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HORA DA PIZZA

10/03/2008 11:33

Ascensão e queda do criativo

André Gomes

O princípio da obsolescência programada, essa esperteza capitalista que nos obriga a trocar de geladeira de três em três anos, devia ser aplicado também a uma outra categoria de produtos: a dos “criativos que ganham cargos de chefia”.

Sim, porque uma hora o sujeito sucumbe à pressão e espana feito parafuso velho. Ninguém agüenta ser genial o tempo todo e ainda cuidar da burocracia administrativa de uma agência, prospectar clientes, assinar cheques e driblar os puxa-sacos. Não por muito tempo. Mas ainda assim os criativos mantêm a pose e não largam o osso.

Foi o que aconteceu com aquele VP daquela grande agência. Como é mesmo o nome dele? Criativo premiado, lançava mão das soluções mais originais com uma facilidade banal. Sofria, mas em poucas horas tirava pilhas de jobs da frente com o facão da genialidade. Entendia do riscado. Era admirado, vivia nas festas cercado de gente. Aí virou diretor de criação e para ser VP foi um pulo.

Então começou a desdita. O pouco tempo lhe impedia de lapidar as peças como antigamente e suas criações desaguaram numa mesmice e numa idiotia medonhas. Para piorar, vivia tão cercado de gente exaltando suas qualidades, insistindo tanto que “você é gênio, você é gênio” que ele acreditou. E foi vivendo de seu prestígio passado, que logo se transformou na mais cruel arrogância.

De quando em vez, alguém questionava um conceito, uma idéia, uma solução medíocre de sua lavra.

– Você não acha que esses anúncios não têm sentido?
– Sentido pra quê? Quem manda na criação sou eu.

Se o atrevido fosse alguém com um salário menor que o dele, era demitido sumariamente.

Nem os sócios da agência escapavam.

– Mas isso não tem sentido.
– Sentido pra quê? Quem manda na criação sou eu. Cale a boca!

E os clientes também entraram na dança.

– A gente até gostou mas, tipo assim, a campanha não tem muito sentido, né? – disparou a gerente de marketing.
– Olha, você pode até ser o cliente. Mas quem manda na criação sou eu!

Pobre criatura genial. Cinqüenta processos por assédio moral e vinte clientes perdidos depois, virou persona non grata e os donos da agência se irritaram mesmo. Então veio a conversa final.

– Você está demitido.
– Como é?
– Isso mesmo. Os sócios decidiram. Você não é mais nosso VP de criação, nem nosso funcionário, nem freela e nem nada.
– Ah, é? Quero ver encontrarem um talento como eu para manter o padrão criativo.
– Já encontramos.
– E eu posso saber quem é?
– Claro! É a sua mãe.
– Tá brincando.
– Não. Mamãe bate um bolão, hein! O povo aqui adorou o portfolio da velha. Só teve uma idéia dela que ninguém aprovou.
– Qual?
– Botar você no mundo.
– Não acredito. Perdi o emprego para a minha mãe! Isso não tem sentido!
– Sentido pra quê? Quem manda na agência sou eu. SUMA DAQUI!

Sem emprego e sem prestígio, o gênio mergulhou na bebida. E aos poucos seu nome desapareceu da lembrança do mercado.

Menos de um ano depois, o presidente dos Estados Unidos visita o País e a polícia local é encarregada de varrer as ruas. Os sem-teto são transferidos para um albergue. Os bêbados e arruaceiros, para a delegacia superlotada mesmo, onde termina esta história.

– Ó, chefe? – diz um meganha para o delegado.
– Que foi agora, Pessanha?
– Tem um cara aí gritando um troço estranho.
– É o loirinho com um cobertor nas costas agarrado à garrafa de pinga?
– Ele mesmo, delegado.
– Sei. E ele tá gritando o quê, Pessanha? Fala logo!
– Tá falando que é um tal de VP.
– Vagabundo pilantra?
– Não. Vice-presidente de criação.
– Vice-presidente, sim... só se for da associação dos nômades. Passa o sarrafo nesse estrupício e joga na cadeia, Pessanha!

P.S.: tudo bem, tudo bem. Isso não tem o menor sentido. Mas sentido pra quê? Quem manda nesta história sou eu!

André Gomes (horadapizza@gmail.com) é jornalista e publicitário.

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