Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comHá algumas semanas, foi publicada uma pesquisa na revista norte-americana Ad Week, que aponta o custo médio de um comercial de 30" nos EUA em US$ 358 mil.
De tão relevante, a notícia foi prontamente transformada em anúncio, assinado pela Apro e pelo Clube de Criação de São Paulo, solicitando aos anunciantes brasileiros, que recebem uma das melhores e mais originais propagandas do mundo, a aprovação de orçamentos não iguais aos dos americanos, mas, pelo menos, um pouquinho mais realistas.
Na cotação do dólar da data em que estou escrevendo este texto, falamos de um valor médio de R$ 1.360.000,00 por um comercial de 30". Aí, de certo, você vai pensar: "Ah, mas a realidade lá é outra, trata-se do primeiro mundo, de verbas muito maiores..." É verdade. Assim como é verdade, também, que boa parte dos custos de um comercial é exatamente igual, cá e lá. Outra parte, devido à carga tributária, é mais cara cá do que lá. E uma parte menor, é bem mais barata cá do que lá. Já adivinhou que parte é essa? É justamente a remuneração dos profissionais que são cobrados, cotidianamente, a fazer cá comerciais iguais aos de lá, com verbas cinco a dez vezes menores. Isso sem falar no prazo. Lá, a média gira em torno de três meses. Cá, de duas semanas.
Agora, o negativo da Kodak custa cá o que custa lá. Às vezes, devido aos impostos, acaba ficando mais caro cá. A química para revelar o negativo é toda importada, assim como as máquinas. Quase todos os equipamentos de filmagem — como câmeras, travellings, gruas, cam-remote, stead-cam — são igualmente importados, com peças de reposição também importadas. Portanto, necessitam do mesmo cálculo de amortização e manutenção de lá. O mesmo raciocínio rege os cálculos para equipamentos de montagem e pós-produção.
Como é possível observar, já listei itens que representam mais de 40% do custo de um filme. E esses 40%, grosso modo, custam cá o que custam lá.
Onde está o milagre?
1. Está na criatividade dos produtores e diretores brasileiros, que conseguem rentabilizar ao máximo os parcos recursos que administram.
2. Está na remuneração, muito menor, desses profissionais em relação aos norte-americanos. Só para dar um exemplo, o cachê médio do diretor de um filme simples nos EUA é de US$ 20 mil. No Brasil, talvez trabalhemos com 10% desse valor.
3. Está na falta de remuneração de uma série de etapas do trabalho, como reuniões e montagem extras.
4. E está, finalmente, no esforço físico das equipes de cinema, que geralmente acabam realizando, em uma diária esticada, o trabalho de duas.
Com os negócios e as informações globalizadas da forma que estão, quem ainda não entendeu quão barato é filmar no Brasil, ou está mal informado ou com má-fé.
Dados são dados.
cine@cine.com.brRaul Dória é sócio-diretor da Cine Cinematográfica e presidente da APRO