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ZONA LIVRE

04/10/2005 12:55

Ainda dá tempo de aprender

Fábio Barreto

Fui a uma reunião de pais na escola das minhas filhas e fiquei orgulhoso, feliz por elas. Percebi que toda aquela turma de criaturinhas adoráveis, velozes e inquietas tem tudo para viver melhor e fazer bonito ali na frente, num futuro próximo. Talvez seja uma utopia, uma fantasia de pai babão, mas senti um sopro de esperança no ar com aquela galerinha. E tudo porque descobri que a nova filosofia que vem sendo empregada na educação e formação das crianças consiste em quatro pilares básicos: conhecer, conviver, ser, fazer. Pilares que provavelmente não foram bem empregados em épocas remotas e até mesmo num passado bem recente. E isso é facilmente percebível pela forma que pensamos e que nos comportamos em diversos momentos e situações do dia-a-dia. 
 
Conhecer significa a vontade intermitente de aprender e, acima de tudo, de estar aberto a aprender. É a humildade de saber que precisamos aprender constantemente e que existe sempre alguém que sabe mais do que nós. Criança entende isso logo, com facilidade, e faz muito bom uso da curiosidade, da avassaladora onda de "por quês", "ondes", "comos" e "quandos". A gente é que costuma esquecer nosso natural não saber e abandonar a busca pela resposta. Dá menos trabalho.
 
Conviver aponta a necessidade de entender as diferenças. Físicas, filosóficas, religiosas, profissionais. Quantas vezes conviver com idéias opostas nos parece tão difícil? Quantas vezes nos vemos mergulhados em ódio profundo por discordar do outro? Saber conviver é, antes de mais nada, saber viver. Evitar o conflito gratuito, pela simples discordância. Porque, essencialmente, somos diferentes, somos únicos. Lógico que a proposta não é conviver em harmonia com a falta de educação, a falta de respeito ou a falta de ética. Mas precisamos desse discernimento para escolher aquelas diferenças que julgamos aceitáveis e repudiar as inaceitáveis.
 
Ser é a nossa essência. Nada mais é do que olhar para dentro, muito além do umbigo raso. É, de fato, nos autoconhecermos. Entender nossas virtudes, nossas inquietações, nossos medos e nosso modus operandi, carregado de manias e vícios. Um exercício às vezes difícil para as crianças e, notadamente, quase impossível para os adultos. Colocar o dedo nas nossas próprias feridas é um costume muito pouco difundido. Por uma simples razão: dói. Mas se a gente não investiga, não cutuca, não presta atenção na ferida, também não cura.
 
Fazer. Bom, aí entra em pauta colocar em prática tudo o que foi visto, pensado, analisado e idealizado anteriormente. Fazer é a difícil tarefa de tornar concreto o que no discurso parecia fácil. Fazer é o que nos diferencia dos retóricos chatos, cheios de razão, que muito falam e pouco fazem. Os que comentam, mas não jogam. Os que criticam, mas não atuam. Os que narram, mas não vivem. Não se iluda: conteúdo sem prática é nada. Vontade sem ação é coisa nenhuma. Temos de aprender logo que a boa idéia não é o fim do processo, mas o começo.  E aí fazer, fazer, fazer.
 
Minhas filhas estão aprendendo, estão praticando. E outras tantas crianças também. Ótimo que isso seja assim, aprendido e praticado desde cedo. Porque só dessa forma cria-se o hábito. E ter o hábito de conhecer, conviver, ser e fazer é meio caminho andado para nos tornarmos pessoas melhores, mais admiráveis, mais produtivas e mais felizes.

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