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ZONA LIVRE

01/08/2003 17:42

Meio cheio e meio vazio

Geraldo Leite

Quem diria que um tempo de sacrifícios pudesse durar tanto. Há três anos que o mercado patina. É a volta das imolações; só que agora negociais, pessoais e transferíveis. Ainda assim, como prova do talento e da dinâmica de nosso setor, surgiram nos primeiros seis meses deste ano boas idéias e iniciativas que merecem ser registradas e que valem por um ano.
 
Um tom acima. Apesar da crise de recursos, existe uma evolução do jornalismo na TV. A Globo, exemplar na cobertura das eleições, seguiu na linha dos "4 con":  + consistente, + conseqüente, + contributiva, portanto, + consolidada. O objetivo é de ser a + confiável, o que só o tempo dirá. A Record firma-se como o melhor jornalismo de opinião, não só pelo Bóris, mas também pelo Paulo Henrique Amorim. A Band continua correta e honesta e tem na BandNews um novo exemplo de dinamismo. A GloboNews também vem sendo um ótimo exemplo de formato "all news" e uma contínua fonte de treinamento dos profissionais para o futuro ingresso na TV aberta.
 
A qualidade dos números. Desde que o PT assumiu a Presidência, começou um debate no setor sobre o chamado "fair share" nas verbas de TV, uma vez que a Globo tem a metade da audiência e, estima-se, levaria três quartos do dinheiro total. Embora todo aumento de competição seja bem-vindo, a questão não é tão simples assim, até porque os diversos públicos (e o infantil é um ótimo exemplo) têm demandas diferentes do mercado anunciante. Ao mesmo tempo, as redes diferem na cobertura geográfica, na captação regional e no perfil (e imagem) de programação, o que também deveria ser considerado. Talvez essa reivindicação seja mais cabível quando se pretende atingir o total da população — não necessariamente quem mais consome —, o que seria característico de ações de governo, de caráter social ou educativo. A palavra final, como se vê, não é tão fácil, mas é importante que os critérios, principalmente os de recursos públicos, sejam mais discutidos e, cada vez mais, transparentes.
 
Iniciativa do bem. A Folha e O Globo decidiram lançar uma coleção de 30 livros de qualidade, com as edições de domingo. Além de incrementar um pouco as vendas em banca e por assinatura (talvez uns 10%), há uma vendagem excepcional de livros pelo canal de bancas e assinaturas. Depois de uma partida com uns 800 mil (!) livros gratuitos, estão trabalhando com aproximadamente uns 70 mil exemplares por semana e mesmo que caiam durante o período, poderemos estar falando de quase uns 3 milhões de livros no total (!), o que seria extraordinário. Será que dava para mantermos sempre assim o grau de competição entre os veículos?
 
Bons olhos pra fora. Os novos estudos Marplan, presentes no Mídia Dados do Grupo de Mídia (leitura obrigatória), provam, finalmente, a importância da publicidade ao ar livre. O outdoor se firma como o terceiro meio de maior exposição ao público com mais de 13 anos (após TV aberta e FM) e com forte presença na classe AB. Com exceção de São Paulo e Brasília, onde o outdoor lidera, o busdoor, em geral, compete de igual para igual. Empatados no terceiro lugar, dependendo da praça, vêm as placas de rua, abrigos de ônibus e os painéis eletrônicos.
 
Hora da verdade. Foram muito bons o debate e a iniciativa. Falo do recente Fórum da APP, em São Paulo, sobre o momento da mídia e das agências de publicidade — discutindo a questão dos chamados bureaus (e empresas/agências) de mídia. O debate, no fundo, era mais dos "Octávios": o Florisbal, da Globo, versus o Martins, da Carat, contando com mais alguns participantes para ampliar o assunto e aliviar os conflitos. Falou-se de BV, de negociações, de interesses conflitantes entre as múltis e o mercado local, sobre competição, sobre a postura do governo federal etc. Você pode concordar ou discordar das conclusões — que são variadas —, mas como é bom participar de um evento assim, de "porta aberta", com menos demagogia, em que os conflitos ficam mais naturais ou explícitos e menos disfarçados ou escondidos.
 
A coisa pública. Nunca se discutiu tanto a necessidade de sobrevivência das TVs "não comerciais". Por um lado, há uma efervescência de novos canais (TV Câmara, TV Senado, TV Justiça e, inclusive, a Radiobrás) que se dizem emissoras públicas e não mais estatais (ou "chapas-brancas"). Houve até um evento no Rio, coordenado pela TVE, sobre o tema: O Desafio da TV Pública. Discute-se, ainda, a criação de um canal de TV latino-americano e de um canal de TV para a exportação da imagem do Brasil. Por outro lado, foi o tempo da polêmica sobre a TV Cultura: problemas de receita, pressão do governo do Estado de São Paulo (que a sustenta) e reação de parte da opinião pública. É irreal supor que as TVs abertas comerciais tenham a capacidade (e o interesse) de zelar pela "qualidade total" de tudo o que vá para o ar, uma vez que os critérios preponderantes são o volume de audiência e a receita captada. Como somente 10% dos lares têm TV paga, para 90% da população, em certos horários, não há como escapar das "pegadinhas" sem-vergonha e dos degradantes policiais enrustidos. Nessa época em que se fala tanto de inclusão social, de desenvolvimento sustentável e da colaboração de todos para o crescimento do País, não seria o momento certo para contarmos com a força dos meios de comunicação públicos, notadamente TVs e rádios, mais fortes e independentes, para uma disseminação dos valores nobres da sociedade e para a construção de uma nova Nação soberana e solidária?

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