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RELAÇÕES PÚBLICAS

10/02/2004 19:34

Perguntas incômodas

Nemércio Nogueira

O suborno de jornalistas virou ranking mundial. Recente pesquisa em 66 países mostrou a probabilidade de um jornalista de veículo impresso pedir ou aceitar dinheiro para publicar notícias de governos, empresas ou outras fontes. O suborno é mais provável na China, Arábia Saudita, Vietnã, Bangladesh e Paquistão. O Brasil ficou em 14º lugar, com 3,25 pontos, ao lado da Hungria.

Nas melhores colocações situaram-se Finlândia (1º lugar); Dinamarca, Nova Zelândia e Suíça (empatadas em 2º); e Noruega, Alemanha, Islândia e Reino Unido, todos em 4º lugar; Estados Unidos em 5º, ao lado de Canadá, Áustria, Holanda, Suécia e Bélgica.

Por ser impossível observar pessoalmente uma entrega de dinheiro a jornalistas, a pesquisa definiu uma série de ações consideradas prenúncios ou correlações, mas não necessariamente causadoras de suborno. A pesquisa - cuja íntegra, com descrição da metodologia, está no site www.instituteforpr.com/international. phtml?article_id=bribery_index - foi realizada pelos Departamentos de Estudos de Comunicação das Universidades Northern Iowa e Purdue dos EUA. E patrocinada pelo Hürriyet, o principal jornal da Turquia, por iniciativa da Campanha pela Transparência da Mídia da International Public Relations Association (IPRA) e pelo Institute for Public Relations dos Estados Unidos.

Além do interesse intrínseco de um primeiro ranking mundial de corrupção na imprensa, o estudo faz pensar em situações que não caracterizam suborno, mas que podem promover desencontro entre o desejo da opinião pública de ser jornalisticamente informada e os interesses dos agentes que fazem a imprensa. Reuni algumas indagações sobre questões fronteiriças, para cutucar um pouco as sinapses de quem se preocupa com tais coisas.

Por exemplo, se o jornalista não tem relação de emprego com o jornal, apenas presta serviço como freelancer ou terceirizado (ao jornal e a quem mais o contratar), que certeza pode ter o leitor de que o material publicado é isento de outros interesses?

Ou então, quando um jornal é parte de um grande conglomerado com outros negócios empresariais, até que ponto as notícias e comentários que publica poderão estar contaminados por objetivos de seu próprio grupo?

E a reportagem paga? Recentemente, a Folha de S.Paulo denunciou que o governo Jaime Lerner teria comprado reportagens elogiosas em 68 jornais, seis revistas e duas colunas do Paraná. A Folha revelou também que o governo Garotinho, no Rio, pagou por reportagens publicadas no Jornal do Brasil. E eu me lembro de que, anos atrás, uma grande revista brasileira daquele tempo tinha o item "reportagem" em sua tabela de preços.

Todos conhecemos também o caso de publicações que oferecem reportagens e entrevistas simpáticas como "bonificação" a quem nelas insere anúncios pagos.

Outro ponto a pensar é a imbricação entre os paparazzi, as instant celebrities que eles ajudam a criar e os veículos que publicam tais matérias. O interesse comercial comum que perpassa esses três agentes - para além da missão de informar - não configura um vício do processo?

Vício semelhante - uma mão lava a outra - não se percebe também no espaço jornalístico relativamente imenso dedicado pela imprensa brasileira à divulgação dos publicitários e das agências que compram espaço comercial nos veículos para seus clientes?

E o merchandising em novelas? Será ético embutir produtos específicos, com rótulo à vista e tudo, no contexto das histórias, sem que o espectador seja avisado de que aquele produto pagou para estar ali? Isso não é similar às reportagens pagas sem a menção "informe publicitário"?
E os suplementos e edições especiais, que atraem anunciantes dos produtos que constituem a pauta jornalística da publicação? Até onde isso é ético e a partir de onde passaria a ser, como se dizia em outros tempos, picaretagem?

Mais um caso: quem pode assegurar, além do próprio jornalista, em seu foro íntimo, a isenção de um profissional de imprensa que também é contratado para fazer palestras para executivos de empresas ou escrever textos para publicações empresariais?

Todos esses questionamentos podem parecer preciosismos, mas acho que merecem reflexão, especialmente quando se lembra de um episódio incrível como o de Jason Blair, aquele repórter que escrevia reportagens fictícias para o New York Times - e que, aliás, agora vai faturar, publicando um livro em que conta sua aventura.

Quando eu apresentava o telejornal da TV Cultura, nos anos 70, fui sondado para protagonizar comercial de televisão recomendando determinado dentifrício. Não aceitei porque não achava correto misturar a credibilidade jornalística com promoção comercial. Agi bem, ou terei apenas sido "antiquado" e perdido a chance de faturar algum extra?

PS: Por que será que o jornal Valor Econômico publicou a notícia da pesquisa mencionada no início deste artigo, cujo nome é Índice Internacional de Suborno para Cobertura Noticiosa (International Index of Bribery for News Coverage), com o título "Índice tenta medir resistência dos jornais à corrupção em 66 países"?

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