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Gravitação

13/06/2008 02:20

Tem coisa que é do arco-dos-velhos

Gisele Centenaro

– Tem coisa que é fatal.
– Que obviedade!
Fatale! Estou falando sério.
– E por que não estaria?
– Porque, normalmente, não gosto de falar sério, principalmente quando sei que o mundo está me ouvindo.
– Hahahahhaha.!!! Agora você foi fatal ao exagerar na pretensão. Por que o mundo estaria de ouvidos no teu palavreado fútil?
– Do you really want to know?
– Of course, my darling.
– Voillà! Alor, écoute à moi avec beaucoup d’attention.
– Bien sur. Comme toujours. Mais, pourquoi nous parlons en français?
– Je sais pas.
– Ceci est une chose fatale?
– Mais, non. I love the French language. Is only that.
– Alors, nous pouvons retourner au Portugais?
– Era fatal que você me pedisse isso. Mas não me importo.
– Que bom! Pensei que teríamos de sobrevoar New York e, em seguida, Paris, para que você me explicasse a filosofia do “tem coisa que é fatal”.
– São fenômenos explicáveis e inexplicáveis, mas fatais.
– De que fenômenos tu parle?
– Pense bem. Mas pense bem mesmo. Assim como eles tentam fazer de vez em quando.
– Estou pensando. Ou melhor, estou tentando, como eles.
– Você já viu um rabo balançar os tais cachorros?
– Claro que não. E daí? Que tem demais nesse tipo de fatalidade ergométrica?
– Tá vendo só? Eu não lhe recomendei que pensasse bem? Bem mesmo? Assim fica difícil falar com você em qualquer língua...
– Você preferia que eu dissesse que já vi um rabo andando por aí com um cachorro pendurado atrás, só para te contentar?
– Não. Queria que você pensasse no fato dos tais rabos não terem cachorros que os balançassem.
– Como assim? É possível os cachorros irem e os rabos ficarem, sem quem os balance, assim, num eterno ostracismo?
– Tem coisa que é fatal.
– Hei, agora você está me deixando intrigado, cherie. Se os cachorros se forem e os rabos ficarem, além de não terem quem os balance, onde ficarão eles pendurados? Há uma nova espécie se constituindo no planeta Terra? Os rabos são o princípio de tudo? Mas o que virá depois do rabo? Uma nova espécie de cachorro? Santo Deus! Talvez uma nova espécie de homens! Sim... Vejo-os agora. Homens cujas vidas começam com um pequeno impulso que qualquer rabo pode propiciar. Por que teriam rabos os homens dessa nova era? Eles já estão sendo vistos pelos Estados Unidos? Já estão se reproduzindo na França? Céus, que tipos de rabo terá esse Novo Homem? Serão deles as plumas caudais que hoje ostentam os pavões? Ou serão eles torcidos e peludos como os rabos dos... Valha-me, Olho de Ísis! Meterão os rabos entre as pernas os Homens da Nova Era? Saberão segurar num rabo de foguete? Terão eles seus rabos livres ou presos? Ao caminhar pelo Central Park ou pelo Jardin du Luxembourg, os Homens de Rabos, sejam eles compridos ou curtos, serão felizes com o aspecto que a Natureza está, neste momento, lhes doando em razão do processo de Renovação que se impõe aos Mundos Externos? OS RABOS ESTÃO CHEGANDO. Pensando bem, já não era sem tempo. Afinal, os rabos são esperados há muito por todos aqueles que queriam ter algo para balançar, porém, nunca puderam satisfazer latente – embora não imperativo – desejo. Aliás, por falar em existência não imperativa, se não eram imperativos os desejos, muito menos os rabos, o que há, portanto, de fatal neles? Por que seriam fatais os rabos para a Humanidade? Por que seriam fatais os rabos para o Novo Homem? Por que seriam fatais os rabos para os Homens da Nova Era? Creio que agora chegamos a um ponto crucial deste nosso diálogo filosófico. Conseqüentemente, quero respostas, coerentes com meu bem pensar.
– Tem coisa que é fatal, não te disse? Tem coisa mais fatal neste Velho Mundo do que as elucubrações que você é capaz de fazer, my darling, toda vez que lhe lanço um desafio relativo ao Ser Humano? Quantas vezes já não lhe disse que não terás essas respostas enquanto não te resignares a ser, de fato, Humano? E quantas vezes já não lhe disse que, no nosso caso, é fatal a permanência? Façamos, então, o seguinte: deixemos de lado os rabos para, por ora, nos concentrarmos nos tais cachorros...
– Cherie, mais intrigado, eu, impossível. Agora, os tais cachorros andam por aí sendo balançados por rabos? Como foi que isso se deu? Os tais cachorros perderam completamente o controle sobre suas próprias vidas? Jesus! Se algo semelhante estiver acontecendo aos Homens, quem ou o quê estará, neste momento, balançando a todos eles?
– Eu não disse que tem coisa que é fatal... Existe coisa mais fatal do que o Velho Mundo se pôr de ouvidos em palavreados fúteis que acabam levando todos às fatalidades das filosofias existenciais?

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