Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comNa minha infância se fumava com os olhos; explico, a turma toda colecionava maços e maços de cigarro. Algumas marcas eram muito difíceis. Por exemplo, a Souza Cruz tinha uma só para funcionários que trabalhavam na sua fábrica do Brás, chamada Particulares. Essa era carimbada, conseguir um só maço de Particulares, uh! Coisa de louco! Tinha de dar plantão lá pelos lados da Mooca, esperar o apito da fábrica e, na saída, convencer os funcionários a dar um maço vazio. E conseguir um maço de Kent, Pall Mall? Foi quando ouvi pela primeira vez meu pai — que não fumava, mas adorava detalhes — perguntar para um amigo: "Que marca Humphrey Bogart fumava em Casablanca? Luck Strike ou Chesterfield?".
Em Angel, de 1937, quando Marlene Dietrich puxava um sem filtro da sua cigarreira prateada, logo acendiam os isqueiros de Melvyn Douglas e Herbert Marshall. Atente para o comentário que Richard Lawton fez para esse momento, essa cena do cigarro de La Dietrich, em seu livro A World of Movies — vai em inglês mesmo para não sermos traídos pela tradução: "The cigarette — ubiquitous (onipresente pelo Webster’s) in every movie where the very soul of sophistication was sought. Surely future historians will look back on this bizarre habit without comprehension. Only when they see Dietrich on film will their eyes open in wonder, and the delectable pastime become fashionable once more". Lembranças que viraram fumaça.
Fumar merece uma Kaiser?
Nota publicada na imprensa dá notícia de que a Organização Mundial de Saúde (OMS) aprovou, por unanimidade, um tratado contra o fumo — primeira medida coordenada de saúde global contra o tabaco. Os 192 países congregados pela OMS assumiram o compromisso de limitar a propaganda e venda de cigarros. Etchaa!
O dito tratado passa a valer após ser ratificado pelos legislativos de pelo menos 40 países signatários. O documento foi criado após quatro anos de discussões. Para começo de conversa, ou melhor, entre uma baforada e outra, os países que possuem grandes indústrias de tabaco, como os EUA e Alemanha, se opunham à medida. Na primeira tragada, os EUA alegam que a proibição à propaganda e venda de cigarros viola o direito de liberdade de expressão. Apesar disso, os que subscrevem o tratado o festejaram como "uma vitória".
Minister reloaded
No nosso quadrante dos dezesseis desejos básicos que motivam nossas ações e definem nossa comunicação pelo mundo, cigarro faz parte do elemento ar. E já que as pessoas caminham pelo mundo em busca de quatro objetivos universais (sexo, dinheiro, amor e fama), o elemento ar do qual o cigarro faz parte se encaixa na fama.
Voltei a fazer cigarro na Thompson, Minister — Para o homem que sabe o que quer. Foi quando me encontrei novamente com a British American Tabacco, Souza Cruz, para nosotros. Havia uma coleção de ‘policy’ que para nós soava como proibido. Isso pode e não se explica porque pode. Isso não pode porque é ‘policy’. A gente tentava traduzir, corria nos Webster’s da vida e lá estava: ‘policy’ — linha política, plano de ação, orientação, método, normas, programa. A linha política de Minister não estava escrita em lugar nenhum, mas dentro da BAT/SC todos conheciam. Por exemplo, roteiro que apresentava uma cena com um casal fumando diante da lareira, depois de um cafezinho, nem pensar! Cigarro na mão e copo na outra, fora! Bater o maço para tirar um cigarro, uh! O criador podia arrumar seu portfolio. E na hora de tragar, aí é que era o maior bafo! Tragar soltando fumaça pelo nariz, pecado capital! E tragar e soltar a fumaça falando?! Pecado federal! E na hora de acender em cena. Fósforo ou isqueiro? Se isqueiro, que isqueiro? Pesquisa, pesquisa isqueiro. Marlboro podia acender no toco fumegante do caubói. Oops!
Uma vez resolvido tudo isso, tínhamos uma obrigação. Mostrar a linda fumaça azul saindo do cigarro, suavemente alcançando os ares, as estrelas, os sonhos. Dá para entender agora por que a marca Hollywood tinha como conceito "ao sucesso"?
Como faz parte do quadrante do ar, Hollywood está ligado à fama. E as imagens da marca mais fumada no Rio de Janeiro e no País, todas as idéias, as ações, as tomadas, as enquadrações, tudo rodado em externas, ao ar livre, sim senhor. Buggy, parapente, canoagem, windsurf no deserto, balonismo, esportes radicais, carro de Fórmula 1 na neve. Sempre conquistando, chegando, alcançando, tudo no gerúndio. E sempre cercado por lindas mulheres, também no gerúndio (como será uma linda mulher no gerúndio da Fórum?), que esperam a recompensa do sucesso, entre uma baforada e outra.
aryavera@uol.com.brCláudio Corrêa de Almeida é redator freelance e professor de redação e criação publicitária