Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comOu usando o Stanislaw Ponte Preta: "O festival de besteiras que assola o País".
Desculpe-me, caro leitor, mas não dá mais pra segurar. Antes de ir a Cannes já estava com essa sensação. Agora, na volta, não agüento mais. Vou por pra fora. É impressionante como a mídia, tanto impressa como eletrônica, foi invadida pela escatologia. A propaganda, de um modo geral, está sofrendo de problemas gastrointestinais. Fico abismado com anúncios e comerciais de TV que, para tentar desesperadamente vender seus produtos, apelam para piadas de mau gosto, usando situações de "pums", arrotos e vômitos (desculpem-me). O efeito "Dumb and Dumper" (Debi e Lóide) assola o País.
O festival de besteiras tomou conta da gente. Todos nós, da criação ou atendimento, sabemos o quanto é difícil aprovar uma idéia hoje em dia, por mais simples que possa ser. Temos de passar por uma verdadeira legião de marqueteiros, que, impreterivelmente, põe o dedo em tudo, transformando a idéia em uma coisa amorfa, sem graça, besta.
Vi, como todo mundo que estava no Palais, comerciais como o da Penélope Cruz, em que ela entra num bar, pede uma Coca-Cola e, depois de tomar em um só gole todo o conteúdo da garrafa, solta um sonoro arroto para quem quiser ouvir.
Vi também outro comercial, na categoria "publication & media", em que um homem surpreendido pela polícia federal num determinado país de terceiro mundo é suspeito de ser o "mula", isto é, a pessoa contratada pelo tráfego para levar a droga de um lugar a outro. Esse cara é convidado pelo policial a defecar — isto mesmo, de-fe-car — na frente de todo mundo, para provar que está "limpo".
Não é que, para espanto da platéia, o suspeito, literalmente, defeca um homem em tamanho natural diante da câmera?
Esse homem, que estava envolto em um filme plástico, é nada menos que um repórter de uma tal revista ou jornal, que sai de dentro do intestino do sujeito com um bloco de anotações e um lápis, para mostrar que o jornal está acompanhando os acontecimentos "in loco".
Outro, para uma pastilha antiácida ou sei lá o quê, mostra um rapaz que está em seu sofá vendo TV, quando começa a passar mal e vomita um cachorro enorme, e — pasmem — vivo.
Vamos parar, gente. Propaganda não é isso. O público não é idiota, não é debilóide. Não é assim que se impõe respeito. Não é assim que presidentes, diretores e gerentes de marketing e propaganda vão acreditar na equipe e na agência.
Depois não tem volta, não adianta chorar, dizendo que o cliente não entende a agência, a criação. Tenho certeza de que não é assim. Ou, como diria a "mia mamma": "Respeito é bom, e eu gosto!".
rocca@dpz.com.brCarlos Rocca é diretor de criação da DPZ e membro da diretoria do Clube de Criação de São Paulo