Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comTodos os anos vamos a Cannes para provar a nós mesmos que o Brasil também faz propaganda de Primeiro Mundo (êta expressãozinha velha!). O.k., não é tanto assim. Vamos para outras coisas também: para nos integrar, informar, globalizar, comparar, dar uma arejada, sei lá o quê.
O fato é que, independentemente dos motivos que nos levam à Côte D’Azur, sempre acabamos entrando numa moldura diferente da nossa, onde o referencial é anglo-saxão, a língua é o inglês e ninguém dá a mínima para nossos valores culturais.
Considerando que, sem levar em conta os valores culturais, fica muito difícil avaliar comunicação, a dedução óbvia é que Cannes julga o que é bom para Cannes. No máximo, o que é bom para Estados Unidos e Inglaterra, com algumas raras exceções para outros afortunados países da Europa, mas nunca o que é bom para países de um certo modo periféricos como o Brasil.
Queiramos ou não, apesar de todos os nossos Leões, continuamos sendo intrusos, pitorescos e muitas vezes incômodos na festa brego-pomposa da Croisette. E enquanto desfrutamos aquela brisa de glamour, nosso mercado continua a mil, cheio de problemas (que alguns gringos jamais entenderiam), com as respectivas soluções (que alguns gringos entenderiam muito menos ainda).
Que ninguém interprete o que estou dizendo como uma negação a Cannes ou a qualquer outro festival internacional. Nada mais eloqüente para demonstrar o quanto considero valioso o Festival de Cannes do que minha constante participação, como delegado, jurado e inscrevedor de peças. O que estou manifestando é a necessidade de valorizarmos e prestigiarmos mais as amostragens brasileiras do trabalho de comunicação. É aqui que vivemos, é aqui que criamos, produzimos, sofremos, ganhamos e perdemos. É aqui que acontece tudo que diretamente nos diz respeito. Portanto, é aqui que devemos focar nossa atenção, discutindo, selecionando e documentando o que há de mais representativo para nós e nossos clientes.
Muito bem. Já que estamos geograficamente de acordo (espero que sim), basta dar uma olhada em volta para perceber que não temos tantos eventos assim que possam ser definidos como de abrangência nacional e acima do nível médio de confiabilidade. É aí que entra em cena, com muitos anos de bons serviços prestados, o Festival do Rio, promovido pela ABP. Nesse festival, como em Cannes, o júri é formado por alguns dos mais respeitados profissionais de criação vindos das mais importantes regiões participantes. Como em Cannes, são avaliadas peças produzidas para os diferentes tipos de mídia, incluindo o rádio, que não tem vez no Palais. Como em Cannes, há delegados, participação popular, palestras. Com muito menos charme, é claro, mas com a diferença fundamental de ser tudo em nossa língua, tratando da nossa realidade.
Aliás, nos últimos anos, nosso Festival da ABP vem dando seus primeiros passos a caminho da internacionalidade. Muita pretensão? Não sei. Só sei que ser um festival brasileiro abrangente e sério é mais do que suficiente para justificar o apoio maciço do mercado. Se não pelo registro histórico de nossa atividade, ao menos pela consolidação interna daquela força criativa que lutamos tanto para demonstrar lá fora.
Adilson Xavier é sócio-diretor de criação da Giovanni FCB e associado da ABP – Associação Brasileira de Propaganda