Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comAh... o amor. Quando resolve ser inconveniente, é pior que atendimento convencido da própria competência. Aparece nos horários mais insuspeitos e nas situações mais bisonhas, envolvendo as vítimas mais improváveis em suas garras adocicadas.
Taí o caso daquele criativo, exímio copista. Aquele que passava o dia copiando os anúncios dos anuários e vendendo como se fossem dele. Batia os olhos em uma peça e fazia outra igualzinha. Chupava títulos, slogans, imagens, idéias. O amor para ele aconteceu assim. Do nada. Tarde da noite na agência, estava o plagiário tungando descaradamente mais um conceito criativo quando a viu pela primeira vez e sentiu uma pontada no peito. Não fossem gases, só podia ser amor.
Que mulher! Linda, eficiente. Elétrica. Àquela hora em que o mundo se via exausto, ela ainda estava no pique, bafejando charme e competência. Olhou-a mais de perto e teve certeza de estar diante da criatura perfeita para ele. Era ela! A mulher de seus sonhos: uma Xerox Workcentre 7132, uma copiadora de última geração.
- Nova na empresa?
- Novinha.
- Indicação?
- Cartucho.
Ele estava apaixonado, caído aos pés da moça. Pudera. Ela era uma verdadeira máquina. Copiava, imprimia em frente e verso, mandava fax, escaneava. Tudo com velocidade acima da média, qualidade insuperável e um barulhinho irresistível.
Como nas histórias mais açucaradas de amor, ele foi correspondido. A copiadora caiu na malha do copista e se entregou de bandeja a seus braços. Foi amor à primeira cópia. Naquela mesma noite, rolaram no chão da agência, lambuzados de saliva e toner, nascidos um para o outro. Ele, um plagiário tarado. Ela, uma copiadora insaciável, ligada em 220 volts.
- Foi bom pra você?
- Tira mais uma cópia...
O rapaz estava encantado. Contou a ela dos prêmios que ganhara com campanhas copiadas, falou das gírias e dos muxoxos que havia chupado de criativos que admirava. Mostrou a tatuagem que fizera na virilha, idêntica à de uma redatora famosa que havia posado para uma revista de sacanagem. Fez de tudo para passar uma boa impressão.
E funcionou. Daí para o namoro foi um pulo. Nos fins de semana , faziam longos passeios por papelarias, parques gráficos, bureaus de impressão e bancas de jornal que tiram xerox.
Eram um casal perfeito em uma história de amor impecável. Tirando o natural sentimento de competição que surgiu entre eles – ela fazia dezenas de cópias por minuto e ele perdia uma hora inteira para copiar um único anúncio – estava tudo muito bem.
Tão bem que o criativo decidiu pedir a mão da amada em casamento. Naquele dia, rumou para a agência mais cedo, o sorriso impresso no rosto e duas alianças guardadas no bolso. Queria fazer uma surpresa. Convidar a moça para a tão sonhada vida a dois. Mas o destino copiou suas intenções. E justamente uma outra surpresa o estava esperando. Ele entrou na sala e encontrou sua musa copiando para a agência inteira, numa verdadeira e copiosa suruba. A danada era chegada em impressões a três, a quatro...
Foi assim que acabou o amor do copista e da copiadora. Sem um pingo de tinta. Exatamente como havia começado. Do nada.
Só lhe restava partir para outra. Mas isso não ficaria assim. Ressentido, frustrado, doído e azedo, ele rasgou suas cópias e decidiu se vingar do mundo: foi trabalhar no atendimento.
André Gomes (horadapizza@gmail.com) é jornalista e publicitário.