relação ao comportamento dos seus possuidores.
Embora 70% dos norte-americanos nunca tenham ouvido falar neste aparelho, visto que o produto não tem uma campanha publicitária desde o ano 2000, e quando perguntados não demonstrem a menor intenção de compra, os 700.000 assinantes do Tivo estão se considerando pessoas especiais. "O culto ao Tivo implica um pequeno grupo de entusiastas contra um grande número de pessoas que não sabe o que é isto", dizem os estudiosos.
Mas o que está tornando essas pessoas Tivomaníacas? Como se acham especiais ao encontrarem um membro da mesma seita, passam horas a fio descrevendo as maravilhas que o seu Tivo faz. "Quando estou indo para casa, penso o que o Tivo fez hoje, para mim. É como um animal de estimação", diz um adepto.
Ao se depararem com um ser não possuidor, dedicam um tempo enorme a demonstrar os benefícios de um aparelho que permite gravar todos os episódios da série preferida durante toda a temporada, parar o programa quando o telefone toca, aumentar a velocidade nas partes cansativas, além de, é óbvio, pular os comerciais. São os grandes vendedores e propagadores do culto.
Outro ponto é o poder de escolha que o aparelho transmite aos usuários. "O mais importante do uso do Tivo é que ele mudou minha vida, me trouxe a liberdade." Liberdade esta que tem um preço relativamente alto: são US$ 350,00 pelo aparelho, mais US$ 12,95 de mensalidade, além de requerer o serviço de cabo ou satélite e uma linha telefônica para o download da programação.
Bem, esta maravilha, segundo estudos da Next Research, está fazendo com que esses felizes proprietários assistam seis horas a mais de TV por semana do que a média dos norte-americanos — que, por sinal, já é muito alta: de quatro horas diárias por pessoa e de sete horas diárias por domicílio.
Esta obsessão por criar a própria programação atinge extremos e acaba afastando as pessoas da realidade, já que muda as principais características da TV, que são o entretenimento, a informação e a convivência.
Fica muito mais difícil conversar com alguém que passa seis horas seguidas assistindo a vários episódios dos Simpsons sem se preocupar se acabou a guerra, ou qual o novo sanduíche do McDonald´s.
Como essas pessoas vão ficar sabendo das novas séries, dos novos programas, se foram estabelecidos parâmetros tão definidos, tais como assistir a todos os programas que falem sobre jardim?
Deixando de lado o radicalismo e todas as peculiaridades do mercado norte-americano, a conclusão a que se chega é que, mesmo em um aparelho de última geração, a tão falada interatividade não é tão interativa assim, visto que o uso do Tivo está fazendo com que as pessoas se afastem das outras mídias e selecionem de forma limitada o que querem assistir.
A privacidade dessas pessoas é que ficou interativa, pois o sistema do Tivo conhece todos os hábitos de seus assinantes e está usando esse conhecimento para recomendar programas de estilos semelhantes e mensagens publicitárias de forma subliminar.
Por isso o título me intrigou tanto. Será que o mau uso ou o uso exagerado deste "amigo" pode levar usuários a uma alienação inconsciente? Até que ponto isto não é pior do que alguns minutos de comerciais por hora? Enfim, o que há de tão ruim em ser normal?

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