Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comA iniciativa na favela de Paraisópolis, que inaugurou em abril uma sala de cinema, pode ser a primeira de uma série se ali morar alguém como José Luiz Zagati. Marcado na infância pela impressão de uma imagem projetada no cinema, Zagati conseguiu repetir a experiência na vida adulta, ao passar sua emoção infantil à outras crianças tão pobres quanto ele. Em suas andanças pelos entulhos, o catador de lixo conseguiu cadeiras velhas, pedaços de panos e outras quinquilharias e com o tempo, foi montando uma pequena sala de projeção na garagem de sua casa.
Aos 5 anos, Zagati entrou, pela primeira vez, em um cinema de Guariba (SP). "Fiquei encantado com aquela magia. Quando a sessão terminou, descobri que queria ter um cinema", relembra, completando que nunca esquecera aquele momento, tampouco o barulho da máquina de projeção. Quando criança encontrou um rolo de filme e, com sua criatividade, fez um projetor com caixa de papelão, lente de óculos e farolete. Outro passatempo era fazer um cinema de gibis, colando um quadrinho ao lado do outro para criar seu próprio filme. De Guariba, a família mudou-se para Taboão da Serra, onde havia o Cine Tupy, local que Zagati passou a freqüentar aos finais de semana. A paixão foi aumentando e a idéia de montar seu próprio cinema cresceu.
A sessão inaugural foi realizada em agosto de 1998. "Quando vi crianças e adultos assistindo ao filme, fiquei emocionado e feliz", relembra com lágrimas nos olhos. O filme exibido, Cruéis dominadores, foi cedido por Arquimedes Lombardi, da Associação Brasileira de Colecionadores de Filmes de 16mm. Estava inaugurado o Mini Cine Tupy que hoje tem mais de 30 obras no acervo. Em um cômodo pequeno, a platéia, de até 60 pessoas, distribui-se nas poltronas encontradas em um lixão, bancos de madeira ou mesmo de pé. A improvisação predomina na sala de cinema: do projetor de películas, adquirido numa loja de equipamentos usados, à tela feita de lona.
A história do seu idealismo ficou famosa, virou tema de documentários e Zagati recebeu o troféu Kikito, considerado o Oscar do cinema nacional. O homem, pai de nove filhos, morador de um dos locais mais carentes de São Paulo, que alimentou o desejo de disseminar a sétima arte entre os mais pobres, diz estar realizado: “Consegui tornar real um sonho de menino. É gratificante exibir filmes para os que nunca tiveram a oportunidade de ir ao cinema".
Como Samuel Johnson dizia: “as grandes obras são executadas, não pela força, mas pela perseverança”... E o que se entende por perseverança? “O ato do ser humano utilizar meios para alcançar um determinado objetivo, de forma realista e dentro de suas possibilidades”, esclarece a psicoterapeuta Sandra Rosa. Porém, na busca pela realização de um sonho, muitos ficam no meio do caminho por não saberem se são perseverantes ou teimosos. Para a psicoterapeuta, a diferença está em analisar se o sonho é realizável, adaptando-o às “ferramentas” que possui. “O objetivo deve ser pautado em dados reais, pois se você adapta o sonho às suas possibilidades, ele torna-se realizável e a perseverança ocorre naturalmente. Caso contrário, a teimosia serve como um dos primeiros obstáculos. Essa não diferenciação por si só já derruba muitas pessoas. Outro obstáculo é a desmotivação”.
Sandra Rosa destaca ainda que trabalhar a auto-estima é fundamental, mas alerta: “Seja razoável e realista quando fixar seus objetivos. Não queime etapas, pois, o imediatismo cega o ser humano e ele perde a noção do perigo”. Foi isso que Zagati fez.
PerseverançaEm suas andanças pelos entulhos, José Luiz Zagati conseguiu cadeiras velhas, pedaços de panos e outras quinquilharias e montou uma sala de projeção na garagem de casa. O homem, pai de nove filhos, morador de um dos locais mais carentes de São Paulo, que alimentou o desejo de disseminar a sétima arte entre os mais pobres, diz estar realizado: “Consegui tornar real um sonho de menino. É gratificante exibir filmes para os que nunca tiveram a oportunidade de ir ao cinema".