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MEU CONCEITO TEM CONSERTO ?

19/04/2004 18:49

Da cor do pecado: quando o conceito sofre de pre conceito de cor

Cláudio Corrêa de Almeida

"Este conceito moreno
cheiroso e gostoso
que você tem...
É um conceito delgado
Da cor do pecado
Que faz tanto bem..."

De repente você descobre que o conceito da maravilhosa campanha que vai ao ar, candidata a muitos leões, na hora do ‘the Oscar goes to’ sofre de preconceito de cor. Como é que fica sua cara? Preta de vergonha? Deveria.

- Mas foi testada à exaustão e não apareceu nada - diz o marketing planner.

- E que pesquisa! Investimos milhões! - diz o account executive.

E de repente mesmo sem pesquisa todos nós descobrimos que o racismo por essas terras de santa cruz acaba acontecendo em pequenos gestos e atitudes corriqueiras até, impensadas e muitas vezes inconscientes, e por isso mesmo tão difícil de reconhecer.
Ato falho. Deu na Globo.

Uma história infantil conta sobre um príncipe que se apaixona pela princesa do Palácio dos Macacos. A donzela é representada por uma atriz branca que tem o seu rosto todo pintado de preto. Como toda boa história da nobreza infantil, os dois, príncipe e princesa, se apaixonam e na hora do beijo que sela a união, ela não perde o sapatinho de cristal e nem a carruagem se transforma em abóbora. Usando toda a tecnologia global de ponta, a princesinha se transforma diante de mais um campeão de audiência, some a tinta preta e ela é agora uma princesa branca, branquinha.

Caia para trás!

Esta cena foi ao ar na maior rede de televisão da América Latina, em um dos maiores programas de audiência da minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá. Esta historinha corriqueira, ingênua, foi encenada pela rainha dos baixinhos, Xuxa, em seu programa No Mundo da Imaginação, transmitido pela Rede Globo.

Fala Polanski, fala!

É muito bom ver grandes personalidades, diretores, intelectuais, vanguardistas, artistas, enfim, que invadem nossa praia e percebem a nosotros. Polanski diz que gosta da gente porque somos um país de muita sensualidade e pela mistura de raças e religiões que está na origem da sociedade. "Sei que o Brasil tem muitos problemas, mas para alguém como eu, que sobreviveu ao horror da guerra e do nazismo, creio que o Brasil oferece um exemplo de diversidade e tolerância, e isso é muito bom !" Será? Pois tem até produtora que vende nossa mestiçagem lá fora dizendo que aqui se encontra de tudo, gente de todos os gostos, tons e maneiras. Vale lembrar que a tensão racial é amenizada pelo mito da mestiçagem.

Nossa propaganda é mestiça? Então, o nosso futuro é negro

Para Nizan Guanaes, leia-se Africa, "o negro é o futuro, tem de estar presente na propaganda, assim como está na vida cultural do País". Logo se vê que o grande lobo da estepe leu o censo de 90: o Brasil é um dos países com a maior concentração de população negra do mundo, são mais de 75 milhões de pessoas morenas e negras. Desses milhões, o universo feminino tem uma fatia de 30%.  Num mercado desse tamanho, produtos étnicos começaram a ser despejados para a pele morena e negra ou para cabelos difíceis de serem domados, daí Vasenol, sabonete Lux Skincare uniformidade da pele morena e negra, Seda Shampoo, Rexona Ebony Desodorantes. E não é que a mulher negra foi estudada a fundo! De acordo com estudos da Unilever, dito por ela mesma, a pele negra se diferencia pelo aspecto mais firme e aparência jovem, adiando os sinais da flacidez e do envelhecimento, mas apresenta maior tendência à transpiração, por absorver até 30% mais calor e por possuir glândulas sudoríparas mais abundantes e ativas.

Daniela Mercury seria excelente garota-propaganda cantando "A cor desta cidade sou eu" em plena Salvador, onde não se discute a maioria negra. Ao ser aceita pelos negros como "a cor da cidade", Daniela vive o mito de um só povo, de uma mistureba de cores que não permite diferenças raciais e que, quando está em cima de um trio elétrico, transpira horrores.

O preconceito vai de carro

Isto é meio que responsabilidade social. Imagine só por um momento se aquele comercial do Fiat Palio - em tempo, o Conar tirou do ar - cujo personagem central um homem, ao sair da cadeia, não resiste ao ver o carro e volta a roubar, fosse - "pra mar dos pecados" - Macunaíma, um herói sem caráter. O que passa a mensagem do Fiat Palio? Que ex-presidiário não tem jeito, tem vocação para a criminalidade ou não se pode confiar na recuperação de um fora-da-lei.

Se procurarmos nos anais da propaganda de cigarro não tem um negro soltando baforadas, pois a marca poderia não levar vantagem, não fazer jus ao sucesso, não seria para o homem que sabe o que quer, nem seriam baixos teores, de vendas.

E o medo de virar cigarro de preto!? Insinuando brincadeiras, nas reuniões, do gênero cigarro de preto é fumo de corda.

Tudo se encapa, tudo se filtra

Você não conhece nenhum fabricante de capas com ações da sua empresa sendo negociadas na bovespa da vida. Mas vemos por todo canto o País encapando tudo. Começou quando as donas-de-casa resolveram vestir o liquidificador com saia de sianinha (ops!) e tudo o que tinha direito. Até a DPZ fez anúncio de capa para a Walita. Depois foi o bujão de gás. Feio, enferrujado por baixo daquele xadrezinho recortado com flores vermelhas aplicadas. Daí para frente não parou mais, capa na máquina de lavar roupa. Capa no controle remoto da tevê. Capa no galão de água mineral. Capa no celular. Na falta de cobertura, capa no Fusca. Capa no sofá, capa de cadeira, capa no banco do carro. O porteiro filtra, só entra com crachá. E só depois de dar aquele sorrizinho besta na portaria. A secretária filtra as ligações, as correspondências, malas-diretas. Já temos filtros de imeils (como quer Caetano) e filtros de ar, máquinas para anular ruídos, fones de ouvido e por aí vai.

Sentado? Então segure firme, lá vai: o TIVO, um equipamento que possui um dispositivo para gravações digitais de até 140 horas de programas selecionados na tevê, e que permite que se ignorem os comerciais. Bina filtra as ligações, você atende os amigos que quiser. Filtra o excesso de informação na internet, o famoso clip jornalístico filtra. Até mesmo nosotros com o controle remoto filtramos a programação.

É a mente seletiva do ser humano, tá bom, tá bom, do consumidor, vá lá!

Nas palavras de Don Juan a seu aluno Castaneda, o sonhar é a liberdade de perceber mundos além da imaginação. A mente mercadora faz comércio. Mas a liberdade não pode ser um investimento. Liberdade é uma aventura sem fim, onde arriscamos nossas vidas e muito mais por alguns momentos e alguma coisa além dos mundos, além de pensamentos ou sentimentos.

Castaneda pergunta: o que desejo saber é qual pode ser a força capaz de impulsionar um vagabundo preguiçoso como eu na direção disso tudo?

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