Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comAh... bons interlocutores estão cada vez mais raros. Seres como Zanzivélzio, um pernilongo filósofo e vegetariano, e Creuza, uma barata voadora culta, inteligente, observadora e generosa, são verdadeiras preciosidades.
Pois lá estavam o Zanzivélzio e a Creuza, falando irresponsavelmente sobre assuntos que desconheciam. A geografia da lua, as fazendas de pérolas, o preço do camarão, os cangurus pugilistas. E por algum motivo lembraram de um amigo comum, Ari, o Aristóteles, uma ave vira-bosta de espantosa cultura.
O pernilongo disse à barata que de todos os axiomas e pensamentos, de todas as frases e idéias de Ari, sua favorita era aquela do animal político.
“O homem é um animal político”.
A barata concordou e acrescentou:
– E todo político é um animal em forma de homem. Animal de tetas, rabo, pêlo e baba.
Creuza estava irascível. E se pôs a falar e trepidar as asas.
– Só uma intenção predadora explica os quase R$ 2,9 bilhões gastos em 2006 pelos deputados e senadores brasileiros apenas com os salários de seus funcionários!
Para uma barata, ela estava cheia de informações.
– A Câmara dos Deputados tem cerca de 14,7 mil funcionários. São 29 empregados por parlamentar. É mole, muriçoca?
A barata andava em círculos e continuava:
– Quer mais? Pode conferir nos sites do governo. Só o Senado Federal tem 6.248 funcionários. São 77 servidores para cada Senador da República. Um disparate!
Creuza insistia nos cálculos:
– Os salários dos funcionários da Câmara mais os dos empregados do Senado resultaram em uma despesa de R$ 2,9 bilhões só em 2006. Dinheiro que sai do bolso dos brasileiros!
Impensável mesmo, Creuza.
– Isso sem contar os salários e benefícios dos próprios parlamentares! Essa gente ganha dinheiro demais em um país miserável! As conquistas da democracia no passado são usadas no presente contra os cidadãos. Deputado ou senador nenhum está interessado em ajudar o povo que paga impostos! Essa gente quer mesmo é aumentar os seus rendimentos! O povo precisa ir às ruas, pegar em armas!
Creuza tomava fôlego para continuar seu discurso inflamado quando um súbito deslocamento de ar e um estouro assustaram o pernilongo.
PÀÁÁÁ!
O aguçado reflexo das muriçocas levou Zanzivélzio para longe do estrondo. Ele pousou na parede mais próxima, olhou para baixo e só então se deu conta do que acabara de acontecer. A pobre barata jazia esmagada no chão, sob uma legítima sandália Havaianas.
E ainda dizem que a censura acabou.