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30/05/2003 17:16

Ouvidos para o mercado

Amaury "Bali" Terçarolli

De repente, surge aquela idéia. Talvez a melhor idéia que você já teve em toda a sua carreira. Você se entusiasma, o coração bate forte. Como ninguém tinha pensado nisso antes? Tava tão na cara, simples, fácil de produzir... Pra melhorar, é perfeita para o job que tá na sua mesa, certinha pro briefing que foi passado pelo atendimento para aquele seu cliente supercomplicado. Você dá uma formulada na idéia, mas sente que ainda falta algum detalhezinho, alguma coisinha. Olha por entre os computadores à sua frente e consegue ver um pedacinho da cabeça do seu dupla.
Com todo o entusiasmo do mundo, você começa a contar a sua idéia, todos os detalhes. Você encena, chega até a interpretar a velhinha do filme. A cabeça do seu parceiro balança, e o seu entusiasmo cresce com a aprovação dele. Legal que ele também está gostando. Você ainda comenta:
— Meu, mas você não acha que tá faltando, sei lá, um negocinho no final?
A princípio, ele não responde. Você pensa: ele deve estar tentando melhorar alguma coisinha. Talvez pensando no finalzinho. Você pergunta de novo: — Não é legal pra cacete?
Então ele olha pra você, arranca o foninho de ouvido da orelha e fala: — É, Santana, o último CD tá demais, né?
Aí você percebe que a sua idéia talvez não fosse tão boa quanto pensava, ou talvez seu dupla não estivesse preparado para uma idéia tão arrojada e genial como aquela, ou sei lá o que mais uma pessoa pode pensar numa hora dessas.
E foi assim que eu comecei a reparar na quantidade de gente que trabalha de foninho no ouvido. Pra tirar a dúvida se isso rolava em todo lugar, liguei para uns amigos, e pelo jeito a história se repete em todo canto. Não que eu tenha alguma coisa contra música, muito pelo contrário, mas acho que tem hora que ela atrapalha, sim. Numa dupla de criação, com certeza ela atrapalha. Porque fica difícil você conversar com alguém que está sempre com um fone de ouvido na orelha.
Há os mais descolados, lógico, que usam a velha técnica de deixar uma orelha com um foninho e a outra sem, pra poder conversar, mas basta uma musiquinha mais legal e aquela orelhinha, que era sua por direito, é tampada rapidinho.
Hoje parece que virou uma regra. O cara, para poder se concentrar, bota o trequinho na orelha e esquece o mundo. E acaba esquecendo inclusive que trabalha em dupla. Eu estranho muito que isso seja uma coisa cada vez mais comum. Vejo estagiários com foninhos de ouvido, vejo redatores, diretores de arte, na verdade me sinto quase como um estranho no meio de tanta gente usando o tal foninho.
Estranho porque sou do tempo em que uma dupla conversava, trocava idéias, sentava lado a lado, no fundo era uma coisa só. Sempre me pareceu que o trabalho fica mais gostoso, as idéias ficam mais redondas... e o resultado, melhor. Tem de ficar, ou então aquela máxima de que duas cabeças pensam melhor que uma não vale pra nada.
É lógico que existe o lado engraçado. Olhar aquele bando de cabecinhas balançando em ritmos diferentes, cada uma no seu, é divertido. Um cara cantarolando distraído uma música do Ira, inteirinha, totalmente fora do tom, e, ainda, ver o cara se entusiasmar na hora do "Feliz aniversário..." é divertido.
Mas me divirto mesmo quando escuto o telefone tocando, desesperado, querendo uma atenção, enquanto aquelas orelhas só escutam a musiquinha. Porque pode ser alguém querendo fazer a proposta da sua vida... e você não escutou. Bem feito!

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bali@loducca.com.brAmaury "Bali" Terçarolli é diretor de criação da Loducca e membro da diretoria do CCSP

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