Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comVamos começar pelo publicado. Primeiro os ratos. George Bush (o nome do chefe de Estado americano está logo em seguida a ratos por mera questão de estilo), presidente dos EUA, e outros 20 governantes da região da Ásia-Pacífico participarão de uma reunião econômica em Bangcoc, Tailândia. As autoridades locais, temendo qualquer tipo de terrorismo por envenenamento alimentar, testarão com ratos a comida antes de ela ser servida. "Teremos o resultado em um minuto. Se não houver problemas, os garçons começarão a servir", disse o chefe do cerimonial tailandês.
Agora a cerveja. Pelas novas regras, o Conar - Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária recomenda que não se usem "animais humanizados, bonecos ou animações, que possam despertar a curiosidade ou a atenção de menores", bem como "cenas, fotos, ilustrações e sons que apresentem a ingestão do produto (bebida)". E mais, qualquer pessoa que figure em anúncios do setor deverá ser e parecer maior de 25 anos. E para cervejas e vinhos também (per Baco!) o novo código recomenda que em peças publicitárias em tevês abertas ou por assinatura evite-se a exploração do erotismo. Tomou? Pois o Conar serve mais, enche o copo com a exclusão de cenas, fotos, ilustrações e sons que apresentem a ingestão do produto, além da determinação de que o planejamento de mídia programe as campanhas em veículos dirigidos a maiores de idade. Nos autidores (sic) da vida, as peças deverão suprimir a recomendação de consumo do produto, atendo-se à sua exibição, marca e slogan. Haja cobaia para testar isso.
Você é responsável por quem cativa, dizia a raposinha para o pequeno príncipe Exupéry
Parece que tartarugas, siris, caranguejos e peixes beijoqueiros das grandes marcas de cerveja não leram o Pequeno Príncipe. Raposinha porreta!
Tampouco os sapos americanos Bud & Weiser e o tal do Joe Camel, o Genuine Taste, que dava suas baforadas e tocava sax nos traços de gibi.
Os sapos americanos consagraram um estilo que foi sacramentado pelo sucesso. Chegou-se a criar e produzir um comercial também premiadíssimo, o Louie the Lizard. Dois lagartos conversam em cima de uma árvore enquanto os dois sapos, Bud & Weiser, ficam repetindo o pisca-pisca do luminoso da cerveja. Um lagarto diz ao outro na trilha original: "I can’t believe they went with the frogs. Our audition was flawless." No que o segundo lagarto acrescenta: "Louie, frogs sell beer!" E continua: "Ehh! That’s it man, the number one rule of marketing." Deveríamos acrescentar que nossos bichinhos, além de mais simpáticos, seguiram (oops!) as regras ditadas pela dupla Bud & Weiser e conseguiram vender muitas cervejas por aqui também. Eles globalizaram, nós bobalizamos, como diz Percival Caropreso, amigo e irmão. É a glória. Sobe música e encerra.
A tartaruga que não leu as maravilhas do país da Alice
Antes que a Rainha de Copas mande cortar a cabeça da bicharada, vamos seguir a conversa de Alice com Humpty Dumpty, imaginando-a com um copo vazio na mão, ao seu lado estão a tartaruga, os caranguejinhos e o peixe beijoqueiro; Humpty Dumpty com a garrafa de cerveja pronto para servir. Ela não vai beber, e Humpty Dumpty também não vai servir, pois o prazer do momento é maior que o prazer da cerveja oferecida. Eles estão criando. Trata-se de um ritual de despedida. Com certeza foi em volta de um cenário assim que Alice e Humpty Dumpty criaram Lewis Carroll para todos nós. Vamos então viajar nessa maionese de cerveja. O desejo básico que motiva as ações e define a comunicação desse cenário é a aceitação, o desejo de ser aceito, regido por Ossãe, aquela que encanta para ser aceita.
Alice diz a Humpty Dumpty - Não sei bem o que o senhor entende por "glória". Humpty Dumpty sorri com desdém - Claro que você não sabe, até eu lhe dizer. O que quero dizer é: "eis aí um argumento arrasador para você".
- Mas "glória" não significa "um argumento arrasador", objeta Alice.
- Quando uso uma palavra - diz Humpty Dumpty, irônico - ela significa exatamente aquilo que eu quero que signifique... nem mais nem menos.
- A questão - pondera Alice - é saber se o senhor pode fazer as palavras dizerem coisas diferentes.
- A questão - replica Humpty Dumpty - é saber quem é que manda. E só isso. Em seguida Humpty Dumpty diz que algumas palavras têm mau gênio, especialmente os verbos, que são muito orgulhosos. Os adjetivos, você pode fazer o que quiser com eles, mas não com os verbos... Até que pago bem. Quando faço uma palavra trabalhar tanto assim - explica Humpty Dumpty -, pago sempre extra. À noite elas me rodeiam para receber meus salários.
- O senhor parece ter muita habilidade para explicar o sentido das palavras - disse Alice.
- Posso explicar todos os conceitos que já foram inventados... e boa parte dos que ainda não foram inventados, não uso a linguagem para descrever a realidade. Linguagem cria realidade.
Alice vira-se para os outros participantes da mesa e diz: "Ainda bem que vocês entraram para a história, para a nossa história, saíram daquelas infantilidades e vieram para o lado certo do espelho."
Humpty Dumpty continua: "Um dos atos lingüísticos mais poderosos para criar realidade chama-se declaração - ação de declarar. Quando dita por alguém de direito como eu, Humpty Dumpty, cria uma nova realidade no momento em que é verbalizada. E como sou o diretor de criação dessa reunião declaro que tartarugas, sapos, siris, caranguejos, gatos, cachorro, papagaio e a bicharada que vier pela frente, a partir de agora, trabalharão em mangás."
Hora da declaração, Alice e Humpty Dumpty jogam para trás o copo e a garrafa de cerveja fazendo os pedidos: mangá! Experimenta, experimenta, experimenta!
aryavera@uol.com.brCláudio Corrêa de Almeida é redator freelance e professor de redação e criação publicitária