Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comTarde da madrugada na pequena agência, naquelas horas em que o sujeito já não sabe se é melhor ir embora ou dormir ali mesmo para adiantar os jobs da manhã seguinte, um diretor de arte foi até a copa ver se tinha sobrado uma fatia da pizza daquela noite. Abriu a caixeta achatada de papelão e só encontrou uma azeitona murcha. Serviu.
Ele ficou ali, sonado, empurrando o caroço com a língua de um lado para o outro da boca, até parar os olhos sobre aquilo que quase o matou de susto.
– Meu Deus do céu! – gritou perplexo.
O berro atravessou as salas derrubando tudo como bronca de patrão, e a meia dúzia de almas que restava na agência correu até a copa e encontrou o criativo pálido, estarrecido, caído sobre os joelhos. Com as mãos entrelaçadas na altura do peito, ele olhava fixamente para a caixa da pizza.
– Que aconteceu, Coruja?
Estava mudo, o coitado.
– Fala, pô!
– Coruja, não assusta a gente, bicho!
Coruja abriu a boca e babou um caroço de azeitona.
– Viram... na caixa? – perguntou com uma voz trêmula, irreconhecível.
– Que é que tem, Coruja?
– Na tampa. Na tampa!
Em dois segundos, os criativos estavam todos de joelhos.
– Nossa Senhora!
– Mais pode Deus!
– É um milagre!
Na parte interna da tampa da caixa da pizza, estampada misteriosamente pela gordura do queijo, estava a causa do espanto: uma inexplicável imagem do Washington Olivetto.
Os primeiros curiosos chegaram minutos depois para ver o portento. Aquela imagem só podia ser um recado divino! A novidade correu solta no mercado e agora mais e mais pessoas surgem do nada para ver isso de perto.
– Faz um pedido pra imagem, boba! – sugeriu a moça da faxina à recepcionista da agência, que estudava propaganda e havia meses esperava uma vaga de estágio na criação.
Religiosa, ela pediu em voz alta:
– Eu quero o meu estágio agora!
No instante seguinte, tocou o telefone. Era o Eunuco, estagiário vitalício, avisando que tinha quebrado a perna e sairia em licença médica. Sua substituta seria a recepcionista.
– Milagre! Viva Santo Olivetto!
É claro que uma notícia dessa tinha que parar na imprensa e virar comoção nacional. Resultado: romarias não param de chegar à agência a qualquer hora do dia e da noite. Filas imensas, organizadas pela polícia e por publicitários desempregados voluntários, dão várias voltas no quarteirão.
No jornal das oito, entrevistas com romeiros e fiéis chamam a atenção dos telespectadores mais incrédulos.
– Eu fiz uma promessa para a imagem da caixa da pizza e fui atendido.
– E o que você pediu?
– Pedi para mostrar minha pasta ao Rui Branquinho!
Os depoimentos aparecem de todos os cantos.
"Ganhei um aumento de cem reais e ninguém me pediu pra chegar mais cedo."
"Saí da agência às sete horas da noite em ponto."
"Devolveram minha caneta."
"Meu pai parou de beber!"
Especialistas estrangeiros, atraídos pelo fenômeno paranormal, desembarcaram por aqui para fazer uma série de análises e descobrir os fundamentos da manifestação misteriosa. Até agora, nada constataram. Exceto o fato de que as faculdades de propaganda bateram novos recordes de procura por vagas, o mercado de souvenires decolou com a venda de camisetas do Santo Olivetto e o patrão do Coruja vai ganhar a maior grana cobrando entrada dos fiéis que querem ver a imagem.
Enquanto isso, em algum bar da cidade, dois diretores de criação desaforados procuram a pulga que fica atrás da orelha.
– Será que é o fim do mundo?
– Nada! Isso é mais uma do Washington. Não conhece a peça? Se ele fosse milagreiro mesmo, já tinha dado um jeito no Corinthians.
André Gomes (horadapizza@gmail.com) é jornalista e publicitário.