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GRUPO DE MÍDIA DE SÃO PAULO

04/10/2002 18:22

Futuro? De volta para o passado

Maria Lúcia Cucci

Toda vez que temos uma crise séria, no País ou no mundo, ataca a nostalgia e ficamos na esperança “dos bons tempos voltarem”, e aí apelamos, como tábua de salvação, para as coisas que em nossa memória representam esses momentos de calmaria e felicidade. Vejamos, na moda o “in” é o vintage, que já foi chamado de roupa de brechó. As festas mais descoladas são aquelas em que as músicas e o clima são dos anos 60. Os bares viraram botequins e pubs, num resgate ao velho bolinho de bacalhau e ao clima mais denso dos bares ingleses. Para comer, o bom e velho stroganoff, que já foi chique, passou a ser kitsch e agora volta a reinar.
E nós, publicitários, sempre tão à frente, sempre antenados, criadores de hábitos, estamos também de volta ao passado, apelando para fórmulas de sucesso que, num passado não muito distante, descartamos, por acharmos ultrapassadas.
Olhe estes exemplos:
Número de programas transmitidos ao vivo. Antigamente, por falta de recursos, todos os programas eram transmitidos ao vivo; hoje, por excesso de recursos, eles são transmitidos ao vivo, pois os manipulamos conforme a reação da audiência.
Garotas-propaganda. Nossas garotas-propaganda anunciavam de tudo, de geladeira a pasta dental. Hoje, nossas “loiras-propaganda”, já que algumas não são tão garotas e nem tão loiras, anunciam de tudo — de automóveis a remédio contra piolho.
Nome do patrocinador nos programas. Lembram-se do Repórter Esso, Pim pam pum Estrela, Pulmann Junior, entre outros? Os de hoje, vocês sabem.
Videocassete e personal vídeo recorder. Quando inventaram o videocassete, ele revolucionou o mercado. Você podia gravar a novela enquanto via ao filme ou ia ao supermercado. No momento em que você quisesse assistir, tinha também a possibilidade de só adiantar a fita e eliminar os comerciais. Os mais visionários diziam que ele acabaria com o cinema. Com o Tivo, a vida da gente vai mudar, vamos poder interagir com a programação. Por meio do controle remoto, com muito mais botões, e seguindo as instruções simples que aparecem no manual ou na tela, podemos gravar a novela ao mesmo tempo em que assistimos ao filme ou enquanto estamos no supermercado e, ainda, temos a possibilidade de eliminar os comerciais. Os mais visionários dizem que ele vai acabar com a publicidade. Sentiu a diferença? Ah, descobri uma!, ele não vem com reloginho. Ufa!, que moderno, eu ainda não aprendi a acertar as horas no vídeo.
Espaço entre programas ou dentro de programas. Chamávamos de intervalo, lembra? Hoje, chamamos de break. Antes, não se conseguia fazer uma clara distinção entre o intervalo e o programa, pois eram as mesmas pessoas que faziam os dois. Hoje, estamos querendo exatamente a mesma coisa: tirar os breaks e pôr tudo interagindo, para evitar o efeito zapping. Vamos lotar os programas de merchandising, empregar inserts por ocasião das projeções dos filmes, vender produtos que aparecem nas novelas durante as próprias... até alguém descobrir de novo que o bom é inserir o famoso intervalo entre um programa e outro, e depois durante os blocos do programa. Nessa nova era, vamos, então, fazer comerciais de qualidade, que sejam premiados e que levem os telespectadores a adotar bordões tal qual “Não é assim uma Brastemp” ou a cantar jingles como “Pipoca com Guaraná”.
Por favor, não me levem a sério, eu estou ficando uma velhinha rabugenta, mas com uma memória!!!

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