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FERNAND ALPHEN

01/11/2007 12:44

O que é do povo é classe

Fernand Alphen

Nunca haverá de ser diferente: quem cria para as massas não pertence às massas. Quando muito, nasceu na mesma condição da maioria. Quando muito, mas, ainda, raras vezes. Há quem goste de usar argumentos falaciosamente fascistas para explicar o fenômeno: “vamos dar para o povo o que é bom”, como quem diz “o povo não sabe o que é bom”.

Outra alternativa é desprezar eventuais diferenças de realidades e fazer “o que funciona e sempre funcionou”. Criação simples, no mais puro espírito “repete e grita que os burros acabam entendendo”. Outros fazem pesquisas de imersão, etnográficas, safáris e choques culturais que tais. Ajuda a entender, a aceitar na melhor das hipóteses.

A tônica, no entanto, em qualquer desses “caminhos”, é temperada, inapelável e muitas vezes inconscientemente, por uma palavrinha cabreira: preconceito. O preconceito de achar que “se é de muitos, não presta pra mim”, ou, simplesmente, o preconceito de pobre, de preto, de quem fala errado, de quem come errado, de quem se veste errado.

Preconceito não se combate com informação, nem bem-intencionadas pesquisas que só servem, quando muito, para combater nossa ignorância. Um bom truque é despir-se do gosto. É apreciar sem julgar. É tentar comungar. Abrir o coração e inutilizar a cabeça. Funciona e é muito mais gostoso.

Fui convidado para a gravação do quarto DVD da Banda Calypso em Goiânia. Não pode ser à toa que eles são a banda mais popular do Brasil, como apontou a pesquisa, amplamente divulgada, da F/Nazca S&S.

Eu já era um fã sincero da extraordinária trajetória deles. Mas tinha que ter alguma coisa além da minha admiração pelo modelo de negócio que subverte totalmente os inflexíveis esquemas de promoção e distribuição de música, sem gravadora, sem padrinho, sem crítica e — até ontem — sem apoio da mídia, que a Calypso prega com enorme sucesso.

Tinha de ter algo que ia além da minha simpatia por tudo que torce pela subversão das regras instituídas para beneficiar poucos e assaltar a maioria (já compararam o preço do CD no Brasil com o de outros países, inclusive pobres como nós?).

Tinha de ter algo além da convicção de que o direito autoral é uma regra morta e incontrolável justamente porque ela é um dos maiores cabrestos ao desenvolvimento criativo do País. A Calypso, assim como outras incríveis bandas de brega e forró, namoram oficialmente com esquemas de distribuição alternativos (deve existir pelo menos meia dúzia de bandas Calypso covers por aí, vendendo mais CD do que muito figurão da MPB).

Tinha mesmo. Tinha a vibração do público galvanizado com o show; tinha a simpatia extrema da Joelma, seu sorriso, sua graça, seu jeito criança, sua elegância sensual; tinha as guitarradas do Chimbinha e seu transe com a platéia; tinha a produção impecável, de gente grande, sem nada a dever a ninguém.

E tinha eu, freqüentador empolado dos festivais de música clássica, balançando a perninha, rebolando acanhando e cantando “doce mel, doce mel”.

Fernand Alphen (falphen@fnazca.com.br) é diretor de planejamento da F/Nazca S&S.

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