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Gravitação

08/08/2008 17:08

Bebe quem pode, quem não pode bebe também

Gisele Centenaro

– Cachaça, vem cá!
– Que foi?
– Ôce viu onde foi parar a Pinga?
– Vi.
– Poxa! Cê já sabia e nem me disse nada...
– Ahhh! Xarope, ela foi pra lá na semana passada. Todo mundo já sabe.
– Nossa, cara! Pois só agora eu reparei no buraco vazio da prateleira.
– Xarope, é isso aí, né, mané? Demora pra sacar as coisas. Não enxerga um palmo na frente do nariz. Aí vem a milícia e diz que é a Cachaça que derruba o homem. Saca só: só sobrou caipirinha de vodka. Hahahahahaha...
– Que xaropada, hein! Cá entre nós, eu nunca fui com a cara dessa vodka aí. Metida, cara! Fosse pra pegar, eu ficava com a champagne mesmo.
– Ai, meu Diabo! Não é “a” champagne. É “o” champagne. Quer dizer, vem da França, sabe como é... Uns dizem “a”, outros dizem “o”. Por isso, eu fico na minha. Mas vê se se enxerga, Xarope. Até parece que “o” ou “a” champagne vai te dar bolinha...
– Cachaça, eu ando meio zonzo, mas, olha, álcool puro na cabeça detona os miolos, viu? Tá loucona, cara? É “a” champagne, pô, tô ligado. Olha pras curvinhas do pescoço dela...
– Ai, Xarope, cala a boca, vai, que eu tô com sono. Essa chuvinha lá fora me derruba... Tô caindo pra dormir.
– Pois eu tô levantando pra acordar. Vai rolar a festa daqui a pouco, cara. Estica o gargalo aí pra verter líquido.
– Festa, festa, festa... Vai dar em nada por causa da Lei Seca.
– Xiiiii... Desiludiu? Decepcionou? Desistiu? Findi, mana. O povo se ajeita.
– Se ajeita pra deitar em casa mesmo. Aí, pêra aí: qual é a tua, mano? Pra que serve festa pra Xarope de prateleira, hein?
– Serve pra eu chacoalhar meu xar... me. Sacou? Qualquer dia, de tanto chacoalhar por aqui, eu viro um x... o... pe.
– Hahahahaha... Mané, não existe xope com x. É chope, no jeito afrancesado que brasileiro gosta. E vem de schoppenbier, na seriedade dos alemães levantarem a caneca. Tu és Xarope, mesmo... Não sabe nada.
– Pô, Cachaça. Não precisava ofender, nem ficar botando banca, assim, pra cima de moi. Hoje não existe xope com “x”, tô sabendo, mas com a Lei Seca na cola dos bebuns, capaz da troca das letras acabar num samba que combine com meu “xacoalho”.
– Tá, tá. Agora, mete a tampa de volta no gargalo, Xaropito, que eu tô a fim de uma solitária.
– Espera aí, espera aí... Olha lá quem chegou: o Poetinha do Cemitério.
– Xiiii... Lá vou eu...
– Ah, vai mesmo. Ele não escreve mais nada sem uma cachacinha do lado. Lembra dos últimos versos?

Teve um dia que, pensando que você voltaria, fui até a esquina.
Lá fiquei. Fiquei olhando para as mixarias dos meus dias.
Você voltaria, eu estaria na esquina. Mais uma vez eu ficaria...
Ao redor, a mixaria. E eu, só, olhando, comecei a chorar por ser tão só.
Mas fiquei. Na esquina. Lembrando das nossas mixarias.
E teve outros dias que, sabendo estar só na esquina, comecei a rir.
Rir da esquina. Rir de você. Rir de mim. Rir das nossas mixarias.
(Meu amor, vida que é vida não vale mais que qualquer ninharia.)
Mas vou ficar por aqui, talvez ali, na esquina, esperando, não a ti.
Vou ficar por aqui, por ali, sem ti, rindo das esquinas em que ti perdi.

– Não, não lembro. Meu nome é Cachaça, esqueceu?

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