Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comO presidente da ANJ – Associação Nacional de Jornais e diretor-presidente do
Grupo RBS, Nelson Pacheco Sirotsky, tem uma longa intimidade com o universo da comunicação. Não apenas pelo tempo que se dedica ao setor, mas porque traz no sangue a herança de uma família que criou e desenvolveu uma das maiores e mais respeitadas organizações de mídia do Brasil — a partir do pioneirismo de seu pai, o saudoso Mauricio Sirotsky Sobrinho, e de seu tio, Jayme Sirotsky.
Nelson passou por diversas áreas e funções dentro da RBS antes de assumir a liderança do grupo, que hoje congrega seis jornais, 18 emissoras de TV afiliadas à Rede Globo, 26 emissoras de rádio, um portal de internet, duas emissoras locais de televisão, uma gravadora, uma operação dedicada ao segmento rural e uma empresa de logística — além da Rede Gaúcha Sat de Rádio, com 123 emissoras afiliadas em dez estados brasileiros.
Além de tocar ativamente os negócios da família Sirotsky, dom que herdou de seu pai, Nelson incorporou as virtudes de liderança de seu setor de atividade, tradicionalmente cultivadas por seu tio, que, entre outros cargos, também presidiu a ANJ.E foi na qualidade de líder da principal entidade de jornais do País que Nelson falou à About, não deixando sem resposta nenhuma das indagações que se faz após o tsunami que varreu a imagem da propaganda brasileira.
ABOUT – Qual é o impacto dessa sucessão de escândalos sobre a imagem e credibilidade do setor da propaganda?
NELSON SIROTSKY – Infelizmente, a grave crise ética que estamos vivendo não é um “privilégio” da propaganda ou da comunicação, mas de toda a sociedade brasileira. Há mais de 20 anos, a questão da ética não ocupa uma posição central na agenda do País, deixando de fortalecer os princípios e valores da sociedade — entre eles o respeito à dignidade e à honradez pessoal e empresarial.
Isso significa que a única saída possível é promovermos um choque ético que leve esta questão para o centro das preocupações de todas as pessoas, de todas as empresas, de todas as profissões, de todas as organizações e instituições sociais e políticas.
O Brasil precisa entender que a agenda ética é essencial para evoluirmos para um patamar superior de desenvolvimento, de civilização. Sem esse componente ético, estaremos condenados a marcar passo na etapa na qual nos encontramos. Só voaremos mais alto com o suporte da ética.
Por essa razão, acredito que esta crise, que parece interminável, na verdade trará resultados benéficos, pois ela colocou o desafio e gerou o sentido de urgência do País em debater essa agenda de princípios éticos que se desdobram nas atitudes pessoais, profissionais, empresariais e políticas.
Nesse sentido, podemos dizer que a propaganda quase que é caudatária dessa baixa preocupação e respeito com a ética. Mas isso não exime nossa responsabilidade coletiva e a culpa pontual daqueles que se colocaram no centro da crise.
Já percebo sinais de que as áreas da comunicação estão se movimentando para reverter essa situação de modo definitivo. O que reforça meu otimismo e minha disposição de trabalhar para isso como pessoa, empresário e líder setorial.
O que nós, profissionais e líderes deste setor, temos de entender é que também nos é dada uma oportunidade de propor uma agenda diferente nas nossas relações institucionais. Assim, sinalizamos para a sociedade que nós, da área da comunicação e da propaganda, estamos propondo uma agenda diferente para o exercício da nossa atividade no presente e no futuro.
ABOUT – Essa crise “pega” apenas nos empresários de agências ou atinge todos os profissionais da área? Ela marca somente as agências ou resvala para os veículos?
SIROTSKY – Ela atingiu a todos nós, infelizmente. Tudo que se relaciona ao universo publicitário ficou, no mínimo, sob suspeita. Mesmo considerando que na essência da questão está o fato de que houve uma utilização desvirtuada da propaganda por parte de integrantes dos poderes públicos e políticos.
As generalizações são perigosas, como se sabe, mas é fato que temos de elevar nossos padrões éticos e preparar um plano para reverter essa percepção negativa que atraímos.
As entidades relacionadas à mídia impressa, ANJ e Aner, vão ao Governo Federal nos próximos dias levar uma proposta formal sobre a utilização de verbas públicas nos nossos veículos, com a sugestão de que ela seja ancorada por um processo formal de auditagem das nossas circulações. Esta é uma iniciativa objetiva no sentido de dizer à sociedade que não temos nada a esconder.