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ITALO BIANCHI

27/09/2002 23:42

Uma história além da imaginação

Italo Bianchi

A história é verdadeira. Nós, cidadãos recém-baldeados do século XX para o século XXI, somos testemunhas da sua autenticidade. Mas se tivéssemos sido contemporâneos de um ficcionista da mais férvida imaginação do fim do século XIX, e estivéssemos lendo, na época, um conto fantástico em que se preconizasse ascensão e glória de um inocente refrigerante até se transformar em um dos mais representativos ícones culturais do século XX, acharíamos, com certeza, que o autor estava ultrapassando os limites do plausível e abusando da nossa complacência.
Claro que ninguém sonhou em inventar uma história tão improvável, mas, no entanto, ela aconteceu, atravessou 100 anos de tempos modernos, e já embarcou no globalizante século XXI, exibindo seu produto cada vez mais cheio de saúde e mais repleto de significados.
O pequeno e venturoso momento de nascimento dessa grande história deu-se em Atlanta, Geórgia, na última década do século XIX. No auge de um clima de euforia empreendedora que tomava conta dos Estados Unidos, quando parecia que todo negócio inovador e arrojado era possível, um visionário, ajudado por casualidades abençoadas pela proteção divina do legítimo mercantilismo protestante (o sociólogo Max Weber que me desculpe a brincadeira), inventou e lançou um refrigerante.
A bebida — parece um conto de alquimia — foi o resultado da mistura de um inócuo xaropinho tonificante (parecido com muitos outros produzidos nos fundos das farmácias) com água gaseificada (dizem que foi acidental), e processada por um inédito sistema de homogeneização (cuja descoberta, dizem, também foi acidental).
Última e decisiva casualidade. Apesar de já existirem, na época, muitas opções de bebidas não-alcoólicas, resultantes sobretudo de associações de extratos de frutas com especiarias e ervas aromáticas, o sabor não frutado do novo produto, originado de um xarope medicinal, ganhou, de imediato, a imprevisível preferência dos consumidores — ele era único, inconfundível e extremamente palatável.
Foi a glória. A nova sensação conquistou rapidamente a América e, pouco depois, começou a se espalhar pelo mundo.
Tão simples assim? Claro que não. O empreendedorismo, que inspirava aqueles anos americanos, e o fator sorte, que gerenciou a criação do produto e a aceitação (até então imponderável) de um sabor inusitado, jamais seriam suficientes para escrever uma história de sucesso que foi além, muito além da imaginação.
Talvez inspirada pela presença maciça de anúncios de remédios da incipiente indústria farmacêutica na pequena e grande imprensa, nos pôsteres e na folheteria — que já garantiam um retorno em vendas proporcional ao investimento publicitário —, a empresa produtora do novo refrigerante apostou a fundo e para sempre na propaganda.
A fundo e para sempre. O que foi feito, ao longo de décadas, para promover a marca desse produto não tem precedentes, não tem parâmetros e não tem paralelos. O poder de persuasão dos seus apelos publicitários, pela variação temática e pela massificação — além da regionalização oportunista quando conveniente —, mais a gratificação à sua clientela por meio de um repertório infindável de brindes, concursos, prêmios, patrocínios etc. e tudo isso, somados a um hábito já totalmente institucionalizado de consumo, fizeram com que a marca da garrafinha cinturada se transformasse em um ícone da cultura contemporânea.
E, portanto, exposta, emblematicamente, a todas as conseqüências polêmicas — de ordem política, econômica, ideológica... Mas disso não vou falar. Está fora da minha seara.
Atento como eu estava, desde o começo desta crônica, em revisitar a história tão inimaginável e, por isso mesmo, tão fascinante de um produto que se transformou em ícone cultural de uma era, quase que me esqueço de dizer o nome da sua marca. Mas o meu paciente leitor entendeu, desde as primeiras linhas, que estava falando da Coca-Cola.
Aliás, Coke, para os mais íntimos.

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