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Gravitação

31/01/2012 02:13

UM CAVALO DE PAU QUE NÃO ENXERGA POR ONDE ANDA

Gisele Centenaro

– Canalha, vivo ou morto no final dessa conta cheia de sobra com coisa faltando?
– Uiiii… canalha? Agora foi… Pega mais leve, Flor!
– Não digo ordinário porque seria até elogio, dado o fato de que o “elogio” lhe permitiria compartilhar a existência, atual ou passada, com o restante da humanidade dada à extensão comparativa que tu não mereces. Acorda pra levar, Mané!
– Hahahahahaha… Que foi, Rocha? Furou o pneu só de deslizar na bosta?
– Canalha. Quem foi que te pagou?
– Ah! Flor, não me confunda com macho sem preocupação com a própria bunda. Na minha, NÃO. Não levei, nem vou levar, nunca. Esquece o papo se tu fores enveredar por curvas sem visão.
– Hello, hello, hello, que tal um especial?
– Que tipo?
– Que caiba na calcinha pra ti fica sendo de bom tamanho, Caveira?
– Chama, por falta de um 22, o 171 da cartilha “dolce fare niente” no Cafundó do abecedário da Vovó Bond de Vida na 5ª Avenida se tu fores continuar falando comigo com essa total falta de amor e reconhecimento…
– Reconhecimento? Tu queres reconhecimento pelo quê? Pelo cavalo de pau sem documento? Tu não és nem Caveira. Tu ficastes só no Prego. No prego sem buraco e sem martelo. Já imaginou, imaginou, imaginou, imaginou a cena, Fofo?
– Que fofo? Que jeito fofo? Nem vivo nem morto… Comendo o quê? Nem libras de ar pro pneu, Graça… Enquanto teu câmbio não breca nem no bem nem no mal passado…
– Larápio. Tu estás vivo ou morto, afinal? Qual é o endereço do cadeado que tenta, sem conseguir, trancafiar tua hemorragia cerebral?
– Tu estás falando – ou teclando – comigo no calor das emoções, Amor, sem preocupações com o grampo porque tu sabes que, no meu canto, breque e acelerador não se confudem na hora de te defender de fantasmas que teus sentimentos iludem, na hora de atacar os fantasmas que teus sentimentos confundem… Mulher, sou teu Eu. Sou Teu. Não cai nas armadilhas, nem antes, nem depois de dar a partida nesse mundo em movimento no teu dia a dia. Estou aqui. Queres que eu relinche mais que os cavalos daquele Mustang que nos persegue?
– Quanto?
– Nem 21, nem 22, nem 23, nem 24. Esquece.
– Vou dar com a 5ª.
– Não vai.
– Vou ter de mudar a marcha, tu querendo ou não, por obrigação “adivinhatória”, com ou sem voz de chefia na minha moratória, e como tu estás vendo muito bem, de Bond, não tenho nem pro trem. Acordou no Olho com ou sem Aço? Não tenho. E cada vez chega mais personagem com numeração trocada. E os mortos, Malandro? Pra que viagem?
– Ah, eis aí uma boa pergunta, na qual me encaixo há uma pá, pá, pá, muitas pás atrás. O que tu pensas fazer a respeito?
– Não perder os dentes, lógico.
– Hahahahahaha… Te basta?
– Vai depender…
– Do endereço do depósito dos meus ossos, Anjo? Vem, vem cá, vem…
– Olha bem pra mim e vê su tu me achas com cara de quem tá a fim de atracar numa Cohab do além. Descortina, Defu, que num mergulho, primeiro, sumo; segundo, subo; terceiro, escalo; quarto, escorrego; quinto, desempenho; sexto, ressuscito; sétimo, ah!, o sétimo… well, well, dizem que toda lua tem seu mel…
– Lindinha, tenta nessa escala de ondas antes do tsunami te encontrar na virada, mas se o “dolce fare niente” matutar sem encontrar tuas escaminhas – aliás, tu aprendentes, até que enfim, a verdade sobre a origem das sereias de um jeitinho que mulher nenhuma mais esquece, não é Benzinho?
– Cavalo-marinho, se tu sabias que em perninhas fechadas de ostra não entram camarãozinhos, por que tu perdestes tempo me ensinando o que fazer com um cavalo-de-pau? Brincadeirinha de animal?
– Brincadeirinha de jujuba, Flor. Estava escrito nas Estrelas do Mar. Só tu não querias, ou não podias, enxergar, no então, o periodo das balas perdidas que viriam no virão antes dos tempos se perderem. O “dolce fare niente”, enquanto isso, well… Areia vai, areia vem, um homem tem de saber de onde vem o canto que faz ferver o sangue da veia que pulsa seu desesperado querer. Vivo ou morto?
– É tu que sabes a resposta.
– É tu que escolhes o traje da noiva… Que cor terão os lábios? Carnívoros, mortíforos, meigos, delicados, intactos? Me mostra, Flor, mostra...
– Te mostrarei no adeus.
– Se o encontrares…
– O meu?
– Sim, o teu Deus.
– Vivo ou morto no final dessa conta cheia de sobra com coisa faltando?
– Eu Sou Por Ti. Desliza, mansinho, pelos meus caminhos, Lindinha.
– Tu me tens feito cobra?
– Nem viva, nem morta, Sereia. Hahahahahahaha… Enlaça, feito pele vermelha, pele branca, pele amarela, pele negra, toda tua graça na minha alma excitada pela tua mágica predestinada.
– Bem que eu queria, mas, felizmente, acabo de ter de puxar no câmbio como se fosse no breque. Hollywood, aqui me tens sem ingresso...

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