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CCSP

27/09/2002 23:15

Que Big Brother o quê!

Mariangela Silvani

Vou direto a um assunto que me incomoda faz tempo. Quem foi o filho-da-mãe que derrubou as paredes da criação? Acabaram com nossa individualidade, invadiram nossa privacidade e fizeram com que criássemos e nos comportássemos todos iguais.
Acabaram o silêncio e a cumplicidade das paredes, acabou o sossego dos tiques e das manias de cada um, que antes podiam ser praticados à vontade.
Ai, que saudades do tempo em que eu podia, por exemplo, bater minha cabeça na parede pelo menos umas três vezes por dia. Agora não dá, alguém pode estranhar.
Em compensação, a maioria dos homens continua escarafunchando o nariz, arrotando e soltando puns na nossa frente como se não existíssemos. Todos muito à vontade.
Daí, nós mulheres e sempre minoria na criação, só temos duas alternativas: fingir que não vemos nada e ficar lá com aquela cara de patza de walkman nas orelhas, ou entrar na história, assumindo a linguagem e o dialeto. (O que não inclui tirar meleca, arrotar e soltar puns, por favor!) Tudo para ser aceita pela turma do salão sem paredes.
E quando a gente se toca, tá lá em casa no almoço:
– Vó, esse macarrão tá do caralho!
Que saudades das paredes, mesmo com seus ouvidos e, principalmente das portas, que nos permitiam entrar e sair de fininho por elas. Os olhares trucidantes dos companheiros de galpão (outro modismo) não perdoam nada. Não adianta tentar esconder a indefectível sacolinha do shopping ou o cabelinho novo. Eles vêem tudo. E contam. Contam mesmo.
Logo, logo, vão inventar agência em piscinão. Só quero ver os fofos, que vivem dando nota para as mulheres da agência, trabalhando de sunguinha e barrigão.
Algumas agências têm baias. Ah, essas são muito boas. Todo mundo que tem menos de 1,50 m de altura está superfeliz. Mas é muito produtivo um dia de trabalho no salão. Começamos o dia sabendo quantas mulheres o cara da esquerda diz que comeu na noite anterior e quantas o da direita tentou comer. Enquanto isso, o cara da frente briga com o namorado e ficamos sabendo quanto o cara de trás tem na poupança.
Em compensação, todos escutam nossa conversa com o ginecologista, dão palpites no papanicolau, no casamento, sabem como deseducamos os filhos e sabem até quando fazemos depilação.
Você lá, tentando falar baixinho e todos de orelha em pé:
– Quero marcar depilação. Pernas, buços, virilhas, pés e mãos.
Todos olham pra gente e a gente se sente uma macaca.
É uma delícia o maravilhoso mundo da criação sem barreiras!
Job ruim, todo mundo cai fora; trabalho bom, todo mundo entra na ficha.
Vai ver que é também por isso que propaganda original e personalizada está cada dia mais difícil. Saem todas do mesmo salão, das mesmas referências, dos mesmos livros e revistas, das mesmas músicas, dos mesmos assuntos, das mesmas piadas. Nada contra ter uma salona para brainstorm, bate-papo, jogar bola, seja lá o que for. Mas acredito que, em algumas horas, o silêncio e o recolhimento são fundamentais.
Acreditem, homens que derrubam paredes: o trabalho rende mais. E agora, licença que a turma do salão tá me chamando pra uma pelada. (Pode ser de futebol ou de um prédio em frente.)
E eu vou.

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mari.silvani@taterka.com.brMariangela Silvani é redatora da Taterka Comunicações e diretora de divulgação do CCSP

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