Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comAgora o que pega é a tal da responsabilidade socioambiental. Virou mania de 10 entre 10 empresas nacionais. Alguns saíram em desespero catando suas caridades esporádicas, outros dando cartas de nobreza às iniciativas ocupacionais das primeiras- damas, ou tirando da cozinha os investimentos anônimos. Mas, ironias à parte, não é difícil encontrar um punhado de comprometidas marcas, ainda que o discurso seja mais contundente que a prática.
Os modismos são poderosos motores de transformação. São até mais fortes, embora conseqüência, de outros episódicos surtos como o índice dow jones de sustentabilidade, a palestra apocalíptica e chorosa de Al Gore, os 35 graus em pleno inverno, o pum das vacas brasileiras, o ursinho polar desgarrado em sua calota à deriva, o Monte Fuji que perdeu a careca e as liquidações cada vez mais cedo.
Como sempre, quando a coisa vira moda, a coisa vira.
Mas sustentabilidade é um conceito um pouco mais inteligente do que deixa crer nossa vã publicidade.
Sustentabilidade não significa apenas dar gás ao auto-sustento. Sustentabilidade é o inverso da independência, é exponenciar a interdependência. Em outras palavras, é fazer o dinheiro circular e vencer seu vício concêntrico. Não é mascarar a vergonha com esmolas públicas e privadas. É acreditar que o apartheid social é uma questão de preconceito, e não de descaminhos estruturais. É derrubar sacros paradigmas legais em prol dos avanços. É ter mais fé e menos cinismo.
Fui, recentemente, ao Conexões Urbanas no Complexo do Alemão. Tinha o funk do Furacão 2000, a performance musical do AfroReggae e Marisa Monte.
"Tomara que um dia todos os traficantes e policiais possam transformar suas armas em guitarras."
(José Júnior, coordenador do Afroreggae, na 47ª edição do Conexões Urbanas no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro)
Cenário surreal: na mais perigosa zona de conflito do País, onde as leis não são do asfalto, pousa o ícone da sofisticação musical brasileira com megaprodução. E também a alegria do funk. E também a paz do Afroreggae.
Gente se divertindo numa espécie de experimentação miscigenada.
A arte como veículo de paz dá álibi às divergências ideológicas, aos interesses.
O Conexões Urbanas, promovido por essa extraordinária "holding social", o Afroreggae, é o mais eloqüente significado do que deveria ser (ou é) sustentabilidade. É levar para lá e trazer para cá recursos, dinheiro, inspiração, alegria, paz. Para lá e para cá.
Tenho dificuldade de ainda crer na imprensa, na literatura e no cinema que há décadas se descabela para investigar e denunciar. Mais ainda nas iniciativas “emburguesadas”, ou nos críticos de pijama. De que serve a entrevista do Mano Brown no safári complacente promovido pelo Roda Viva? Alguma coisa nova? De que ainda serve o Tropa de Elite e o triste comentário do Cony?
De que serve a força de segurança nacional que transforma as ruas em praça de guerra?
Mas um MC na galera do Conexões sacou tudo. Quando ele disse que um show desses por mês resolveria boa parte dos problemas, acho que eu também saquei.
Fernand Alphen (falphen@fnazca.com.br) é diretor de planejamento da F/Nazca S&S.