Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comO hilariante mas preocupante episódio jornal-etílico que colocou de um lado do barril o presidente da República do Brasil e de outro o correspondente do New York Times constituiu uma brilhante aula prática, digna do melhor media training, de como não se deve administrar uma crise de imagem na imprensa.
E constitui uma ótima oportunidade para fazer executivos e empresários refletirem sobre qual o melhor comportamento e quais as medidas a serem adotadas em face de uma situação dessas.
Respeitadas todas as sensibilidades pessoais, as competências profissionais e as inteligências de todos os experientes atores que ocuparam o infeliz palco dessa tragicomédia, o enredo tornou dolorosamente claro que:
1- A punição ao jornalista, pelo governo brasileiro, deu publicidade incomparavelmente maior à reportagenzinha fofoqueira que lhe deu origem do que a própria publicação da matéria no New York Times;
2- A reação do presidente da República e do governo — que além de tudo acabou sendo inócua — foi movida pelo fígado, órgão da nossa anatomia muito menos indicado que o cérebro para a definição de estratégias e tomada de decisões;
3- O castigo de um correspondente que escreveu uma matéria condenada ou nem sequer levada a sério pela maioria das pessoas, ilustrada por uma foto em que o presidente nem está bebendo, mas sim promovendo cerveja em uma feira comercial do produto, o que é absolutamente "não-notícia" — e que sumiria naturalmente do horizonte em poucos dias, em meio a pequenas ironias e algumas charges exclusivamente em veículos nacionais —, acabou forçando todos os demais jornalistas e donos de veículos do mundo a se colocarem, por solidariedade profissional, ao lado do colega americano;
4- A reação deu à matéria uma importância e aparente seriedade que ela não tinha;
5- Quem lê jornais e revistas e assiste à TV, mas nunca havia cogitado se o presidente beberica ou não — apesar de há anos todos saberem que ele tem fama de adorar pinga com cambuci —, muito menos sobre o impacto disso no governo e na vida nacional, passou a se preocupar com a questão e a achar que onde há fumaça, há fogo — ou, no caso, "de fogo";
6- Todos os demais jornalistas brasileiros e estrangeiros sentiram-se "furados", ainda mais por uma matéria que ganhou repercussão mundial; e estão agora de antenas ligadas, olhos muito abertos e narinas sensibilizadas para detectar o menor sinal suspeito, um halitozinho mais comprometido, uma involuntária troca de pernas ou um copito a mais do chefe da Nação;
7- Um presidente que, apesar de seu estilo informal e popular, sempre se portou com gravidade e que, por todas as razões conhecidas, vinha sendo internacionalmente visto como estadista — ou a caminho de ser assim considerado — torna-se subitamente vulnerável a piadinhas e chacotas, mundo afora, não devido à matéria publicada, mas sim à maciça divulgação global que ela ganhou de presente do próprio chefe do governo.
Não discuto aqui se Lula bebe ou não bebe. Como já se disse, o abstêmio Hitler foi engarrafado em seu bunker por Churchill, Roosevelt e Stalin, para os quais a água que passarinho não bebe jamais foi estranha ou distante.
O que me interessa é usar essa involuntária e constrangedora vinheta para ilustrar que:
1- Antes de entrar em atrito público com um jornalista, a pessoa ou empresa deve pensar dez vezes. Não porque os profissionais de imprensa estejam acima do bem e do mal, longe disso, mas devido às conseqüências negativas que essa atitude pode gerar em razão de todos os fatores alinhados anteriormente;
2- Antes de agir, deve sempre responder objetivamente às perguntas: "o que vai acontecer depois?" e "o que eu ganho com isso?";
3- Se puder minimizar o fato ocorrido, demonstrar que ele não é importante, será muito mais bem-sucedido que se agir ao contrário;
4- Processar e punir jornalistas é sempre visto (com ou sem razão) como um atentado contra a liberdade de imprensa e, por decorrência, contra a democracia. Por isso só deve ser tentado se for absolutamente indispensável. Como filosofou O Estado de S.Paulo em editorial: "E pensar que o presidente poderia ter dado a volta por cima chamando o jornalista para um drinque no Alvorada".
Finalmente. Por mais que alguém se esforce, não dá para entender como é que um líder inteligente e de sensibilidade, com os anos de janela e a quilometragem política de Lula, resolve tomar um copo de cerveja quente, como foi essa conduta, pela qual o correspondente Larry Rohter deveria, no mínimo, agradecer publicamente, pois não só o tirou do anonimato como promoveu seu nome em manchetes mundo afora.
rpconnemercio@osite.com.brNemércio Nogueira é jornalista, autor de Media Training e outros livros sobre RP e presidente da R.P. Consult