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ZONA LIVRE

17/11/2003 16:56

A matemática perversa

Mário Barreto

Com o nosso mercado andando como uma tartaruga, a matemática dos preços de produção entra em parafuso. Bate um desespero, as contas não param de chegar e aí começa a funcionar a matemática de guerra, o que chamo de matemática perversa. Com o argumento de que o mercado está devagar, que está todo mundo sem dinheiro e outras verdades incontestáveis, ficam os responsáveis pelos orçamentos malucos para fechar os negócios, com um medo terrível de perder o dinheiro — qualquer dinheiro —, e a calculadora a funcionar no modo perverso, sempre para baixo.
 
Por que chamo de modo perverso? Porque na matemática real quanto menor a quantidade de trabalho, maior deveria ser o seu preço, pois teremos menos oportunidades para pagar as mesmas contas. Se a necessidade mensal é de 100 e você tem 10 pessoas para pagar, simplificadamente cada uma contribui com 10. Os mesmos 100, divididos por apenas 2, dariam 50 para cada um...
 
O supermercado, os aluguéis, as escolas, os telefones, os equipamentos, os salários, enfim tudo, são insensíveis aos argumentos de que está tudo parado mesmo e mandam bala nos juros de qualquer atraso. Ao contrário, os clientes da produção quando pagam atrasado, o fazem sem qualquer correção.
 
A maioria dos clientes não se conforma em estar em um mercado ruim e exige um atendimento comparável ao dos mercados mais desenvolvidos. Só que no nosso caso isso significaria cobrar mais pelo mesmo trabalho, comparado a mercados mais desenvolvidos. E não é incompetência ou roubo, como alguns chegam a sugerir, é apenas matemática, aritmética. Cobram uma excelência que eles não podem pagar sozinhos, ou melhor, até podem em uma ou outra oportunidade, o que tem se revelado insuficiente para manter uma estrutura de excelência à sua disposição.
 
Algumas vezes cheguei a ouvir, "ora, mas em NY é mais barato!", como se eu fosse maluco de apresentar um preço maior do que o deles. Ora, o nosso equipamento custa mais caro, temos de pagar o transporte, o seguro do transporte, o desembaraço e hospedagem alfandegárias — à vista ou com juros de quase 10% ao mês — e, no final, tem-se menos clientes para dividir a fatura. Como poderia ser mais barato?
 
Este papo não adianta nada e no fim acaba valendo o preço mais baixo na maioria dos trabalhos. Isso vale para todas, as grandes e as pequenas produtoras.
O resultado é que o investimento diminui, nos equipamentos, nas pessoas. Sem dinheiro acaba-se contratando gente por salários menores, com padrões de consumo menores, outras realidades. Nas agências, nos clientes, nas produtoras. Deste jeito acaba-se ouvindo coisas do tipo: "Nossa! 5 mil por uma foto é um absurdo, do outro mundo!". Compreensível quando o gerente responsável pela aprovação ganha menos que isso e vai pra casa de Chevette 89 (estou exagerando... um pouco).
 
Continuando, o gerente diz: "Pago mil e olhe lá!", e aparecem 1.546,5 fotógrafos para fazer o trabalho (é que um é apenas "meio fotógrafo"), levados até à loucura pela matemática perversa. Coloque um zero na frente e troque para filme, é a mesma coisa...
 
O certo então seria dizer: "Olha só, o mercado tá ruim, o dinheiro tá curto e então eu coloquei este equipamento mais baratinho e este profissional mais baratinho para te atender, e você pega leve com as suas referências e especificações". Mas quem tem coragem para dizer ou praticar isso? Eu não tenho.
 
Na hora de valorizar o seu próprio trabalho, os clientes se colocam em Madison Avenue, com altas especificações e referências. Verdadeiros marcianos na terra de Marlboro. Mas na hora de falar de dinheiro, pulam para Belford Roxo sem a menor cerimônia.
 
O que fazer? Não sei, esta situação vem de muito tempo e atinge a todos, em menor e maior graus, dependendo do mercado e da estrutura geral da produtora.
 
O fato é que matemática perversa não funciona, as contas não batem e o resultado é uma inevitável fulanização do mercado, dos serviços, dos profissionais, dos clientes, de tudo. Mas ninguém quer se assumir medíocre, e então fica este teatro de faz-de-conta. De um lado, uns fingindo que estão no melhor dos mercados; do outro, uma briga no escuro para ver quem rapa o fundo do pote, mais pobres, menos preparados, mais saudosistas.
 
Eu, e já faz muito tempo, parei de reclamar. O que escrevi acima não é uma reclamação, é uma constatação. Para mim e minha produtora, a saída foi diminuir drasticamente os custos fixos, diversificar o mais possível a área de atuação da empresa e trabalhar bem próximo do cliente. Tem dado certo, ufa!, mas por pouco.

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