Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comSem alarde, bem ao estilo mineiro, trabalhando em silêncio, o México, em uma década, ultrapassou o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, multiplicou por quatro o valor de suas exportações em relação às nossas (ele exporta US$ 200 bilhões por ano), enquanto nós mal conseguimos enviar para o exterior US$ 50 bilhões, e, recentemente, o país foi escolhido pelas consultorias internacionais, que avaliam o desempenho e os riscos dos países emergentes, como o de menor risco dentre eles. Em outras palavras, para americanos, europeus e asiáticos, nossos irmãos latino-americanos do norte lideram a classificação dos emergentes.
Na segunda e terceira colocações da lista, figuram a Coréia do Sul, em séria crise desde 1997, mas que se recuperou de forma rápida e vigorosa; e nosso vizinho de subcontinente, o Chile. Por sorte nossa, a Indonésia e a Argentina passam, como todos sabem, por graves crises política e econômica, respectivamente. Caso contrário, o Brasil perderia também para eles.
Essa brusca e rápida queda do Brasil na preferência dos investidores estrangeiros (até o fim do ano passado liderava, tranqüilamente, o ranking dos emergentes) é preocupante porque se dá justamente no momento em que aumenta a dependência externa das contas nacionais em razão de três fatores combinados: as altas do dólar e dos juros internos, com conseqüências desastrosas no custo do giro da dívida pública interna; e o racionamento de energia elétrica.
O leitor mais atento já deve ter notado que sempre que o Brasil ameaça pôr um pé no Primeiro Mundo, como ocorreu durante todo o ano 2000, com um desempenho que pode ser considerado brilhante, dentro das óbvias limitações da época (desequilíbrio crônico dos gastos públicos e efeitos da desvalorização cambial de 1999), acontece alguma coisa que nos manda de volta para o Terceiro Mundo.
Fatalidade, azar, acúmulo de erros de administrações anteriores ou, nas palavras de Nelson Rodrigues, a permanência atávica da baixa auto-estima, que ele brilhantemente batizou de complexo de vira-lata? Uma mistura de todas essas coisas, acrescida da política de apagar incêndios. O Brasil passou praticamente todo o século 20 fazendo isso. Assim que se identificava um problema, todas as energias do governo eram dirigidas para saná-lo. Enquanto isso, outros, em geral, menos urgentes, mas igualmente graves, ficavam de lado.
Foi exatamente isso que sucedeu com o atual governo, que concentrou toda a sua ação em uma só prioridade: diminuir o déficit público, o que fez, com sucesso, no período janeiro de 1999 até maio passado, quando ficou patente que a escassez de energia abortaria a pujança do crescimento do setor produtivo.
Mas voltemos ao México. Durante a década de 90, como qualquer país emergente, enfrentou diversas crises, a pior delas no início de 1995, quando os Estados Unidos tiveram de injetar US$ 30 bilhões em um só dia na economia local para evitar desastre maior. Esse socorro emergencial seguiu-se à ajuda financeira do FMI, dada algumas semanas antes, mas que se mostrou insuficiente.
No início da década anterior, mais exatamente em 1982, o governo mexicano enfrentou a sua pior crise e teve de decretar moratória, por não agüentar os reflexos da alta internacional dos juros, seguida ao segundo choque do petróleo, no período 1979-82. O episódio ficou conhecido na crônica financeira da época como “o setembro negro”.
Aos poucos, todavia, a economia mexicana refez-se, aderiu ao Nafta (Mercado Comum da América do Norte) e, mais recentemente, promoveu as primeiras eleições presidenciais livres, após mais de 70 anos de domínio absoluto do PRI, elegendo o atual presidente, Vicente Fox. De 1995 até hoje, as exportações deram um salto espetacular graças ao intercâmbio mais fácil com Estados Unidos e Canadá e a um acordo preferencial, assinado com a União Européia, em 1999, ainda sob a administração Zedillo.
Mas, afinal, o que o México tem que nós não temos? Uma coisa só: um governo que age com o setor produtivo da economia. Lá, quando, por alguma circunstância, governantes e empresários divergem, os primeiros têm o bom senso de não atrapalhar a ação empresarial. Aqui, ao contrário, nossos administradores públicos obrigam as empresas a fazer três ou quatro orçamentos em um só ano.
Se não houver mudanças culturais na administração pública brasileira, estaremos condenados a ser o eterno país do futuro.
presidencia@advbfbm.org.brMiguel Ignatios é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB)