Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.com

Mídia

09/06/2009 16:53

PROJEÇÃO DO MINISTÉRIO DA FAZENDA: 4% DE CRESCIMENTO EM 2010

Gisele Centenaro

Compenetrados e no clima de seriedade coerente com o conteúdo do evento, sem, no entanto, deixar a desejar em bom humor para relaxar o ambiente nos momentos de discussão mais tensos, líderes do empresariado brasileiro aceitaram, em peso, o convite para participar, nesta segunda-feira, 8, pela manhã, no hotel Unique, na capital paulista, do V Fórum Globo News, com a presença do ministro da Fazenda Guido Mantega, no palco, ao lado de Jorge Gerdau, presidente do Conselho de Administração do Grupo Gerdau, e do economista José Roberto Mendonça de Barros, sob mediação jornalística de Miriam Leitão. Sob holofotes e com câmeras focadas tanto nas personalidades presentes como na platéia para o debate ir ao ar, o ministro esteve absolutamente à vontade, do início ao fim da gravação, inclusive ao atender à imprensa posteriormente, respondendo com propriedade às dúvidas, bem como às críticas relativas à governança do Estado brasileiro. Mantega chegou a brincar com Mendonça de Barros, ao fazer suas primeiras considerações dentro do tema “ações contra a crise” e afirmar que o economista com certeza estava errando, naquele momento, na projeção do PIB trimestral. Sob os cálculos de Mendonça, o negativo anunciado hoje chegaria a 3.4% em razão do recuo do crescimento do País. O ministro rebateu, declarando, sem pestanejar, que o índice não ficaria acima de -1%. Em cheio: -0,8%. Segundo o IBGE, o Produto Interno Bruto do Brasil caiu 0,8% no primeiro trimestre em relação aos três meses imediatamente anteriores e 1,8% sobre igual período de 2008. “O resultado confirma que o país está em recessão”, publicam as manchetes dos principais noticiários desta segunda, entretanto, falta um dado: o resultado também confirma, sob testemunho de quem esteve no V Fórum Globo News ontem, que a condução da política econômica do País está em boas mãos.

A situação é delicadíssima, porém, a confiança do ministro Mantega e de sua equipe no potencial e nas perspectivas dos principais setores da economia brasileira, essencialmente naqueles que dão sustentabilidade à economia de base, é contagiante, como demonstrado também nesta quarta-feira, em coletiva de imprensa para dar às devidas respostas à sociedade sobre a redução do PIB trimestral. Reproduzo, a seguir, alguns dos principais trechos da fala do ministro da Fazenda, gravada ontem pela Globo News.

“Esta crise é inédita, monumental. Nem na crise de 29 se viu uma ação tão forte e ampla dos Estados, mundialmente. Esta ação é muito mais coordenada do que na crise de 29. Os Estados Unidos da América já colocaram 14 trilhões de dólares na economia americana. Valor equivalente a um PIB americano para ajudar a nação a se levantar. A crise já foi atenuada e encurtada. Uma recessão é possível, mas ela não se transformará em depressão. A crise já está mais leve. Teremos pela frente uns dois anos para digerir problemas provocados por ela, mas a confiança melhora as condições no enfrentamento do desafio. Como todos sabem, não pode faltar confiança num sistema capitalista, pois, falta de confiança implica em falta de crédito. No Brasil, a confiança retornou rapidamente, antes mesmo de termos os problemas resolvidos. O sistema financeiro norte-americano e o europeu estão frágeis. Ainda há no mercado ativos tóxicos não-absorvidos. Mas o retorno da confiança também nesses mercados traz a volta do crédito, a melhora do mercado de capitais. Nesse contexto, países avançados e emergentes estão, sim, em recessão. Ela é inescapável. Contudo, a economia brasileira já está crescendo novamente. Não podemos nos esquecer que, neste momento, ao termos anunciado o recuo do PIB, estamos na verdade olhando pelo retrovisor. O pior já passou. O recuo não será maior que 1%, segundo nossas projeções, embora seja preciso aguardar com tranqüilidade a divulgação desse índice pelo IBGE. E já estamos em crescimento, deglutindo nossos problemas. As nações que compõem o BRIC estavam, no enfrentamento desta crise, mais dinamizadas, mais preparadas, com menor dependência interna dos mercados internacionais. Esse quadro permitiu ao Brasil, por exemplo, lançar mão de políticas anticíclicas. A China colocou 580 bilhões de dólares no mercado. E o Brasil pela primeira vez pôde contar com políticas anticíclicas. No passado, em momentos de crise como este, os juros subiam, a fuga de capitais era inevitável, assim como o aumento do déficit público, tornando a recessão prolongada. Um país mais forte viabiliza o afastamento mais veloz da crise, um período rápido de recessão. Temos reservas, condições melhores, mercados dinamizados, políticas anticlíclicas, juros menores, política fiscal para cortes de gastos, manutenção e reforço do PAC, programa habitacional, liberação de compulsórios, crédito retomado, incentivos para financiamentos, temos bancos públicos para agir a favor da população, assim como das pequenas e médias empresas. O nosso sistema financeiro está finalmente civilizado. Nossas pessoas físicas hoje têm mais crédito, e com maior facilidade, bem como as pequenas e médias empresas. E não estamos ainda contentes com essa diminuição dos juros, pois a taxa de 5% se aplica apenas ao capital de aplicador. É um absurdo o crédito ser ainda tomado a taxas de 28 e 29%. Esse crédito está estupidamente elevado para o consumidor brasileiro. Temos de continuar gerando mecanismos para viabilizar crédito com menores taxas de juros. Temos feito isso através dos Fundos de Garantia de Créditos – criamos até o Fundo de Garantia de Crédito e Performance para a Indústria Naval. A Petrobras investe em 2009 algo em torno de 6 bilhões de reais, quantia extremamente significativa. O fundo do pré-sal é de 5 bilhões de reais – estaleiros, sondas... O Banco do Brasil dinamiza o mercado com 4 bilhões de reais em crédito, valor que alavancado deve ser multiplicado por 7. Sim, o PIB tem índice de recuo na divulgação do IBGE amanhã, mas visto pelo retrovisor. A economia brasileira vai adiante, com seus programas fiscais, reduções de IPI com resultados eficientes, reformas que devem sair do papel sem desfiguração – e estou acompanhando pessoalmente esse processo, com interesse em acelerar a votação do Congresso, desde que a reforma tributária não seja desfigurada. O BNDS coloca à disposição 160 bilhões de reais para financiamento de capital de giro. Vem aí também o Plano Safra, especialmente para salvaguardar o financiamento do setor agrícola, mantido até o momento sem quedas de performance. O petróleo está chegando a preços razoáveis por barril, a soja está em alta, a balança comercial do Brasil já melhorou, sendo que nosso fluxo financeiro já está novamente positivo. O Brasil conta com favoritismo internacionalmente, um bom motivo para continuarmos mantendo o câmbio flexível, mas permanecendo sempre alertas na hora de comprar e vendar dólares em defesa de nossas reservas. Esta crise foi um teste de stress para muitos países. Ficou demonstrado que o Brasil está muito bem ao longo desse ‘teste’. Quando essa crise terminar, sairemos dela muito melhores que a maioria dos países, alguns deles obrigados a injetar bilhões e até trilhões em suas economias para sair dela. Aumentar gastos foi uma decisão sensata por parte do Governo nesse período, de modo que impulsionássemos o surgimento e a preservação de empregos pelo investimento, principalmente em educação e infra-estrutura. Eis um exemplo de política anticíclica. Estamos mais equilibrados do que a maioria dos países. Nosso déficit no ranking internacional é de 2.1%, enquanto os Estados Unidos estão na faixa de 13.7%. Não tivéssemos tido de enfrentar essa crise, o déficit nominal do Brasil seria zero em 2010. De qualquer modo, nossa relação de dívida em face do PIB não se modificou e está na faixa dos 30 aos 33%. Para os países preparados, crise traz desconforto mas também traz oportunidades. Vivemos hoje a oportunidade de avançarmos mais que outros países em diversos setores da economia, enquanto muitas nações ficarão para trás administrando déficits magníficos. Temos condições de expansão. E voltaremos ao patamar de 4% de crescimento em 2010.”

Jorge Gerdau fala firme, sempre, porém, muito provavelmente em razão da delicadeza da situação na qual, como empresário bem-sucedido, se viu no palco montado pela Globo News, no qual suas palavras tinham peso de ouro, afinal, ao repercutirem no mercado brasileiro, poderiam colaborar para ondas de uma iminente recessão se tornarem menos ou mais violentas, começou suas considerações com voz embargada, suave, tímida até. Se o tom não combina com seu estilo, tanto é que, minutos depois, seu caráter imperativo já havia retornado, talvez reflita, em verdade, a timidez com que o empresariado brasileiro costuma se manifestar, justamente nos momentos nos quais lhe são concedidas oportunidades para questionar, criticar, sugerir, solicitar. Nos bastidores, a luta pela defesa dos interesses não cessa jamais, inclusive nas atividades de lobby no Congresso Nacional, entretanto, ainda somos “jovens”, mesmo quando anciãos, no exercício da democracia, por falta, eu diria, de prática, em outras palavras, simplesmente inexperientes para a liberdade civil. Essa observação empírica tem, todavia, um lado positivo: se, mesmo sob tais circunstâncias desvantajosas para o Brasil em face dos países de economia avançada e intenso histórico democrático, temos conseguido driblar a crise, não ultrapassando 1% de recuo no cálculo do Produto Interno Bruto enquanto o mundo vive a mais forte crise financeira de toda a época contemporânea, imaginem aonde poderemos chegar quando tivermos mais confiança em nós mesmos e na nossa capacidade de dialogar um com os outros de modo que, em vez de contendas, o caminho aberto seja o da contribuição mútua pelo bem de todos.

Com sua agudez costumeira, Gerdau colaborou enormemente para o debate ao analisar os prós e contras da situação brasileira em meio a este período de crise forjada nas nações ricas. Desafiou o ministro, por exemplo, ao frisar que o Brasil terá crescimento zero em 2009. Mantega não aceitou a previsão, partindo para o confronto elegante e no mais adorável estilo cultuado pelos senadores gregos dos tempos em que até o Oráculo era consultado antes de se pleitear a palavra na tribuna, pleiteou seu direito de trabalhar com a projeção de, no mínimo, 1% de crescimento do PIB até o fim de 2009.

Miriam Leitão supôs ser sonho de ministro conseguirmos nos manter tão seguros nesse turbilhão de más notícias além de nossas fronteiras terrestres, e novamente Mantega foi convincente ao lembrar à jornalista que a equipe do ministério da Fazenda não pode, infelizmente, se dar ao luxo de sonhar acordada, tendo de basear todas suas suposições e projeções em cálculos vinculados à realidade presente e em perspectiva, sob todas as nuances pitagóricas possíveis diante do quadro atual.

Foram também importantes as colocações de Gerdau e Mendonça sobre problemas que o empresariado e os cidadãos-consumidores brasileiros “sonham” ver resolvidos. Entre eles:

– Juros mais baixos para todos de modo que a economia brasileira tenha fôlego para crescer, gerando empregos e consumo, a ponto de alcançar o patamar de pelo menos 3% de evolução do PIB em 2010 (em contrapartida, Mantega já trabalha com uma perspectiva de 4%).

– Intensificação das políticas de redução de IPI, que deram excelentes resultados ao serem aplicadas aos setores automotivo e de bens duráveis da linha branca.

– Cortes mais drásticos nos gasto com consumo do Governo, cuja folha de pagamento, de acordo com Mendonça, vai continuar crescendo até 2011, embora Mantega alegue que o aumento desse tipo de despesa é intrínseco às políticas anticíclicas adotadas para combater, momentaneamente, a crise.

– Atenção para o fato de que o mundo sairá da crise, inclusive o Brasil, crescendo menos e de modo diferente. Há ainda o "agravante", dependendo do ponto de vista, de a economia brasileira já ter atingido um bom nível de formalização, com muitos cidadãos e comunidades compostas por eles hoje transformados em empregados com carteiras assinadas e, respectivamente, micros e pequenas empresas legalmente constituídas, ou seja, já atingimos um patamar de arrecadação de impostos razoável e que não deverá, no futuro, ter evolução tão intensa.

– Urgente plano de investimento, acompanhado de redução de impostos, para aumentar a competitividade das empresas brasileiras em todos os setores, principalmente naqueles que produzem para exportação, com o intento de facilitar na conquista de novos mercados pela oferta de preços mais acessíveis na comparação com similares concorrentes. O aumento da competitividade, segundo Gerdau, tem de ser planejado para todas as cadeiras produtivas, isto é, da produção do algodão à fabricação de uma camiseta e de sua embalagem. Atrelada a esta solicitação está, obviamente, a tão desejada – e quase inatingível em razão da morosidade dos trabalhos no Congresso Nacional – reforma tributária. Pelo andar da carruagem, crianças se tornarão adultos, no nosso país, antes que essa reforma, finalmente, seja viabilizada, por um motivo intrigante e, digamos, faceiro, outro reflexo sintomático do culto ao folclore brasileiro: as trocas de figurinhas para completar as coleções de interesses de todos os envolvidos nesse processo.

tamanho da letra

a a a

Déficit nominal zero se uma crise espetacular não tomasse conta do cenário"Aumentar gastos foi uma decisão sensata por parte do Governo nesse período, de modo que impulsionássemos o surgimento e a preservação de empregos pelo investimento, principalmente em educação e infra-estrutura. Eis um exemplo de política anticíclica. Estamos mais equilibrados do que a maioria dos países. Nosso déficit no ranking internacional é de 2.1%, enquanto os Estados Unidos estão na faixa de 13.7%. Não tivéssemos tido de enfrentar essa crise, o déficit nominal do Brasil seria zero em 2010", afirma o ministro Guido Mantega, em debate ao lado de Jorge Gerdau (à esquerda) e José Roberto Mendonça (à direita). :-)

Download Mídia Prêmios Mídia

BuscaRápida

Esqueci! Cadastre-se
© 2002- Revista About e Portal da Propaganda
Redação, Administração, Publicidade, Circulação e Prêmios - R. Cardoso de Almeida 788, 11º andar, cj. 112/113 - Perdizes - CEP 05013-001
São Paulo - SP - Tel. (11) 3675-9065