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Gravitação

07/07/2012 00:00

TODO SOL TEM DIREITO A UM LUGAR AO MUNDO

Gisele Centenaro

– Ô da Caveira, tu tens some minutes?

– Oi, oi, oi… Vens pra quebrar minha caveira de tanto me matares a saudade, quer dizer, morto, como tu bem sabes, depois de ressuscitado, não tem como morrer mais, menos ainda tem como morrer a saudade que ele sente por uma pombinha ligeira e ingrata. Até que enfim voltastes, pelo que vejo, a precisar de mim… Aliás, cá entre nós, duas vezes num só dia, hein!

– Se tu começares, outra vez, com pilhéria, mau bocado, perseguição metafórica, lição metafísica fora de hora, descompostura em público, moral filosófica dos séculos passados somente além túmulo, juro, voltamos a conversar no silêncio do meu paupérrimo terráqueo condicionamento. C’est fini.

– Docinho sem açúcar, queres falar do coco, que eu sei… Pois era linha com isca pra tu não dormires tanto tempo sem acordar pra mim hora nenhuma. Pois, pois, minha Linda, tu pedes esforço, mas tu te esqueces que a dose da tua condicional também tem de ser cumprida por igual ao laço da tua medida nesse passeio ultradimensional. Oi, oi, oi… vem pra quebrar com tudo, desde que sejam apenas os velhos e inúteis paradigmas que não dão mais acolhida nem sustento ao pensamento do ir e vir do ser em seu desejo pela perpetuação.

– Desde quando?

– Que o homem deseja ser imortal?

– Atina pro tom, Defu. Quem quer saber na real? Estou zoando. Desde quando tem sentido essa história do povo querer ser imortal? Tudo paranoia de meia dúzia de cézares, pilatos, bem financiados em contratos… A maioria no mundo é pobre. A maioria, te digo, deve estar doidinha pra saltar fora, sonhando com um stop pra sentinela, tipo boa noite cinderela. Ficar acordado no mundo de hoje pra quê?

– Oi, oi, oi… Pra me ver? Tu não queres me ver?

– Defu, se liga! Tu lá tem sacolejo, gingado, babado, intriga, fuxico, tico-tico, coxa grossa, seios fartos, lábios molhados, músculos delineados, sexy appel, amor traído, amor gostoso, amor guloso como na avenida Brasil do Seu Carneiro?

– Do meu Carneiro? Qual deles? Já é Carnaval de novo aí? Não pode ser… Não tem a mínima possibilidade de eu não ter visto o Natal passar. Flor, tô te entendendo não… Tá todo mundo com sono aí na tua dimention?

– Ai, meu Cristo. Defu, deixa pra lá… Não era disso que eu queria falar. Tu podias, na real – ou se preferires, na ficcional mesmo, ou em algo que a valha nessa tua dimention paralela, que talvez também possamos chamar de “na almal”, podendo derivar num almalismo, com todo respeito, hein, Defu – mas, continuando, tu podias dizer porque chamastes, ao anunciar o tal “Job Bombão”, de iMor, em vez de falar o nome correto, que é iBrain? Agora quero eu ver como tu vais explicar isto em público… Agora eu quero ver. Tu ficas reclamando da minha infinita impaciência pra este nosso lero-lero, certo? Pois bem. Agora eu quero que tu me digas como foi que o iMor virou iBrain ou vice-versa. E mais: tu já tinhas um chip desses? Eu tenho um chip desses? Tu estavas brincando?

– Hahahahahahaha…… Minha rainha, os mortos também amam. Também se enganam. Todo mundo se engana, lembra, já te falei isso, Confusãozinha! Vale a pena não ficar esquentando o cérebro, com ou sem fios nele, com ou sem chip nele, com toda essa problemática científica. Deixe que eles brinquem. Que tu querias? Que eles também tivessem sono, o tempo todo, como tu pensas que todo mundo tem? Eles têm de estar entretidos com os jobs que lhes são de gosto, que movimentem pés, cabeças, braços, rostos… Têm de ser. Brain and more, more, more… But in fact we don’t need that. And you know. Think about. It’s only that. How to do only this it’s the big problem, and in fact I know this. If you look at and look again you might agree with me. Everything is very important in every life. This is the reason. This is the solution. This is why I am a solution. I am your solution. I'm not a chip. I am not a brain. I'm not dead. I'm not alive. But I'm all this against the whole thing. I am the solution. Either equation. In any problem. I am the answer. The denial of the void. The movement in all directions as opposed to your paralysis.

– Face to face, Defu. Tu não me enganas.

– Todo Mundo se engana. Tu queres um pedacinho da partícula de Deus para ter a prova de que eu não engano, nunca, embora todo mundo se engane?

– Tu queres me ofertar um mimo que eu adoraria aceitar, mas, antes, tenho, por necessidade, que te fazer uma pergunta, um tanto delicado, bem o sei, entretanto, são imperativos femininos que…

– Conversa, Flor… Golpe teu. Lá vem travessura. E nem te pagam por elas, os “sonolentos”. Travessuras de mimada. Tu te aconchegas, me dás trela, vou me abrindo contigo, crente que te conquisto e, quando vejo, tu me arrancastes mais verdades sem me dar nem uma gota a mais do teu amor por elas… O que tu queres agora que já não tenhas?

– Saber se engordo, e quanto, ao aceitar um pedacinho da tua partícula de Deus…

– Hahahahahahaha……. Vai perguntar pros caras que batizaram o iMor de iBrain, Flor.

– Pô, Defu. E se a coisa não funcionar. O sujeito ainda vai levar anos fazendo contas. Vai que esse chip…
– … explode na cabeça de alguém?

– Hahahahahaha……. Não sendo na minha, né Defu?!

– É uma desalmada, mesmo. Seguinte: sabe o terço que tu te destes que eu te dei?

– Sei. E daí? Quer dizer, e daqui?

– Vai contando, e rezando. Tu contas as contas e rezas pensando nas partículas de Deus que podem, poderiam ou poderão estar passando entre teus dedos. Vai que entre uma oração e outra tu sentes o peso – ou a leveza, portanto, a perda dele – entre os próprios dedos das tuas mãos…

– Defu, teus some minutes não me serviram pra nada. Tu, em verdade, em ficção, em almação, não me respondestes nada do que eu perguntei…

– Não, Lindinha? Teu mau é sono. Teu Bem sou Eu. Quem sabe o Sol te ajude a enxergar melhor minhas respostas... 


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