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ZONA LIVRE

16/12/2004 19:07

Método TBC de criação

Zé Henrique Rodrigues

Métodos e sistemas são comuns em todas as áreas profissionais, da construção civil à neurocirurgia. Para não fugir à regra, eu, como designer, desenvolvi um método altamente complexo e qualificado para a criação de peças gráficas. O método TBC é fruto de mais de 10 anos de experiência na OpusMúltipla, participando de pequenos e grandes trabalhos, desde simples folders até projetos de identidade corporativa. Em todos esses casos, independentemente dos prazos, custos e expectativas, percebi que, sem o uso do TBC, o resultado é fraco e cai no lugar-comum. Mas, afinal, o que é o método TBC de criação? Simples: "Tire a Bunda da Cadeira". Pode até parecer brincadeira de mau gosto, mas a minha intenção é ser o mais realista e objetivo possível. O ato de "tirar a bunda da cadeira" antecede qualquer etapa de um trabalho e, para muitos, é difícil e doloroso.

TBC significa simplesmente levantar e observar o mundo, experimentando novas emoções, novas sensações e ligando novos neurônios. Um designer que vai sempre aos mesmos lugares, assiste aos mesmos tipos de filmes, não escuta novas bandas e estilos, freqüenta os mesmos restaurantes, resumindo, faz sempre as mesmas coisas, não consegue encontrar novas soluções.

Uma vez, um professor da SVA (School of Visual Arts), de Nova Iorque, me falou: "o bom designer é aquele que consegue ter em sua mente um maior banco de imagens possível". Esse pensamento é a base do TBC e põe em xeque muitos profissionais que acreditam que, para criar, só é preciso um bom computador e um briefing por escrito. Sem vivência não há experiência e sem observação não há criação. Acredito muito na famosa teoria de Lavoisier: "na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". Observando atentamente o que disse o sábio químico, pode-se fazer uma analogia com a nossa área e descobrir que, quando desenvolvemos uma logomarca, não a criamos e sim transformamos uma série de informações absorvidas em algo tangível. Essas informações vêm desde a nossa infância, das primeiras palavras aprendidas até o último anuário que lemos. Quanto maior for o nosso "repertório", melhor e mais eficiente será o trabalho.

Somos transformadores de conteúdo e agentes de mudança de paradigmas. Parece complicado, mas é mais simples do que acreditar que criação é mágica: pega-se um papel em branco, um lápis bem apontado e pronto! Tem-se mais uma bela logomarca, desprovida de qualquer razão e emoção.

Nosso trabalho, como em qualquer outra profissão, é feito de muito esforço, insistência, pesquisa e observação. O momento da criação não vem somente na hora em que recebemos o briefing. Começamos a criar quando andamos pelo shopping, quando viajamos, assistimos à novela. Enfim, a todo momento e em todo lugar. Essa sim é a magia da nossa profissão: o mesmo trabalho desenvolvido por 10 designers terá 10 resultados distintos. Qual será o certo? Não há certo ou errado em design. Há o mais completo e o que desperta mais interesse e emoção.

O controverso designer austríaco Stefan Sagmeister conta que, no começo da carreira, quando ainda havia pouco trabalho, passava horas visitando museus e fazendo brainstormings. Sagmeister é hoje um dos mais cultuados designers no mundo e os seus trabalhos refletem exatamente o que o método TBC prega: um diferente ponto de vista das mesmas coisas do cotidiano.

Em muitos momentos, não conseguimos, por diversas razões, ter a profundidade conceitual que gostaríamos, mas, muitas vezes, não conseguimos ver as oportunidades para ousar e propor novas soluções. Trabalhos que parecem pequenos podem ser a grande chance para pensar diferente e surpreender pela originalidade.

Um bom exemplo disso é o display para ventiladores que desenvolvemos para a Electrolux. Havia pouca verba alocada para essa peça e o cliente buscava um diferencial no ponto-de-venda, valorizando os principais benefícios do produto: potência e baixo nível de ruído. A solução saiu do lugar-comum, trazendo à mente do consumidor a famosa cena do filme O pecado mora ao lado, com a atriz Marilyn Monroe. Como uma mulher de saia pode vender ventiladores? Eis a resposta. Outra peça que surpreende pelo inusitado foi desenvolvida com o simples objetivo de informar à comunidade local que a Praça Eufrásio Corrêa seria revitalizada pelo Espaço Estação (Shopping Estação, Estação Embratel Convention Center e Estação Cultura). A solução foi enviar para os moradores um banco de praça em miniatura, remetendo aos bons tempos de sentar-se com segurança e tranqüilidade para ler jornal e aproveitar o ambiente agradável da praça.

Caso você ainda não pratique o TBC, faça sem medo, com o coração e a cabeça abertos. Quebre seus conceitos e preconceitos. Tenho a certeza de que em pouco tempo os resultados serão visíveis e o seu trabalho ganhará mais credibilidade. Se não der certo, por favor, me mande um e-mail, pois sempre estarei disposto a rever os meus conceitos.

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zehenrique@opusmultipla.com.brZé Henrique Rodrigues (zehenrique@opusmultipla.com.br) é gerente de criação em design gráfico da OpusMúltipla Comunicação Integrada.

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