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27/09/2002 23:17

Quem não tem Cannes...

Carlos Righi

Eu não fui convidado para ser jurado em Cannes. Então aceitei o convite para ser jurado em Quito, fazer o quê! Não estava fazendo nada mesmo… Festival do Equador, hummm… E quer saber? Adorei. Aprendi muito.
O Equador é um país pequenito, paupérrimo e magnífico. Tem uma paisagem deslumbrante: vulcões ativos e passivos (mas machos, muito machos), cordilheiras, lagos, praias, a Floresta Amazônica, Galápagos. Da janela do meu quarto dava para ver três vulcões. Nomes quíchuas que eu não consigo lembrar, de uma paisagem que nunca vou esquecer.
Quito tem um centro histórico que é patrimônio da humanidade, tombado e bem preservado. Com quase 500 anos, exibe uma arquitetura colonial espanhola exemplar e igrejas forradas a pó de ouro, magníficas. Parece locação de filme americano sobre República de Centro-América, aquela produção que sempre achamos exagerada. Existe. Está lá.
E que figuração: pelas ruas, vemos um povo pobre, mas orgulhoso, trajado a caráter, descendente direto dos poderosos incas. Carros novos se misturam àqueles velhos, enfeitados e engraçados ônibus apertados, que eles chamam carinhosamente de bussetas.
Entrei numa. Fui até Otavalo (pronuncia-se Otabalo), cidade que exibe um mercado ao ar livre famoso, desde antes dos incas, por seu artesanato têxtil colorido e festivo. Bárbaro. Sua moeda vale mais que a nossa. Chama-se dólar.
Depois da crise de 1999, eles dolarizaram a economia, mudaram o presidente e agora ostentam o maior crescimento econômico da América Latina.
Almoço típico: entrada de ceviche de camarão. Para quem não sabe, ceviche é o peixe ou o camarão cozido e conservado no limão. Em cima do molho, pipoca e piruá. Uma delícia. Prato principal: fritada. Carne de porco, batata, salada, abacate e mais pipoca. Eles amam pipoca. E amam futebol.
O país estava exageradamente adornado para a Copa do Mundo. Excessivamente enfeitado: ruas, carros, muros, roupas, bares e restaurantes. Eles achavam, sincera e inocentemente, que venceriam.
Retrospecto: ganharam do Brasil, lá (a 2.800 metros, altura que não dá nem para carregar a mala no aeroporto). Ganharam da Argentina, em Buenos Aires (o.k., o.k., a Argentina já estava classificada). E desclassificaram a sensação sul-americana dos últimos anos, a Colômbia. Um feito e tanto.
A primeira Copa do Mundo do Equador. E eles crentes e valentes. Eu estava lá e vi a decepção quando eles perderam para a Itália. Justo para a Itália, aquele timinho que perdeu da Croácia, perdeu da Coréia e que não passou de um empatezinho com o México. No segundo jogo perderam de novo para o México. Bom, depois eles ganharam da Croácia, mas aí eu já não estava mais lá. Nem eles estavam mais na Copa. Ironia: agora os italianos acham que o juiz equatoriano os tirou da Copa.
Mas, voltando ao assunto, acho que foi essa ingenuidade e essa alegria comovente que me encantaram no Equador. Quando terminei minha palestra sobre o Clube de Criação de São Paulo, abri a sessão de perguntas. Braço levantado, um jovem corajoso e curioso disparou:
– Como termina O Clone?
Foi a primeira e a última pergunta da noite. E sobre propaganda… Bom, se você quiser saber sobre propaganda, eu aconselho outro festival.

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