Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comAcabo de ler um artigo escrito e ilustrado por Oscar Niemeyer que me deixou em estado de graça. Quero dizer, não somente pela lucidez do enfoque do assunto, mas, sobretudo, pelo fato de este maravilhoso brasileiro (que - não esqueçamos - é um dos mais importantes arquitetos do século XX) conseguir, aos 96 anos, preservar uma integridade ideológica e moral candidamente intacta. Como se fosse um jovem estudante inebriado pelos primeiros conhecimentos das coisas do mundo, mas já crente que seja possível resgatar uma vida mais digna para toda a humanidade.
A matéria versa sobre a guerrilha colombiana, que dura há 40 anos, e o perigoso pretexto que isso representa para uma infiltração militar do império norte-americano pelo desguarnecido lado oeste da Amazônia, que quase que só nominalmente repousa sob a soberania brasileira.
Ao longo da matéria, Niemeyer cita personagem de um livro seu - E agora?, editado em 2003 -, que ele define como literariamente despretensioso. O personagem, comunista da velha guarda, emudecido, mas não resignado acerca dos ideais de uma revolução socialista, vai ao encontro de um guerrilheiro colombiano que está no Rio de Janeiro. Usando as velhas táticas de despistamento, como nos tempos de perseguição da polícia política, ele chega ao companheiro. O encontro é caloroso e fraterno, mas as conclusões da conversa, à luz da razão, são tristes e desencorajadoras. O que não abala, no entanto, a fé e a tenacidade dos dois idealistas, dispostos a aguardar tempos mais oportunos, ainda que seja para sempre.
É evidente que o personagem reflete o pensamento do cidadão Niemeyer, assim como a linguagem plástica de toda a sua obra reflete não somente seu precioso talento, mas seu caráter de inabalável coerência.
A clareza das formas, a autenticidade dos materiais empregados, a total ausência de decorativismos supérfluos, a evolução imprevisível de curvas harmoniosas lançadas no espaço, a sensação que fica no espectador de algo inamovível, irretocável e único... Talvez tudo isso possa ser resumido em uma única expressão: arquitetura imaculada. Sim. Sem mácula, sem manchas, sem hesitações e sem ambigüidades. Arquitetura imaculada como o mundo que o velho arquiteto ainda pensa e deseja para as próximas gerações.
Ao contrário do que estou afirmando nesta crônica, alguns detratores acusam Niemeyer de incoerência, referindo-se a uma aparente discrepância entre as obras realizadas e sua linha de pensamento político. Por que motivo, perguntam, o exímio arquiteto, tão radicalmente socialista, não se limitou a projetar casas populares, parques infantis e asilos para velhos? (Ainda ontem ouvi um respeitável político dizer essa idiotice.)
De fato. Ateu, Niemeyer projetou catedrais e mesquitas. Indiferentemente, desenhou a sede do Partido Comunista de Paris e o hotel-cassino da Ilha da Madeira. Levando uma vida despojada de qualquer luxo e ostentação, criou palácios para hospedar a soberba dos poderosos de vários países do mundo. E, de passagem, com o urbanista Lúcio Costa, inventou uma cidade chamada Brasília, em um país governado por um regime político que não era o dos seus sonhos.
Apesar de ser uma obviedade para qualquer um que tenha uma cultura mediana, respondo à intransigência dos incautos. Razões de ofício, simplesmente razões de ofício, para felicidade de toda a história da humanidade. Não sabemos se Fídias era devoto de Palas Atenas, mas esculpiu os maravilhosos frisos do Parthenon. Michelangelo levou até bastonadas do papa Júlio II por atrasar suas encomendas, e pintou, para ele, o teto da Capela Sistina. Os artistas florentinos, pensassem o que pensassem, pintavam, esculpiam, cinzelavam e projetavam obras arquitetônicas para os Medici, senhores da cidade...
Desde o início das civilizações, em toda parte e em todos os tempos, os criadores das artes trabalharam quase que exclusivamente para os potentados pelo simples fato de serem os únicos que podiam custear as encomendas. O que nunca impediu, como ainda hoje não impede, que o artista imprimisse em suas obras seus sentimentos humanos e suas convicções filosóficas.
italobianchi@uol.com.brItalo Bianchi é consultor de criação publicitária